12.11.2009

Fevereiro negro


























02.02.2010

O número mágico


























Tenho uma amiga que é a cara de um dos elementos dos Yo La Tengo, mas não é por isso que gosto deles. E passei a dar-lhes mais valor depois de tornar a perceber que um triplo-CD (há também o Orphans ou o 69 Love Songs) pode resultar numa taxa de total aproveitamento do seu material. O que sucede no caso de Prisioners of Love, ou o rock traduzido para a sensação de Verão que se demora em triplicado. Trouxe-o(s) hoje comigo.

12.10.2009

Iniciais B.B.


















Tudo em Benjamin Biolay tem aura de capricho. Começando pela sua imagem. Do capricho decorre o excesso, que alguns poderão considerar... excessivo. Escutem La Superbe e tirem as vossas conclusões. Eu já pensei uma e outra coisa, e hoje penso uma e a mesma coisa. Permito-me também esse capricho.

Os pontos específicos
















A coisa não bateu logo. Acabou de bater. Aliás, bateu só depois do almoço. Candy é um filme dividido em três partes – Céu, Terra, Inferno – que faz equivaler a vivência da droga com o estado da paixão. O tratamento é justo e não esquemático. A gente só toma consciência do paralelismo mais tarde. Enquanto o filme decorre limitamo-nos a acompanhar a banal história dos amantes condenados pela ingenuidade da entrega narcísica, irresponsável, e inconsequente. Aparentemente condenados pelo consumo da droga. De verdade condenados porque qualquer paixão fica ameaçada quando alguém não consegue fazê-la evoluir para algo que tenha menos a ver consigo do que com o outro. A euforia sentida por Dan (Heath Ledger, estupendo) e por Candy (Abbie Cornish, actriz que possui a fibra e alguns traços de Nicole Kidman) foi aquela que vários de nós terão alguma vez sentido. Depois vem a realidade, sob a forma da imposição dos caprichos: a ressaca do sentimento que nos deu essa sensação de poder ilusória. E finalmente a inevitável separação dos corpos, quando os Egos já se haviam separado anteriormente. Tudo isto é cliché, é tudo experiência universal. Onde Candy marca pontos específicos é nos atalhos da narrativa. Naquilo que é consequência lateral dos estados absolutos. O momento em que Dan se dirige a um amigo mais velho, homossexual (Casper/ Geoffrey Rush), perguntando-lhe sobre as expectativas dos homens quando recorrem a um prostituto. É que Dan acha que não conseguirá ter uma erecção com um homem, e isso pode comprometer os engates que se propõe fazer para obter dinheiro para a droga. Ou então na boa cena final, no restaurante onde Dan passa a trabalhar depois de se separar de Candy e de esta ter sido hospitalizada, quando a rapariga o visita e ele percebe que o que ambos viveram faz parte de um passado que não tem hipótese de ver-se actualizado. O tempo daquele sentimento havia-se esgotado, constituindo memória com que ambos se tinham de reconciliar. Sendo este Candy uma evocação – da mulher, de um tempo, daquela atribulada relação –, é na representação da tomada de consciência do que a passagem do tempo tem de relevante na sedimentação das memórias que o filme de Neil Armfield conquista a sua maioridade, torna-se adulto e ele próprio em parte (pontos específicos) memorável.

12.09.2009

Barreira de som





















São dois discos que definem o meu ano musical. Os Dollar Llama têm o melhor registo português de 2009. Stoner rock a escorrer para o metal e uma robustez que nunca esmorece, nem mesmo nos momentos mais melódicos. Para quem aprecia riffs poderosos e graves, os Dollar Llama garantem música de qualidade que transcende a sua geografia. Uma passagem basta para terraplanar qualquer preconceito. Já os Sunn O))) são americanos. Estão no centro do mundo, e da Terra. Mexem com os elementos. Operam lentamente o magma sonoro. Metem respeito. Metem medo. A gente ouve-os com cautela, quanto mais não seja quando estamos no movimento de aproximação. E o receio do culto só deixa de fazer sentido quando abandonamos o lado racional, para nos dispormos a sentir os sons. A sermos transformados por eles. É então que passamos a fazer parte do ritual, em vez de nele nos integrarmos. Os preconceitos que trazemos, não são aqui terraplanados, antes pacientemente desintegrados. O fim da matéria é o primado do espírito. Pode parecer pretensioso; os Sunn O))) podem até ser pretensiosos. Mas fazem-nos sentir especiais e ousados.

12.07.2009

Os melhores filmes estreados em sala em 2009


















Nenhum filme, como nenhum livro ou nenhum disco, ajuda verdadeiramente a viver. Mas os filmes e livros sobretudo, assim como alguns discos, que me interessam, são os que produzem a ilusão de que ajudam a viver. São objectos que iluminam aspectos recônditos dentro de nós, fazendo-nos sentir fortes e lúcidos, mesmo que por pouco tempo. Objectos que reforçam a nossa descrença nas virtudes da vida e, consequentemente, que fazem subir a nossa crença nos aspectos redentores do cinema, da literatura, e a um nível um pouco diferente, porque mais abstracto, da música também. Os filmes que me interessam têm relação directa com a qualidade das emoções que produzem, com o tipo de mundividência que assumem, e com a conduta moral de que dão exemplo. Até no seu realismo extremo, o cinema deve proporcionar uma qualquer transcendência: o despertar da nossa inteligência emocional; a empatia estabelecida com versões melhoradas de nós, projectadas a uma escala maior que a vida. Por ordem decrescente de preferência, foram estes os melhores filmes estreados que vi este ano.

1. Gran Torino, Clint Eastwood;
2. Duplo Amor, James Gray;
3. Ne Change Rien, Pedro Costa;
4. Tyson, James Toback;
5. Che: O Argentino/ Guerrilha, Steven Soderbergh;
6. Sacanas Sem Lei, Quentin Tarantino;
7. O Estranho Caso de Benjamin Button, David Fincher;
8. Inimigos Públicos, Michael Mann;
9. Os Limites do Controlo, Jim Jarmusch;
10. Morrer Como um Homem. João Pedro Rodrigues.

Próximas listas: Melhores discos de 2009. Melhores filmes da década. Melhores discos da década. Melhores DVD's de 2009.

12.05.2009

Bazófia




















Vende mais o Ricardo Araújo Pereira vestido do que uma portuguesa qualquer toda nua. Desvirtuem o produto mas não venham cá com bazófias.

Leãozinho (o meu desencontro com Caetano)


















Em três ocasiões, separadas por intervalos de cerca de dez anos, Caetano Veloso e eu estivemos na presença um do outro. Primeiro em Nova Iorque, no Ballroom (uma sala tipo café-concerto), aquando do espectáculo "Circuladô ao vivo", eu e alguns amigalhaços sentados na mesa mais próxima da mesa da mulher de Caetano. Depois no fórum Fnac Colombo, na apresentação do concerto encomendado a Caetano, Abrunhosa e Paulino Vieira para a Expo'98. Por último ontem, na Casa Fernando Pessoa. Pedi-lhe que me assinasse um livro, "Verdade Tropical", e um disco, "Araçá Azul". Falei-lhe em muito breve destes remotos e sucessivos encontros, enquanto o músico baiano repetia o gesto mecânico com a caneta, indiferente à minha conversa. Caetano tinha um ar esgotado. Nunca havíamos estado tão próximos. Nunca o desencontro foi tão acentuado. Mas a gente não aprende, né?

12.04.2009

A Nogo abre terça-feira



















Visite o site da Nogo. Apareça na terça às 19h.

12.03.2009

O triunfo do escárnio


























[...] A Mokhtar todos os governos eram completamente indiferentes, fossem eles eleitos ou impostos pela força das armas, pois todos provinham do mesmo molde e eram compostos pelos mesmos malfeitores. Era, pois, estúpido querer derrubar um governo, para depois ficar diante de outro pior do que o anterior. E na obrigação de recomeçar indefinidamente esta comédia grotesca. Para Mokhtar, a única maneira de combater um regime político só podia conceber-se no humor e no escárnio, longe de toda a disciplina e das fadigas que qualquer revolução geralmente implica. Na verdade, tratava-se de conseguir uma distracção fora das normas e não uma prova debilitante para a saúde. O seu combate contra a ignomínia reinante não tornava necessário um grupo armado nem mesmo uma sigla que referisse a sua existência. Era um combate solitário, não uma congregação de massas ululantes, mas uma operação prazenteira de salvação da humanidade, sem lhe pedir a opinião e sem esperar uma autorização vinda do céu. Há muito tempo que Mokhtar decidira que o seu papel na vida seria o de dinamitar o pensamento universal e os seus miasmas fétidos que atulhavam há séculos o cérebro fraco dos miseráveis. Esmagadas e fragilizadas, as massas humanas ainda sobreviventes à superfície do Globo foram levadas a acreditar em tudo o que lhes conta uma propaganda que ofende em permanência a verdade. Afigurava-se-lhe com nitidez que o drama da injustiça social só desaparecerá no dia em que os pobres deixarem de crer nos valores eternos da civilização, um palmarés de mentiras deliberadas, programado para os manter para sempre na escravidão. Por exemplo, a honestidade. Os pobres estão convencidos de que a honestidade é a virtude fundamental que lhes vai salvar a alma das chamas do inferno, e esta crença condena-os a uma miséria endémica, enquanto os ricos, cujos antepassados inventaram a palavra, sem jamais terem acreditado nela, continuam a prosperar. É certo que esta análise, aparentemente pueril, da economia capitalista, não satisfará os espíritos sérios, inimigos implacáveis da verdade, porque o seu simplismo impede-os de parecer profundos. [...]

Tradução: Luís Leitão
Revisão: Carla da Silva Pereira


A Antígona ofereceu aos seus leitores as primeiras páginas do romance [Uma Época de Filhos de Cães] para sempre inacabado de Albert Cossery, que morreu aos 94 anos, em Paris, em Junho de 2009, no hotel onde vivia há mais de sessenta anos. Estas páginas manuscritas foram encontradas no seu quarto e constituem o princípio de um romance sobre o qual o escritor trabalhava, escrevendo, segundo ele, uma linha por semana…

Neko, à margem da lei


























Ampliado é ainda mais bonito.

11.30.2009

E quem não salta...
















Está a ser divulgada a lista de concertos dos Them Crooked Vultures, com início na Europa e que será retomada no ano seguinte do outro lado do mundo. De Portugal (Espanha ou França), nem sinal. Apetece pegar nos nossos promotores de concertos, atá-los num saco, e mandá-los à merda.

O meu bloomsday






















She wanted only to be free of him and to satisfy the common enough human wish to move on and try something else. [p. 127]

Permitam-me a imodéstia. Não tenho a pretensão de ocupar um minuto que seja a cadeira do sr. Harold Bloom. Longe disso. Mas deve haver por aí muito escritor cuja obra completa não atinge em nenhum momento o poder de síntese desta frase, junto com a sua capacidade de ir fundo na natureza humana. Uma frase recta, implacável, sem vírgulas. A Philip Roth bastaram as 140 páginas de uma novela, The Humbling, que em minha opinião não está sequer entre os melhores livros que li dele. Quando alguém afirmou que Deus se encontrava nos pormenores, devia estar a pensar sim no génio dos homens.

11.27.2009

Abutres e bandoleiros





















Privado de participar na reunião dos Led Zeppelin, e por motivos que me parecem legítimos (afinal havia o filho de John Bonham, Jason, ali pronto a tocar as malhas todas), Dave Grohl agarra-se à incumbência de dinamitar o som dos Them Crooked Vultures, e fá-lo sem regatear unhas ou dentes. A sua prestação é o que se costuma apelidar de espectáculo dentro do próprio. Para início de discussão, é favor ouvirem-no no tema Bandoliers.

[E para desfazer dúvidas e perplexidades, o som que predomina no disco tem o cunho late QOTSA. Nem Zeppelin, nem Foo Fighters, conseguem sobrepor-se, e isto era o esperado.]

Johnson & Johnson






















Não me espantaria se viesse a encontrar numa entrevista de Damon Riddick (o homem artisticamente conhecido por Dâm-Funk) a explicação para a existência de dois discos de temperatura emocional um pouco diferente – além do facto de um deles ser todo instrumental – na edição CD de Toeachizown (to-each-his-own), justificada na distinção entre música sobre a "noite anterior" e música para a "manhã seguinte". A melhor música não fala de outra coisa. Estamos perante a evidência dos sons que em nós deslizam como mãos impregnadas de óleo pelas costas dessa outra pessoa; como o carro nos sonhos que avança de Verão por uma avenida vazia e iluminada; ou como as melhores produções da dupla Quincy Jones/Michael Jackson que põem os mais aptos a mexer-se pelas pistas de dança como se estas tivessem acabado de ser enceradas (I Can't Help It, sempre). Jackson serve o pretexto de chamar a atenção sobre uma ideia de génio – tão óbvia e simples – que foi colocar o realizador Pedro Costa a falar de música. A reportagem é de João Bonifácio, pode ler-se hoje no Ípsilon, e rápida vista de olhos deu para perceber que há ali material suculento. Pelo que venho ouvindo Dâm-Funk é homem para Costa. Do pouco que li Pedro Costa é bem capaz de ser homem para Dâm-Funk. Amigos-amigos, óleos à parte.

11.26.2009

The sky is ours


























Levitar ou não levitar? Apesar da violência do tombo, levitar sempre. Leram bem. Sempre.

11.25.2009

Eyes wide shut


























Evan Rachel Wood fotografada por... e o que é que isso interessa? Isto é o tipo de post que leva algumas mulheres a ter receio de mim. Porque furtivo olho-as por vezes de tão perto e com tal intensidade que quase chego a cegar.

[clicar na imagem para aumentar a ilusão]

11.24.2009

Sempre a abrir





















Orelhas coladas ao novo Gazua, Música Pirata, trazido pelo estafeta antes do almoço. Roquenrole lisboeta de atitude "fight the power", a fazer lembrar Xutos e Pontapés dos primórdios: os Xutos da altura em que os ouvia. Apetece aplicar o trocadilho fácil, embora certeiro, e dizer que a música dos Gazua é sempre a abrir. Juntando o aviso. A embalagem que envolve o CD é bastante original, e no impulso de chegar rapidamente ao disco podemos produzir danos irreparáveis. A abertura dispensa a gazua, mas exige cabeça. Não se precipitem.

Podia morrer pela boca todos os dias





















Nada me move contra os White Stripes ou Jon Spencer Blues Explosion, mas penso que nenhum disco saído do nicho revivalista blues-rock, que tem décadas, me entusiasmou na medida de Rubber Factory, dos Black Keys.

Está encontrado esse outro disco, agora que tudo me move a favor dos White Stripes.

11.23.2009

Cream fraîche





















Já comeu o seu Clássico hoje? Eu já.

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