5.09.2007

Allez allez.... ouch!














«(...) Sarkozy ganhou a presidência há dois anos, na noite em que chamou canalha ou, melhor dizendo, racaille aos grupos que incendiavam, agrediam e mataram nos arredores das cidades francesas. Por essa Europa fora, um frémito de horror fez franzir os sobrolhos das cabecinhas bem-pensantes: que horror, o homem chamara canalhas àqueles jovens - e os jovens não têm sempre razão? - que se manifestavam contra o sistema?! De nada servia argumentar que os jovens não se manifestavam e que destruíam o que apanhavam. Que aterrorizavam vizinhos e todos aqueles que não tinham meios de se mudar para outro lado. Os jornalistas que os tentaram entrevistar acabaram a fugir com medo de ser agredidos. E os conteúdos racistas e anti-democráticos das declarações dos ditos jovens eram e são editados no meio de atenuantes explicações sociológicas. Já as vítimas das agressões dos ditos revoltados não tiveram direito a sociologia alguma, mesmo quando foram queimados ou espancados até à morte. Dir-se-á que chamar canalha a quem se porta como tal não é razão suficiente para ganhar eleições. De facto, não devia ser. Mas foi-o em França. E foi-o tão claramente que, durante a campanha eleitoral, o fantasma da canalha voltou. Caso Sarkozy ganhe, Paris vai arder - este foi o aviso-ameaça repetido até por Ségolène naquele que ficará como um dos maiores erros da sua campanha. Não só esqueceram que Paris já esteve para arder outras vezes - e resistiu -, como esqueceram também que uma sociedade que vive com medo tende a premiar aqueles que chamam canalhas aos canalhas. Rui Tavares, ao analisar a sequência dos valores enumerados por Sarkozy no seu discurso de vitória - presidente "do trabalho, da autoridade, da moral e do respeito" -, afirma que "o "respeito" de Sarkozy (...) vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral". Mas foi precisamente por isso que Sarkozy ganhou. Esse respeito subordinado é o reverso do medo da canalha. Quer a racaille goste ou não, foi também ela que levou Sarkozy ao Eliseu e deu à palavra respeito uma das maiores ovações da noite.»

[Helena Matos no Pingue-Pongue do Público, ontem]

A verdade dói, eu sei.

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