5.30.2012

Um anti-melodrama


















Há como que uma cortina de fumo, mesmo quando ninguém está a fumar, a luz sempre difusa, se é que alguém está a recordar, percorrendo o filme que Terence Davies fez com base na peça de teatro The Deep Blue Sea, de um outro Terence, Rattigan (1911-1977). O fumo assinala um incêndio há tempo extinto: a paixão de Hester (Rachel Weisz) e Freddie (Tom Hiddleston) de que quase só testemunhamos consequências, ressentimento e dor. Nos primeiros minutos do filme, enquanto se escuta o movimento lento do concerto para violino de Samuel Barber, estamos como que imersos num sonho, e a coreografia que a câmera estabelece ajuda a criar o sentimento de suspensão da coisa idílica que é o amor erótico. Somos depois confrontados com a tentativa de suicídio de Hester, uma mulher que abandonara o casamento de conveniência com um respeitado juíz, notoriamente mais velho que ela, o decente Sir William (Simon Russell Beale), para seguir com o seu entusiasmo por um canalha superficial acabado de regressar vitorioso da Segunda Grande Guerra (onde pilotara aviões). O resto de The Deep Blue Sea (2011) será gélido como uma câmara frigorífica do (des)amor. As expectativas de melodrama mortas e enterradas pelo texto de Rattigan e pela planificação austera, muito campo-contracampo, de Davies.
Pode dar-se o caso de recordarmos a condessa Livia Serpieri no filme Senso (Sentimento, 1954), de Luchino Visconti. A mulher era ali também o agente amoroso e o homem manipulador caprichoso. Tem sentido, em universos marcados pela orientação sexual gay dos criadores (Visconti, Rattigan e Davies), que seja o elemento masculino o móbil da tragédia, sendo que no caso de The Deep Blue Sea a tragédia é o desencontro de um sentimento profundo que, contrariando as aparências da origem, não é correspondido. A peça de Terence Rattigan é quase um tratado filosófico que visa alertar para as armadilhas do amor, fútil devaneio que leva invariavelmente ao sofrimento: que, segundo o dramaturgo, não augura bom futuro e vem desinquietar as nossas vidas previsíveis e seguras. O realizador Terence Davies não ousa contradizê-lo. Nada existe de emotivo nesta representação de um tempo passado (a Londres de 1950), porque nem o triunfo na Guerra ecoa na história de amor: aliás, nada ecoa, e experimentamos a sensação estranha em muitos momentos de o som do filme estar reduzido aos diálogos (e nada mais?). A porteira da casa para onde Hester vai viver ao deixar o marido, dá uma definição crua e sombria do amor quando diz que consiste em zelarmos pela higiene de alguém que esteja enfermo, para que se mantenha digno em vida, e está tudo dito. Viemos até aqui para observar o rescaldo da ilusão romântica. Compre quem quiser.   

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