7.15.2009

Mais mais mais

Acabo de reparar que escrevo a palavra "mais" em todos os posts. Nalguns casos, repito. Em todos os casos, assumo. Querem mais?

Make it icy beautiful





















Que nos sugere a capa do segundo álbum de Mokira para a Type? Se soubermos que o título é Persona, e que o seu autor, Andreas Tilliander, é sueco, somos levados a pensar no celebrado filme de Ingmar Bergman mas, ó intrusiva amálgama de cultura popular!, que caprichosamente mais depressa atalhas pelas sensações que pela razão. O que a figura na capa deste Persona me recorda é os manequins do genérico de Nip/Tuck. A fertilidade da associação não acaba aqui. A paleta electrónica de Tillander, que vai do drone basinskiano (o disco foi concebido tendo por recurso sons registados e reproduzidos por fitas magnéticas) a ambientes que são reminiscentes do kraut e do dub, bem que sugere a actividade de corte e costura tomada num sentido artesanal que se orgulha de expôr as marcas do tempo, e de assinalar a marcação de todos os tempos (lentos). Tilliander ficou-se pelo aprendiz dos doutores McNamara & Troy, que preferiu recriar os seus próprios monstros em vez de recauchutar Barbies de solário. Até porque num universo repleto de sombras e fantasmas, qualquer nesga de luz, mesmo fria, é tão sempre mais intensa.

Educação pela garrafa

Ontem vi metade do episódio que corresponde ao quinto ano de produção de Prime Suspect, uma série inglesa excelente que teve cronologia invulgar. Estreou no início dos anos 90 e terminou em 2006, com episódios mais longos que muitos filmes (200 minutos), e com intervalos médios (2 anos) e longos (7 anos) entre eles. Prime Suspect é uma série onde se bebe bastante: cerveja e whisky. É frequente os detectives combinarem tomar um copo ao final do dia, ou antes de iniciarem outra noitada de investigação. Nos gabinetes dos superiores também se encontra a vulgar garrafinha, e ninguém moraliza o que os outros bebem. Faz parte da concepção existencialista de se ser polícia. Estamos portanto num contexto civilizado. Prime Suspect é protagonizado por Helen Mirren, que nesta altura tem a categoria de superintendente. A sua personagem, Jane Tennison, é vista muitas vezes a beber. Num episódio chegam a mostrá-la no supermercado, a fazer meia-dúzia de compras, refeições frugais de levar ao micro-ondas e duas garrafas de Famous Grouse. A novidade da sessão de ontem era que eu bebia um melhor whisky que a superintendente Tennison. Não um daqueles whiskies novos que também bebo, ligeiros e doces, que escorrem sem se fazerem prolongar, mas um Old Parr. Há medida que bebemos melhores whiskies, sentimo-nos como que sendo educados por eles. Um whisky velho, ou um Single Malt, impõem um consumo demorado, e moderado: aquilo não se degusta sem que nos sintamos impregnados de uma certa espiritualidade. Ontem aprendi umas coisas com o velho Old Parr, enquando dava início a outra noitada de investigação.

7.14.2009

Um David Berman


























No traço inconfundível de um tal Pedro Lourenço.

Proporções bíblicas




















Boy wants a car from his Dad
Dad says, first you gotta cut that hair
Boy says, hey Dad Jesus had long hair
and Dad says
that's right son but Jesus walked everywhere

[The Frontier Index]


Em cada lar deveria haver um disco assim.

7.13.2009

Aquela noite



















Na primeira noite em que Alex e Carter fazem amor, ela começa por abrir alguns botões da camisa dele, depois coloca um lenço colorido quebrando a luz do candeeiro à cabeceira da cama, em seguida acende um pau de incenso, por fim liga a aparelhagem (a canção que se escuta é o Besame Mucho, por Diana Krall; uma pena já que o filme noutras situações farta-se de esbanjar Iron & Wine, no meu entender, tão mais apropriado). Quem alguma vez foi objecto deste tipo de atenções, não esquece jamais.

A anatomia de Nina


















Nina Becker (Orquestra Imperial) fotografada por Sérgio Aires.

[clicar na imagem para ampliá-la]

Muito mais que apenas outra entrevista

















No número de Agosto da Mojo (que faz capa com os Fleet Foxes), Bill Flanagan entrevista Bob Dylan. Existem empatia e enorme conhecimento por parte do entrevistador, e cedo se nota tratar-se de uma conversa entre iguais. No meio de interrogações sobre cada faixa do novo álbum de Dylan, Together Through Life, e referências à visibilidade recentemente adquirida pela sua pintura, perguntas extraordinárias como esta:

Say you wake up in a hotel room in Wichita and look out the window. A little girl is walking along the train tracks dragging a big statue of Buddha in a wooden wagon, a three-legged dog follows behind. Do you reach for your guitar or drawing pad?
Oh wow. It would depend on a lot of things. The environment mostly; like what kind of day is it? Is it a cloudless blue-grey sky or does it look like rain? A little girl dragging a wagon with a statue in it? I'd probably put that in last. The three-legged dog -- what type? A spaniel, a bulldog, a retriever? That would make a difference. I'd have to think about that. Depends what angle I'm seeing it all from. Second floor, third floor, eighth floor. I don't know. Maybe I'd want to go down there. The train tracks too. I'd have to find a way to connect it all up. I guess I would be thinking about if this was an omen or a harbinger or something.


Mais extraordinária só a actividade de uma grande cabeça a esmiuçar.

7.11.2009

Monte Rushmore II





















Acabadinho de esculpir.

Mark Lanegan

























Lanegan é o tipo da aspereza vocal que se destaca nalguns discos dos Queens of the Stone Age. E se o escutarmos interpretar o tradicional Little Sadie no álbum de covers I'll Take Care of You (grande título!), percebemos o quanto ele por vezes se aproxima da mais americana de todas as vozes, que é, sabemos bem, a de Johnny Cash. O timbre de Mark Lanegan tem vivência, tem abismo, é absolutamente masculino, e neste disco ocupa o centro de uma cena instrumental despojada. Calhou ser a minha introdução à discografia a solo do ex-Screaming Trees, e não podia ter desejado melhor coisa que um registo com traços de intemporalidade.

Frase assassina

Queremos assinalar a morte de um amigo e a falta que nos faz, e pode-nos sair um par de frases assassinas:

(...) Tanta gente que não tem préstimo algum e está viva, e o João Bénard está morto! Ó morte, se, ao menos, fosses um pouco mais justa do que a vida!
[Miguel Sousa Tavares na GQ, As time goes by..., entrada de 21 de Maio]

Assassina na sua formulação. Nenhuma vida vale mais que outra. A vontade, ainda que toldada aqui de algum lirismo, de querer mexer com os que vivem ou morrem, é atributo dos deuses ou dos piores tiranos. Não acredito que o cronista se inscreva em qualquer das categorias.

7.09.2009

Genes





















A única coisa que liga o músico Lloyd Cole (n. 1961) ao actor Tom Wilkinson (n. 1948) é o facto de serem cidadãos britânicos a ganhar a vida do outro lado do Atlântico. Mas eu sou de outra opinião: e vocês teriam de os ver sorrir.

Meu desassossego felpudo





















There's something about bunnies and childhood.

O ser e a vaga


















Foto: Paula Marina

O surf provoca um desejo de acção, de remar para as ondas e deslizar na sua superfície. Mas, mesmo que não sejamos dados a pescarias, dá-nos também um entendimento do mar que é feito de uma inescapável inclinação contemplativa. É por isso que, depois de embrenhados no surf, quando olhamos para o mar já não estamos apenas a ver. Estamos também a aproximarmo-nos de nós mesmos. A ser.

[O Sal na Terra, pág. 30.]

7.08.2009

Swell é meditação


















© Ricardo Bravo

Para o Pedro Adão e Silva, por isto. Belas páginas, man!

7.06.2009

Mentir com os dentes todos















Tinha terminado o segundo concerto da Orquestra Imperial. Uma diferença da noite para a tarde, como tive oportunidade de dizer ao querer impressionar uma amiga, querendo embora impressionar uma outra pessoa. Foi quase igual, e na diferença bem melhor que o dia anterior. Fui cumprimentar Rodrigo Amarante brincando de lhe apresentar uma pessoa, como o clown que disfarça (como pode) o embaraço, e sentindo logo ali uma intimidade entre os dois que me excluía. Falou-se da separação dos Los Hermanos. Usando da idiota metáfora disse a Rodrigo que só o fim dos Los Hermanos havia permitido que ele e Marcelo Camelo tivessem feito coisas diferentes: ele na Orquestra Imperial e nos Little Joy, Marcelo na carreira em nome próprio iniciada com um disco notável; assim como no final de uma relação marcante que tomamos pelo fim do (nosso) mundo, para algum tempo depois vermos que outras ligações se perfilam no horizonte. Rodrigo, mais sábio que eu, atalhou para a frase de um poeta brasileiro que diz qualquer coisa como, "se não houver tesão não tem jeito". Não tenho jeito. Eu devia ter sabido ficar calado.

Discos raros




















Não há disco tão raro como aquele que nem sequer sabíamos que existia. Estamos sempre a peneirar, mas não chega. E quando andamos distraídos, então chega.

7.05.2009

Uma grande revista


















A Ler é a única revista portuguesa que compro. A aposta no formato compacto não mexeu com a qualidade consolidada. A entrevista de Carlos Vaz Marques a Vasco Pulido Valente é um tour de force impressionante. E ainda há os habituais Abel Barros Baptista, Filipe Nunes Vicente, e Pedro Mexia. Uma grande revista, é o que é.

Os Eagles of Death Metal


















Reza a história que quando os seus elementos debatiam a questão do nome para a banda, alguém terá dito que encontrar um nome era o mais simples, qualquer coisa servia até algo estúpido como Eagles of Death Metal. E Eagles of Death Metal ficou. A Wikipedia conta uma versão diferente, mas prefiro aquela que ouvi primeiro. Os Eagles of Death Metal estarão no topo da minha playlist pelo menos até à próxima sexta-feira, altura em que Josh Homme (o poderoso J.H. das Desert Sessions, dos Queens of the Stone Age, e dos já extintos Kyuss) e Jesse Hughes sobem ao palco para aquele que antecipo como o grande acontecimento do Optimus Alive. Quem quiser tomar contacto com a "fakin' real thing" não pode falhar o encontro: apesar de toda a distração que o cerca.

7.03.2009

Cinema mudo

Sympathy for the obvious














A capa é mais Beatles, mas o som até é mais Stones.

Os cornos de Cronos





















Desgraçado tempo o nosso, onde um ministro cai por um gesto marialva. E, de acordo com balanços especializados, um bom ministro. Pensava eu que a Assembleia era a arena de combate político, mas a avaliar pela unanimidade das reacções aquilo parece um convento de Carmelitas melindradas. E um homem produz ali muito estrago.

7.02.2009

United flavours of Basinski





















All the windows are open. The sound is spreading all over downtown Brooklyn mixing with the helicopters, sirens, pot smoke and fireworks...

Nada tenho a acrescentar ao que aqui já escrevi sobre William Basinski. Por outro lado, o surgimento de mais um disco que actualiza para ele e para nós parte do arquivo, leva a que deixe esta nota de entusiasmo. 92982 é, em minha opinião, o registo perfeito para iniciados. As peças são "curtas", o que permite tomar contacto com as nuances discretas dos loops processados por Basinski, em exercícios de menor exigência de concentração. O ouvinte experimentado há muito que se libertou deste tipo de pressão, largando os sons à sua total liberdade expressiva. Se prestarmos atenção à capa do CD, damos conta da subdivisão de um dos elementos em pequenos outros. É a chave desta edição, mais do que de qualquer outra ópera basinskiana. O músico recorre novamente aos arquivos para acrescentar actualidade ao que era passado. E quando se refere aos sons que o rodeavam na noite em que revisitou o material que aqui apresenta de alguma maneira transformado, nós juramos escutar o que Basinski terá ouvido na altura. Os seus discos produzem uma espécie de sortilégio nos que os apreciam. Ao seu particular modo, William Basinski é um prosaico feiticeiro que lida com a matéria, devolvendo-a após tê-la sujeitado a um processo de refracção sonora: que fascina.

7.01.2009

Forever

























Uma vez concluído o mais importante acto de gestão, podemos enfim tratar do resto.

6.30.2009

Café triste


























Foto: Christian Coigny

Sempre achei que os bailarinos são os seres mais belos do planeta. Aliás eles nem sequer são deste planeta, e um dia limitam-se a partir para lá de onde vieram.

6.29.2009

Let's talk about





















O curvo e o nodoso
Miguel Esteves Cardoso, domingo, 28 de Junho de 2009

Mariann Fischer-Boel, que é a senhora que manda nas hortaliças de toda a Europa, decidiu deixar de proibir os produtos hortícolas feios. Acabou-se o regime de top models em que só a beleza e a perfeição eram admissíveis. Fischer-Boel foi muito clara: "Esta decisão marca o início de uma nova era para os pepinos curvos e as cenouras nodosas". É impossível não verter uma lágrima. Todos sabemos quanto eles e elas têm sofrido. O estigma, a chacota e o ostracismo de décadas não se esquecem facilmente. O título no PÚBLICO de ontem suspirava de alívio: Pepinos curvos e cenouras nodosas de novo à venda. A peça foi saborosamente redigida por Andreia Sanches. São 26 produtos que se livraram do jugo da perfeição, mas, como seria de esperar, são os pepinos curvos, as cenouras nodosas e as beringelas tortas que recebem maior proeminência. Todos sabemos que a beleza da fruta e da hortaliça não tem nada a ver com a bondade. Aliás, se há uma tendência hoje é para desfear a fruta e a hortaliça de propósito: apanhando-a cedo de mais para ficar mais pequena; cobrindo-a de terra; raspando-a contra os muros e picando-lhe as folhas à laia de lagarta, para parecer mais "bio". Já estou a ver que a cenoura nodosa vai ser mais cara do que a outra. Afinal, um nódulo o que é senão um desejo de nascer ali outra cenoura? O homem cria as cenouras mas é Deus que lhe dá os nódulos, blá blá blá. Vai-nos sair cara a brincadeira.

Comiendo pera en Santo Amaro de Oeiras




















A catalogação mais significativa que tenho para os discos está relacionada com memórias. Há um exemplo recente que não chega a ter uma semana. De cada vez que ouvir as covers de Cat Power ou músicas de Devendra Banhart lembrarei o jantar naquele recanto com vista para o mar, o gosto da conversa no vinho e vice-versa, a vontade sempre irrealizável de que as coisas voltassem a repetir-se exactamente daquela maneira.

6.27.2009

Fantásticos


























Com um pé na terra e o outro sabe-se lá onde [vejo ali Hugo Largo e por extensão Mimi Goese, Tyrannosaurus Rex, Björk, Final Fantasy, Elvis Costello (?!) com o Brodsky 4tet, o soukos sul-africano, a kora do Mali], os Dirty Projectors fizeram um disco muito bonito: Bitte Orca. Isto é realidade. Nada mais evidente que a beleza servida em doses de absoluto.

Chico Pinheiro & Cia.




















No final de 2003 eu colocava o disco de estreia de Chico Pinheiro no topo da minha lista de música brasileira. Pinheiro fez um outro disco, onde passou a cantar, além de compor e tocar guitarra (que já fazia), e os resultados ficaram aquém do anterior Meia Noite Meio Dia (MNMD). Ainda penso que MNMD é juntamente com Slow Motion Bossa Nova, de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, e Pérolas aos Poucos, de Zé Miguel Wisnik, dos três melhores discos de produção brasileira cujo som se encontra ancorado no classicismo de Tom Jobim e Edu Lobo, com um sentido de subtilíssima fusão que foi/é prerrogativa de João Gilberto. São todos três, clássicos contemporâneos por mérito próprio.
Vem isto a propósito da suspeita de preconceito com relação ao espectáculo da próxima segunda-feira na Aula Magna que junta Chico Pinheiro ao pianista Brad Mehldau, e às cantoras Fleurine e Luciana Alves. É óbvio que não vi esta formação ao vivo, mas é fácil concluir que se trata de um projecto de qualidade destinado a apreciadores de boa música no geral, e a todos quanto encheram os espectáculos de Ryuichi Sakamoto com o casal Morelenbaum no particular.
Chico Pinheiro é um tremendo compositor e instrumentista, e um cantor competente como há milhares no Brasil. Mehldau é um super músico que domina vários idiomas e que não caiu de pára-quedas na música brasileira (e quem pensar o contrário vai ter uma surpresa enorme). Já Luciana Alves tem um timbre adorável, é daquelas vozes que se derrete nos ouvidos, que conheço dos CD's de Pinheiro. Fleurine, desconheço de todo. Mas no caso, mesmo o que desconheço, arrisco recomendar.

6.26.2009

Da monarquia

















Mookie (Spike Lee): Pino, fuck you, fuck your fuckin' pizza, and fuck Frank Sinatra.
Pino (John Turturro): Yeah? Well fuck you too, and fuck Michael Jackson.

Arquivo do blogue

Acerca de mim