11.27.2009

Abutres e bandoleiros





















Privado de participar na reunião dos Led Zeppelin, e por motivos que me parecem legítimos (afinal havia o filho de John Bonham, Jason, ali pronto a tocar as malhas todas), Dave Grohl agarra-se à incumbência de dinamitar o som dos Them Crooked Vultures, e fá-lo sem regatear unhas ou dentes. A sua prestação é o que se costuma apelidar de espectáculo dentro do próprio. Para início de discussão, é favor ouvirem-no no tema Bandoliers.

[E para desfazer dúvidas e perplexidades, o som que predomina no disco tem o cunho late QOTSA. Nem Zeppelin, nem Foo Fighters, conseguem sobrepor-se, e isto era o esperado.]

Johnson & Johnson






















Não me espantaria se viesse a encontrar numa entrevista de Damon Riddick (o homem artisticamente conhecido por Dâm-Funk) a explicação para a existência de dois discos de temperatura emocional um pouco diferente – além do facto de um deles ser todo instrumental – na edição CD de Toeachizown (to-each-his-own), justificada na distinção entre música sobre a "noite anterior" e música para a "manhã seguinte". A melhor música não fala de outra coisa. Estamos perante a evidência dos sons que em nós deslizam como mãos impregnadas de óleo pelas costas dessa outra pessoa; como o carro nos sonhos que avança de Verão por uma avenida vazia e iluminada; ou como as melhores produções da dupla Quincy Jones/Michael Jackson que põem os mais aptos a mexer-se pelas pistas de dança como se estas tivessem acabado de ser enceradas (I Can't Help It, sempre). Jackson serve o pretexto de chamar a atenção sobre uma ideia de génio – tão óbvia e simples – que foi colocar o realizador Pedro Costa a falar de música. A reportagem é de João Bonifácio, pode ler-se hoje no Ípsilon, e rápida vista de olhos deu para perceber que há ali material suculento. Pelo que venho ouvindo Dâm-Funk é homem para Costa. Do pouco que li Pedro Costa é bem capaz de ser homem para Dâm-Funk. Amigos-amigos, óleos à parte.

11.26.2009

The sky is ours


























Levitar ou não levitar? Apesar da violência do tombo, levitar sempre. Leram bem. Sempre.

11.25.2009

Eyes wide shut


























Evan Rachel Wood fotografada por... e o que é que isso interessa? Isto é o tipo de post que leva algumas mulheres a ter receio de mim. Porque furtivo olho-as por vezes de tão perto e com tal intensidade que quase chego a cegar.

[clicar na imagem para aumentar a ilusão]

11.24.2009

Sempre a abrir





















Orelhas coladas ao novo Gazua, Música Pirata, trazido pelo estafeta antes do almoço. Roquenrole lisboeta de atitude "fight the power", a fazer lembrar Xutos e Pontapés dos primórdios: os Xutos da altura em que os ouvia. Apetece aplicar o trocadilho fácil, embora certeiro, e dizer que a música dos Gazua é sempre a abrir. Juntando o aviso. A embalagem que envolve o CD é bastante original, e no impulso de chegar rapidamente ao disco podemos produzir danos irreparáveis. A abertura dispensa a gazua, mas exige cabeça. Não se precipitem.

Podia morrer pela boca todos os dias





















Nada me move contra os White Stripes ou Jon Spencer Blues Explosion, mas penso que nenhum disco saído do nicho revivalista blues-rock, que tem décadas, me entusiasmou na medida de Rubber Factory, dos Black Keys.

Está encontrado esse outro disco, agora que tudo me move a favor dos White Stripes.

11.23.2009

Cream fraîche





















Já comeu o seu Clássico hoje? Eu já.

Marlenes







Falta dizer que vi 'Ne Change Rien' na manhã de domingo numa sala vazia




















Apenas eu e a tela. Ela somente, e eu. Proeza menor do retrato de Pedro Costa é a circunstância de nos enamorarmos por Jeanne Balibar. Basta pensar na última vez que um rosto se nos manifestara com tal esplendor; que uma voz nos encantara com o pudor da sua exposição. Costa é alguém que marcha claramente na direcção oposta ao caminhar do mundo, daí que a vitalidade do seu cinema nada tenha de ilusória. São filmes também habitados por fantasmas, mas que se sentem com o corpo e no corpo. Objectos que requerem atenção, disponibilidade para ver os pequenos milagres: um gesto revelador, um rosto que se ilumina ou fecha, o sortilégio particular da natureza humana. Ne Change Rien resulta no retrato de Jeanne Balibar (com banda) – a mulher, a cantora, a actriz – no trabalho, dando por outro lado a sentir a presença do cinema dos vivos e dos mortos. A voz de Godard, samplada, que ouvimos dizer "não mudes nada, para que tudo seja diferente". O gato preto de Tourneur que atravessa um dos quadros. Os planos agachados a fazer lembrar o cinema clássico japonês. A espectralidade das formas sugerida em imagens que reenviam para os filmes de Andy Warhol. A canção Johnny Guitar que evoca Nick Ray muito distante da citação. Até a transferência de elementos que associamos com a obra de Pedro Costa, para cenários onde nunca tinham sido vistos antes: por exemplo, o beco onde observamos o pianista que acompanha os ensaios da opereta de Offenbach, sentimo-lo como parte dos corredores labirínticos do bairro das Fontainhas. É como se os filmes de Pedro Costa contivessem o cinema e algo mais que isso. Um mundo que ele dá a ver a partir da sua forma muito própria de olhar o mundo em volta, contaminada pelo desejo de um mundo ideal. Suspenso. Luz, sombras, negro, músicos, canções, a intimidade que a câmara se recusa devassar. Escolhidos os enquadramentos, o plano fixa-se e dura o que tiver de durar. É preciso muito peneirar para dar com o ouro, mas ajuda ter capacidade para sentir onde ele pode ser encontrado. Aquilo que se afigura como pequena proeza é também resultado do esforço suplementar de alguém semelhante a nós. A fixidez de um olhar que permite observar (ampliando) as discretas mudanças que fazem de cada instante um momento particular. Uma suspensão ou um pequeno êxtase.

Prognósticos ('The Humbling')

He felt the strenght in her well-muscled arms, he fumbled with her heavy breasts, he cupped her hard behind in his hands and drew her toward him so that they kissed again. Then he led her to the sofa in the living room, where, blushing furiously as he watched her, she undid her jeans and was with a man for the first time since college. He was with a lesbian for the first time in his life. [pag. 55]

















"My life has been very precarious over the past few years. I don't feel the strenght that it would take having my hopes dashed. I've had my share of marital misery, and before that my share of breakups with women. It's always painful, it's always harsh, and I don't want to court it at this stage of life." [pág. 62]

11.20.2009

Sinal vermelho






















Os The White Stripes escolheram desde a origem o jogo cromático que melhor traduz o carácter iminentemente explosivo da sua música. Mesmo nos momentos de acalmia pressentimos a descarga eléctrica como inevitável. É interessante de notar que sendo o duo originário da América profunda, e o som deles se fixar essencialmente no blues e no garage rock, existir em contínuo uma contaminação da sonoridade de bandas paradigmáticas do outro lado do Atlântico, como os Beatles, os Rolling Stones, os Led Zeppelin, os Sex Pistols e os T.Rex. Em processo de escuta não terminada estão os quatro primeiros álbuns, e até Elephant não descobri maneira de estancar o entusiasmo (temas como Offend in Every Way, Ball and Biscuit ou The Hardest Button to Button produzem em mim excitação motora difícil de disfarçar). Nem o embaraço de tê-los descoberto um pouco tarde.

[sinal vermelho aqui também]

Marcada para sofrer






















Contado poucos acreditariam. Mas lido no jornal a coisa fia mais fino: «A bailarina [Rita Marcalo], directora artística da companhia de dança Instant Dissidence, com sede na cidade inglesa de Leeds, é epiléptica desde os 17 anos. Marcalo deixou de tomar os seus medicamentos na semana passada e por 24 horas, a partir da uma da manhã do dia 11 de Dezembro, os espectadores poderão ver as suas tentativas de ter um ataque em palco.» A coisa ganha contornos grotescos logo a seguir:«Assim, haverá o recurso, no espectáculo, a luzes estroboscópicas, programas informáticos específicos, a bailarina terá de fazer jejum, privar-se de dormir, tomar estimulantes da actividade cerebral, como o álcool e o tabaco, e será elevada, artificialmente, a sua temperatura corporal. As actuações de outros artistas, em termos de dança e de instalações, entreterão os espectadores enquanto esperam que Marcalo tenha um ataque epiléptico.» A prosa parece tendenciosa, só que há dinheiro na história:«O Arts Council England justificou a sua decisão de pagar [13.889 mil libras, cerca de 15 mil euros] a Marcalo para a realização deste espectáculo afirmando que ela é uma “artista importante cujo trabalho merece ser visto”.» Gente da cultura que promove a tortura à condição de espectáculo. E uma bailarina (como todas as bailarinas, um anjo Deus meu!) que se vende como mercadoria exposta à condição pornográfica. Mais que pornográfica, uma vez que o actor arrisca ser subjugado pela personagem. Umas costas assim bonitas (anjos, como eu digo): havia necessidade?

Profissão de humildade


























De bom grado teria ficado em casa em vez de vir trabalhar. Página a página, tomando contacto com os horrores privados do mundo. Assim, rendeu apenas 30 páginas. Este Roth arranca com uma personagem que podia ter saído de um livro de Paul Auster: o actor sexagenário Simon Axler, que de um dia para o outro deixa de saber representar e passa a viver atemorizado com o facto. É um pouco como aquela história da hesitação e morte do robusto Porthos, ao fugir do túnel onde tinha ido colocar uma bomba. Quando pensa nas implicações do movimento de fuga, da colocação de um pé depois do outro, o próprio acto de pensar deixa-o bloqueado e a explosão trata do resto.

11.19.2009

A semente do psicadelismo chegou pujante a este século (89→00)

11.18.2009

Cabeçada


























Mother/ Tell your children not to walk my way/ Tell your children not to hear my words/ What they mean/ What they say [...]// Mother/ Can you keep them in the dark for life/ Can you hide them from the waiting world/ Oh mother// Father/ Gonna take your daughter out tonight/ Gonna show her my world/ Oh father [...]// Father/ Do you wanna bang heads with me/ Do you wanna feel everything/ Oh father// Not about to see your light/ And if you wanna find hell with me/ I can show you what it's like/ Till you're bleeding [...] Glenn Danzig


Saramago é um menino e eu ando por maus caminhos.

11.17.2009

A parte de tigre II

























Peguei em Neko Case pela parte de tigre. Ela gosta de tigres. Gosta de os desenhar. As ilustrações em The Tigers Have Spoken são da sua autoria. Neko tem a minha idade. Tem ainda uns lindíssimos cabelos ruivos. E eu calava-me. Ela ronronava enquanto lhe passava a mão pelos cabelos.

A parte de tigre


























It results in a film that is, at heart, as soft as Harry—and as soft as the sequence in which he spends the night with a sweet Sunset Strip waif who tells Harry, among other poetic things: "I saw this piece in National Geographic, about how lions and tigers always return to places of remembered beauty. [That's how they catch them.]

Vincent Canby refere-se aqui à sentimentalidade do filme, justo aquilo que me prendeu em Save the Tiger (1973), de John G. Avildsen. O raro momento em que me senti por ele apanhado. A parte da beleza como fatalidade: e como se soubesse que vai ser assim até ao fim.

11.16.2009

Repassar a lenda















I Am Legend dá a ver o filme (pós-)apocalíptico por redução, em contraste com a acumulação que faz a língua comum às produções do género. A primeira hora é das coisas realmente impressionantes do cinema contemporâneo: Nova Iorque destruída e deserta, filmada em silêncio nas perspectivas a que nos habituaram a olhar para ela, imagem que remete para a história recente (11.09.01) desta cidade que se confunde com a própria memória do cinema. Um homem atravessa a metrópole vazia na companhia da sua cadela pastor alemão. O tema carpenteriano da civilização reduzida à idade das trevas revisitado. I Am Legend subtrai tudo às funções e aos impulsos primordiais. A procura do outro e o instinto de sobrevivência. Palco desolador do formidável desempenho (físico e emocional) de Will Smith, na pele de um herói que tanto podemos considerar obstinado como aprisionado no cumprimento da sua lenda.

Afinal era o Carvalhal















José Eduardo Bettencourt apregoa surpresas que já não nos deviam espantar. O presidente que temos é um paridor de ratos. A sua boca, para citar outro dirigente, morre pelos ratos que engole. O mais recente chama-se Carlos Carvalhal. Carvalhal fazia alegadamente parte da short-list do Bettencourt Award for Next Coach, e a escolha recaiu sobre si porque tanto André Villas-Boas como Jorge Costa, alegadamente, declinaram o convite sportinguista. Se não temos outra ambição que esta, eu teria ido logo ter com Carvalhal, dos três nomes a opção menos sofrível – gostamos de verdes, mas a concepção de um treinador verde tem limites – e o único que se encontrava desobrigado contratualmente. Tenho a certeza que a apresentação do treinador será coroada de elogios e de novas promessas de conquistas por vir. Outros ratos que Bettencourt terá de engolir cedo ou tarde, e que terão sabor tanto mais amargo quanto mais escassos forem os ajustes do plantel na próxima reabertura do mercado. Bettencourt procura dourar com discursos a realidade cinzenta do nosso futebol profissional. Os que o ouvem são cada vez menos. Os que o contestam produzem um cada vez maior ruído. Posto isto, Carlos Carvalhal é o novo treinador. Será o meu treinador enquanto resistir, e merece o benefício de todas estas dúvidas.

11.13.2009

Imagens que regressam (auto-citação)





















[...] há um momento particularmente extremo que corresponde a um dos mais belos planos do filme (este felizmente repetido), quando obervamos a rapariga nua deitada ao lado de Isaach de Bankolé (que nunca fecha os olhos e "dorme" vestido), com a mão pousada na coxa do homem, em área propícia ao natural entumescimento do sexo [...]

Quando escrevi sobre o último Jarmusch procurei procurei procurei, mas faltou esta imagem (♀). Há no entanto um lugar onde as imagens sempre regressam, daí a auto-citação e o especial agradecimento. Aquele post só agora, e aqui, fica completo.

(♀) canto inferior direito.

11.12.2009

Debaixo do vulcão





















Seria o contributo para ligar entradas autónomas da Wikipedia sobre um assunto do meu interesse. Tenho este disco dos El Caco, noruegueses de Lillestrøm, que merecem ser incluídos na página que reúne nomes de bandas de stoner rock. Tentei eu próprio editá-la. A tarefa mostrou-se complicada e falta um acréscimo de motivação para corrigir as mínimas imperfeições do mundo. A vontade é aliás outra. Apocalíptica. Prefiro assistir aos pequenos colapsos da existência humana com a música certa nos ouvidos.

11.11.2009

Agora ou never


















José Eduardo Bettencourt está num momento decisivo para dar prova das afirmações de candidato que apontavam o Porto como exemplo a seguir pelo futebol do Sporting Clube de Portugal. É preciso trazer um treinador que separe de imediato os coxos dos que têm fibra. Que não alinhe como mimos, amuos, berloques e penduricalhos. Que esprema os níveis competitivos da equipa, mesmo que estes se esgotem neste ano para fazermos uma grande época em 2010/11. Um treinador que seja claramente pelo futebol ofensivo, aquele que enche os estádios até nas derrotas (vide Jorge Jesus). Eu não tenho dúvidas sobre qual devia ser o próximo treinador do Sporting. Oxalá as contas não estejam tão por baixo como a nossa moral, e que possamos pagá-lo.

Robert Enke (1977-2009)



















Recordá-lo assim. Ou assim:


11.10.2009

Esta dupla é dose














Vou tentar explicar por que acho que a duração longa não é amiga dos Dapunksportif. Os argumentos são os de alguém que regressa ao rock há pouco mais de dois anos e reconhece na dupla de Peniche (João Guincho e Paulo Franco são os elementos fixos do grupo) superior competência na matéria. Mesmo assim, alguém que gosta de dar opinião sobre os seus entusiasmos até quando lhe falta o domínio desejado sobre eles.
Os Dapunksportif surgem em 2004. Descobri-os com uma décalage de 5 anos. As primeiras audições revelaram fortes parecenças com o som Queens of the Stone Age. Foi com o Ep Ready!Set!Go! (2006) que me apercebi de que os Dapunksportif tinham de algum modo sintetizado a adrenalina dos primeiros discos da banda de Josh Homme e Nick Oliveri, no que me pareceu uma versão suficientemente competente para lamentar a cópia. E havia ali a espreitar um pouco da intensidade dos Placebo do período Black Market Music, com as suas inflexões prego a fundo e riffs igualmente vibrantes. Seguiu-se na discografia dos Dapunksportif o álbum Electro Tube Riot (2008), que assinala a expectável evolução na continuidade no som do projecto, embora situando-se ali num ponto equidistante entre a anterior marca Queens of… e o som dos ZZ Top circa Eliminator e Afterburner. Tal como os ZZ Top desse tempo (os anos 80), os Dapunksportif mostram-se uma máquina de criar singles: Electro Tube Riot é a uma jukebox programada sob o critério da electricidade elevada e constante. Por onde quer que se entre no disco, é garantido que no curto espaço de segundos estamos de novo lá em cima com as guitarras sôfregas de João Guincho e Paulo Franco. Era assim nos 20 minutos de Ready!Set!Go!, e o efeito repete-se ao longo de mais do dobro dessa duração em Electro Tube Riot. A música dos Dapunksportif é tão eficaz na excitação que provoca, que a dado momento podemos reclamar por uma gravidade que faça com que a sintamos de outra forma. Já os profissionais dos downloads não podiam desejar colheita mais revigorante. Tenho a certeza de que o disco, uma vez desmembrado, bate sempre com a intensidade original. Numa outra lógica, bem vistas as coisas, os Dapunksportif são bem capazes de nunca terem deixado de estar com a razão. E caso fossem californianos e gravassem para uma Major, estou certo de que o impacto da sua música seria global.

Ronald Stuart Thomas (1913-2000)



















«Weariness, and disgust, underline most of the poems in his most recent collection, H'm, probably the most strangely entitled volume in English poetry. For his dramatis personae of hill-farmers and chapel deacons he here added God, a cold figure baffled by his Creation. 'It's just souring old age, I suppose. My mother used to tell my father, "Haven't you a good word to say about anyone?" And I remember this one time, he stopped and thought about it. Then he said, "No."'
But it is when he touches on traditional human preoccupations that he is at his most bleak. 'Happiness? I don't understand this matter of happiness. I find myself saying to couples when I marry them, "I hope you'll be happy." But it's too elusive and fleeting, I'm too honest to think anything remains the same.' He quoted Ceiriog, the Welsh poet. "The places where I used to play, the people there no longer know me.' Life is something that has to be endured: if there are values they are in the enduring.»

[retirado da introdução a The Man Who Went Into the West: The Life of R.S. Thomas, de Byron James, que toma por base o perfil do poeta e clérigo galês (e principal figura remissível para o último disco de David Sylvian, Manafon) feito pelo autor, 30 anos antes, para o Daily Telegraph]

11.09.2009

Miss Lava não engana























Como tive ocasião de comentar com um amigo, e com invulgar poder de síntese, Miss Lava é stoner tuga puro e duro (a voz de Johnny Lee aproxima-se de John Garcia, para quem perceba o que quero dizer). Uma vez terminado o circuito que os levará a Loulé, Benavente e Moita, espero vê-los em Lisboa numa sala onde haja espaço para a potência do disco Blues for the Dangerous Miles se soltar.

Agradeço ao pessoal da Carbono que pela primeira vez me alertou para esta banda, e à revista Loud! que passei a ler para perceber mais da cena rock/metal (de que já gostava por ser constituída por gente asseada e com bons modos), o reforçar da minha curiosidade.

O José Luís Peixoto que se cuide.

O bolero é o destino do corno


















Os Sorrisos do Destino (estreia 5ª feira) arranca com a câmara de Fernando Lopes a dançar o bolero fétiche do realizador, Sabor a Mi, em torno da estonteante modelo Ana Isabel, que parece estar a ser fotografada para uma marca de lingerie. A aproximação à fémea é muito etéreo-sexual, expressão que o protagonista Carlos Manuel ou Manuel C. (excelente Rui Morrison) usará para se caracterizar lá mais para o fim. É a volúpia do olhar que (já) não deseja o contacto, apenas o prazer visual. É também o primeiro de vários boleros que Fernando Lopes espalha por este seu novo filme: uma obra que só dissimuladamente quer dar-se ares de moderna. E um prazer tanto maior quanto mais íntimos formos da realidade que a precedeu, e que Fernando Lopes assume. Trata-se de um terno ajuste de contas com a separação que o realizador viveu em período recente. Lopes retrata-se em Rui Morrison, com a atracção pela bebida, por estados contemplativos (melancólicos), por casacos de bombazine e, claro está, pelos boleros, na mesma medida que Ada (Ana Padrão) é um reflexo ficcional e carregado de private jokes da ex-mulher do realizador.
Esqueçam o suposto comentário que o filme se "propõe" fazer às relações num momento em que as pessoas estão cada vez mais umas com as outras à distância (telemóveis, Internet, tudo isso), que é um pouco coxo, assim com frágil é o modo como Fernando Lopes filma (que não me parece ter que ver com a ligeireza de tom, essa sim claramente intencional e mordaz), no que não é ajudado pela opção pelo vídeo digital que resulta num efeito de má televisão. Olhem sim, e olhem com muita atenção, para aquilo de antigo que está no filme e que faz parte da natureza nostálgica e sonhadora do realizador, que permite fazer do ressentimento que acompanha o fim de qualquer ligação uma história de solidariedade masculina (Manuel C. e Manuel B, amante da mulher do primeiro, passarão juntos grande parte do tempo, e se isto não é a ironia sábia a funcionar não vejo o que mais possa isto ser), plena de cavalheirismo e de saborosa cumplicidade.
Vão-se as mulheres mas teremos sempre o presuntinho 5 Jotas, o vinho Duas Quintas e, como é óbvio, os boleros de Los Panchos. O resto é silêncio.

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