5.11.2007

Sonhar com cangurus











5.10.2007

São Paulo confessions




















A partir de hoje e durante uma semana, pela compra do livro que reúne crónicas de um tal de João Pereira Coutinho para a Folha de S. Paulo, recebemos grátis a revista Sábado. Assim vale a pena.

5.09.2007

Allez allez.... ouch!














«(...) Sarkozy ganhou a presidência há dois anos, na noite em que chamou canalha ou, melhor dizendo, racaille aos grupos que incendiavam, agrediam e mataram nos arredores das cidades francesas. Por essa Europa fora, um frémito de horror fez franzir os sobrolhos das cabecinhas bem-pensantes: que horror, o homem chamara canalhas àqueles jovens - e os jovens não têm sempre razão? - que se manifestavam contra o sistema?! De nada servia argumentar que os jovens não se manifestavam e que destruíam o que apanhavam. Que aterrorizavam vizinhos e todos aqueles que não tinham meios de se mudar para outro lado. Os jornalistas que os tentaram entrevistar acabaram a fugir com medo de ser agredidos. E os conteúdos racistas e anti-democráticos das declarações dos ditos jovens eram e são editados no meio de atenuantes explicações sociológicas. Já as vítimas das agressões dos ditos revoltados não tiveram direito a sociologia alguma, mesmo quando foram queimados ou espancados até à morte. Dir-se-á que chamar canalha a quem se porta como tal não é razão suficiente para ganhar eleições. De facto, não devia ser. Mas foi-o em França. E foi-o tão claramente que, durante a campanha eleitoral, o fantasma da canalha voltou. Caso Sarkozy ganhe, Paris vai arder - este foi o aviso-ameaça repetido até por Ségolène naquele que ficará como um dos maiores erros da sua campanha. Não só esqueceram que Paris já esteve para arder outras vezes - e resistiu -, como esqueceram também que uma sociedade que vive com medo tende a premiar aqueles que chamam canalhas aos canalhas. Rui Tavares, ao analisar a sequência dos valores enumerados por Sarkozy no seu discurso de vitória - presidente "do trabalho, da autoridade, da moral e do respeito" -, afirma que "o "respeito" de Sarkozy (...) vem subordinado: é respeito pelo trabalho, pela autoridade e pela moral". Mas foi precisamente por isso que Sarkozy ganhou. Esse respeito subordinado é o reverso do medo da canalha. Quer a racaille goste ou não, foi também ela que levou Sarkozy ao Eliseu e deu à palavra respeito uma das maiores ovações da noite.»

[Helena Matos no Pingue-Pongue do Público, ontem]

A verdade dói, eu sei.

Alguns parágrafos são (ainda) melhores que os outros




















«Por vezes é constrangedor como o corpo não está disposto a mentir sobre as emoções, ou não consegue fazê-lo. Quem, em nome do decoro, conseguiu alguma vez abrandar o coração ou dissimular um rubor? O músculo rebelde de Florence saltava e adejava, como uma borboleta presa sob a sua pele. Por vezes tinha um problema semelhante com as pálpebras. Não estava certa, mas talvez o tumulto estivesse a abrandar. Ajudava-a fixar-se nos aspectos fundamentais, e enumerou-os, de si para consigo, com uma lucidez estúpida: a mão dele encontrava-se ali por ele ser seu marido; ela deixava-o estar por ser sua mulher. Algumas das suas amigas – Greta, Hermione e, especialmente, Lucy – há horas que teriam estado nuas entre os lençóis e consumado o casamento – ruidosa e alegremente – muito antes da boda. Com o seu afecto e generosidade, tinham mesmo a impressão de que era isso precisamente que ela tinha feito. Florence nunca lhes mentira, mas também nunca as elucidara. Ao pensar nas amigas, sentiu aquele travo peculiar e não partilhado da sua existência: estava sozinha.»

[pág. 70 da edição da Gradiva]

5.08.2007

Barbas do eu sozinho (meus neurónios saltitantes)














"... com o Domenico!", achou ela sur le quai de la gare. Foto da esquerda, perfil que se destaca. Senti-me lisonjeado - lembrança gostosa. Gosto muito do Moreno, e do Domenico e do Kassin. Refiro-me à música da rapaziada: o CD fresquíssimo, Futurismo (Luaka Bop), começa nas nuvens, encontra alguns buracos pela segunda metade - dois ou três, nada de grave -, põe-se a cantar estrangeiro e acaba subindo de novo aos céus conduzido pela língua meiga de Moreno Veloso. Barbas à parte, continuo no entanto a ser mais ferrenho dos Los Hermanos (check it out!), imagem da direita: não há dj set meu sem eles. E na actual música retrofuturista brasileira podia juntar ainda os nomes de Max de Castro, Ed Motta e Vinicius Cantuária. Marcelo (Camelo) ou Rodrigo (Amarante) teria sido assim mais cool de ouvir, mas não eram eles que estavam em Portugal e a minha barba é para todos os efeitos barba modesta.

5.07.2007

Nurse With Wound no Porto, c’um escafandro! (e etapa complementar “on Broadway”)



















“Aterro” em Campanhã à hora prevista, com a imprensa do dia toda lida e largada ao cuidado do passageiro seguinte. O táxi até Serralves fica abaixo do custo do bilhete do concerto. O jantar, pouco depois, muito insatisfatório, fica por menos da despesa do segundo táxi que me levará até Leça. Mas ainda não chegámos lá. Se a economia parecia jogar a meu favor (ao contrário do Nacional madeirense e da Naval figueirense), a música jogaria toda. E pela noite inteira. Ao entrar no Auditório de Serralves o que se via em baixo e no fundo era a mesa longa e corrida, tapada com um pano escuro, cheia de maquinaria diversa, que uma vez distante e “de costas” para mim presumi serem computadores e aparelhos de processamento de efeitos sonoros, junto dos quais, tombados, estavam uma guitarra e um baixo eléctrico. Colin Potter recebeu-nos sozinho no palco, tratando de equalizar um drone (nota sustentada que opera como base harmónica) que funcionaria como cama sonora onde os restantes elementos seriam depositados. Pouco depois entravam Steven Stapleton (o sr. Nurse With Wound), Andrew Liles e Matt Waldron – também artistas, também “experimentalistas sonoros”. A actuação compreendeu dois segmentos de abstracção sónica: o primeiro bem mais prolongado (cerca de uma hora); o segundo, durando apenas cinco distensos minutos, era o encore arrancado a palmas aos Nurse With Wound (NWW). Ambas as peças organizaram-se num crescendo, precedido de diminuendo, que acumularia elementos sonoros de vária ordem, que mais tarde e à vez se extinguiam. Steven Stapleton operava essencialmente com um arco que percutia as cordas da guitarra eléctrica – deixada sempre em repouso. Usava a mão esquerda para tratar electronicamente os sons que retirava desta. O restante elenco detinha-se sobretudo sobre os botões do equipamento que produzia ruídos e sons “naturais”, com a excepção de um dos músicos que pegou no baixo para intensificar o ritmo, de resto de dinâmica baixa e neutra, para regiões entre o funk e a batida metronómica do krautrock. O mesmo elemento surpreenderia a audiência próximo do final da performance ao envergar uma espécie de escafandro nuclear cujo incremento sonoro não estou certo de ter sabido distinguir correctamente. A totalidade da prestação da formação britânica foi acompanhada de projecção video art sequencial, vista em grande ecrã, que mostrava uma mulher asiática que ora colocava ora retirava uma máscara com rosto humano, aos pés da qual se observavam figuras masculinas e femininas nuas, enroladas sobre elas mesmas e umas nas outras, criando uma coreografia não menos abstracta do que a própria música. Havia ainda um efeito visual acrescentado às imagens que dava a impressão de as fazer entrar em combustão continuada. O que se escutou, para mim que conheço a fundo uma parte diminuta da discografia de três décadas dos NWW, fez-me frequentemente lembrar o assombroso Salt Marie Celeste: em terra de pescadores e marinheiros que outra coisa seria de esperar? Foi por isso um programa na fronteira do expectável e do surpreendente, exactamente aquilo que eu contava ver dos NWW. Deu para mergulhar na abstracção dos sons; deu para perder o pé por entre zonas periféricas da consciência; deu para fechar os olhos para as imagens para melhor os abrir para a música. Já após o concerto, o público de não mais de centena e meia de pessoas precipitou-se, quais aves de rapina, para a banca que vendia CD’s e merchandising dos NWW e do catálogo United Dairies. Rapace, então logo eu, não saí de garras vazias. Esperava-me ainda um outro tipo de espectáculo (e aqui tenho de reentrar no segundo táxi), nas imagens e nas canções de STEPHEN “Sweeney Todd”, “Follies”, “Company”, “A Little Night Music”, “Merrily We Roll Along”, “West Side Story” SONDHEIM, sublime Sondheim, que se prolongou até de madrugada, conversa paralela à sondheimiana e à ingestão de aperitivos calóricos, com dois outros convertidos que tinham necessariamente de ser meus grandes amigos.

Nota: a imagem não corresponde ao espectáculo de Serralves mas a uma outra actuação dos Nurse With Wound.

5.04.2007

Música de embalar
























«"I think it's the most important movement in modern music. I mean, fuck The Beatles! Krautrock had nothing to do with The Beatles, it came from classical avant-garde and free jazz, it didn't come from pop. It was really self-contained, brutal, hard, and cold, and I just loved it. I think the only reason Can came up with the story about how they heard The Beatles' "I Am The Walrus" and were inspired to start a band was because they wanted to be accepted by western musicians and fans - they're gonna say that just to get 'in'. Schmidt came from Stockhausen, Liebzeit from free jazz." So were the Nurse seeds planted out in Germany? "Oh yeah, for the first time I really felt that I'd found real kindred spirits, this was what I wanted to do - especially the cold relentlessness of the first two Kraftwerk albums, Kluster, Amon Duul, I was absolutely moved by it."»

«Stapleton picks out the Current 93 LP, In Menstrual Night, as a landmark in the realization of his aesthetic and I relay the poetic way that Tibet had first described it to me. "I wondered where dreams went to when they died in your heart and your soul," David had explained. "Some strange graveyard - I wanted to recreate that feeling of when you're at some party, a bit drunk, and you start to drift off to sleep. You start to remember the voices of your childhood and they mingle with the distant sounds of the party, an old nursery rhyme floats past, all part of a bizarre collage. Then the drum enters, like a dream going to feed the moon's soul."»

«After the Klaus Shultz-esque spaceways drift of 1986's Spiral Insana and the meditative mantra float of the 3 LP Soliloquy For Lilith set, Stapleton made his retreat to Ireland and his goat farm. In direct contrast to the claustrophobic intensity of the earlier Nurse stuff, sometime around Spiral Insana Stapleton's music began to really open out and became much more expansive in intent.»

Nurse With Wound visita-nos. A entrevista. O concerto. A opinião fica para mais tarde.

Só até ao fim
























You're always sorry, You're always grateful, You hold her, thinking: "I'm not alone." You're still alone.

Já que é sozinho, que seja então em boa companhia.

[Um post sobre a amizade e sobre aquela que provavelmente será a melhor canção do mundo.]

5.03.2007

Ambas correctas

1) Nunca é tarde para perceber que o melhor amigo do homem é no fim de contas o contabilista.

2) Nada mais seguro e verdadeiro do que a frase que diz "programa sujeito a alterações".

4.27.2007

Modelo(s)



















Disco chegado em 2003, depois do trip hop, depois de experimentações várias com a canção de formato pop electrónico, que arrisca a síntese do tempo que se estende do Impressionismo (Ravel, Debussy) até ao wall "paper" of sound contemporâneo. Notáveis contenção e despojamento: tanto que há a aprender, por tanta gente, com o bom gosto dos arranjos para cordas e/ou sopros de Hector Zazou. Só para início de conversa. A música de Strong Currents é frágil.


Na faixa# 6 quem canta não é Björk mas Nina Hynes (a sério!)

4.26.2007

Shakespeare aos tiros no Inferno
















Jellon Lamb – Oh, he sits up there in those melancholy hills; some say he sleeps in caves like a beast, slumbers deep like the Kraken. The Blacks say that he is a spirit. The Troopers will never catch him. Common force is meaningless, Mr. Murphy, as he squats up there on his impregnable perch. So I wait, Mr. Murphy. I wait.

As palavras são de Nick Cave, mas na boca de John Hurt (Jellon Lamb, caçador de prémios) dissolvem-se em impuro Shakespeare. Ouvem-se e vêem-se no estupendo western, The Proposition, que tem lugar entre os céus e o Inferno australiano de finais do século XIX, filmado por John Hillcoat a partir de um argumento original de Nick Cave (os dois voltaram a reunir-se no projecto Death of a Ladies Man com data de produção prevista para 2009). A paisagem parece a de um cenário pós-apocalíptico onde não se imagina que o homem possa sobreviver. Um espaço de morte, deserto, calor demencial, pontuado pelo enlouquecedor ruído das moscas que estão por todo o lado. Um país em processo de colonização que os ingleses querem civilizar mesmo que à força. Uma terra selvagem de onde sairão todos a perder - sete palmos abaixo da terra ou à mercê do batimento das poeiras e do apetite dos predadores - e onde a diferença entre ser-se bruto ou sofisticado passa exclusivamente pela percepção de que a morte virá já a seguir e de modo sangrento. The Proposition figura uma espécie de mundo original olhado por um misantropo (Cave, também autor da minimal e desengonçada óptima banda-sonora). Filmado por outro misantropo (Hillcoat). Não é possível evitar odiar a humanidade representada no filme. Gente que sobrevive pela manifestação dos instintos que aproximam homens e animais – seres de espécie idêntica, diria Darwin (citado no filme), separados por um degrau de evolução que pode ser descido a qualquer momento. A acção tem lugar dias antes do Natal, ocasião apropriada para marcar o desfecho com a cor vermelha do Juízo Final. E notável é também o modo como Hillcoat e os actores do filme – Guy Pearce, Emily Watson, Danny Huston, Ray Winstone, além de John Hurt e restante elenco – nos deixam perceber a sua condição de condenados à partida. Como se ninguém além dos indígenas e dos animais pudesse sobreviver ao cenário que rejeita com indiferença o homem branco. O homem estranho que com propósito civilizacional irá inscrever um historial de violência na terra australiana: que o despreza e que o obrigará a pagar caro preço por se deixar transformar. The Proposition é a versão épica e cruel dessa impossibilidade original. A Austrália que hoje conhecemos representa apenas a ponta do deserto primitivo em volta, interior. Trata-se do continente onde é ainda possível experimentar o pioneirismo de outros tempos. The Proposition é por isso perfeitamente actual, sendo simultaneamente shakespeareano na sua dimensão trágica e íntima, e bíblico na apropriação do grande gesto terminal e castigador. Pessimista. Fabuloso.

Thanks, mate.

4.24.2007

Frisco jukebox




TU

XE

DO

MOON


Para os que gostam de bandas-sonoras reais que são imaginárias e bandas-sonoras imaginárias que são reais. Coisas diferentes, na origem. Em escuta aleatória: You, Ship of Fools e Bardo Hotel Soundtrack.

INDIELISBOA (dia quinto)












Fui em busca de reconciliação com a filmografia de Shinji Aoyama. Teimosia parcialmente, e só parcialmente, recompensada. Shady Grove (traduz-se por "alameda sombria") é a metáfora encontrada para abordar as dificuldades de entrada na idade adulta, onde a independência económica vem cada vez menos acompanhada de maturidade emocional. Os jovens yuppies de Tóquio não sabem o que sentem e interpretam de forma deturpada o que os outros sentem. Aoyama é terno a filmar o desamparo dos protagonistas. O romantismo é ingénuo e apoia-se na pop japonesa e nos livros de auto-ajuda. Perdidos entre aquilo que os mais velhos esperam deles e o que não sabem que querem para si, os dois rapazes e a rapariga de Shady Grove são mais universais que o próprio filme: onde Shinji Aoyama resolveu dar conta das pequenas tragédias amorosas de uma juventude ridícula. Suspensa entre um cenário urbano anónimo e a idealização da paisagem rural onde existirá, segundo todos, uma qualquer harmonia redentora. O resultado é interessante, embora distante ainda da maturidade plástica, narrativa e idiossincrática dos títulos mais recentes do japonês. (2 estrelas)

dall'Abaco divino











Entusiastas da clássica e não só, tinham até hoje nas suites de violoncelo de Bach uma espécie de pináculo para o instrumento com deserto em volta. Não é mais assim. Os 11 caprichos do belga Joseph dall'Abaco (1710-1805) tocam tal qual Bach a esfera do sublime. E a interpretação da senhora der Goltz impressiona até o mais impreparado par de ouvidos. Essencial, pois a festa da música faz-se melhor em casa.


Procurem-no na VGM (Picoas) ou nas Fnac.

4.23.2007

INDIELISBOA (dia quarto)














Diz Laurent Achard em nota de intenções que convém ler antes da sessão e tomar à letra: "Retirei tudo o que tivesse a ver com sociologia ou psicologia. Os jornalistas são obcecados por estes temas, mas o que mais interessa é a forma, o estilo. (...) Filmar os próprios actos não tem interesse. Uma pessoa tem que saber usar a imaginação." Poderia ser eu que estava pouco imaginativo, mas Le Dernier Des Fous pareceu-me apenas um objecto militantemente claustrofóbico com final sangrento, bastante devedor do cinema de Michael Haneke ou de Bruno Dumont. Posso dizer que o topei e que o ignorei, assim mesmo. Sei no entanto que este tipo de dramaturgia de temperatura polar resulta frequentemente em prémios nos festivais de cinema que se queiram afirmar (e confirmar). Serão todos muito irreverentes, determinados e niilistas, sufocando qualquer emoção pela aposta num cinema irrespirável. Quando vejo um filme destes, apetece-me logo mudar de ares: passar a um Pialat ou coisa assim, que sendo irremediavelmente pessimista sempre projecta sangue mamífero a 24 imagens por segundo. Repete quarta-feira, 26 de Abril, às 16h, nos King. (1 estrela)

4.22.2007

INDIELISBOA (dia terceiro)














O que vou escrever vai soar reaccionário e é mesmo. Ultimamente ando com pouca disponibilidade para o formalismo exibido por grande parte do cinema de autor. Originais são aqueles que apagam as referências que de caminho deixam para trás. Ou que as integraram de modo a tornarem-nas invisíveis. Mas o que é mais comum é ver-se por aí demasiado gato escondido com o rabo de fora. Vem isto a propósito da primeira desilusão com origem na programação do Indie - nalguma sessão teria de acontecer... Wild Life, de Shinji Aoyama, é um daqueles divertimentos falsamente despretensiosos que à boa maneira da nouvelle vague distrai-se em malabarismos fragmentários que visam dificultar o entendimento da intriga, ainda que paródica, e que brinca às citações sem motivação aparente e ao cabotinismo até à exasperação. Aoyama experimenta com o baralhar dos planos temporais, só que tanta cambalhota vai rapidamente na direcção da irrelevância. Já vimos gangsters mais carismáticos e sedutores em Godard e Kitano, para ficar por referências que suspeito serem as de Wild Life. E até o nosso Rogério Ceitil já terá acertado em paródia com outra graça nos episódios de Duarte e Cia., triunfal absurdo lusitano. Wild Life, pelo contrário, pareceu-me um capricho sem sentir e sem sentido. Pobrezinho. Shinji, Shinji, porque me abandonaste? (1 estrela)

Ave rara



















Rufus por fora, Buckley por dentro. Se pudéssemos reduzi-lo a isto, não seria disco de excepção. Nada óbvio. Apontem bem mais para cima.

4.21.2007

INDIELISBOA (dia segundo)













Destricted resulta de encomenda de uma plataforma de gente ligada ao mundo das artes, que resolveu desafiar artistas e cineastas a apresentarem a sua visão do sexo e da pornografia num conjunto de curtas-metragens reunidas em programa de cerca de duas horas. Foram sete os convidados: 5 homens (Richard Prince, Larry Clark, Matthew Barney, Marco Brambilla, Garpar Noé) e duas mulheres (Sam Taylor-Wood, Marina Abramovic). Gente ligada, ora ao cinema, ora às artes, em zona de fronteira que interessava à entidade que comissariou a proposta. Falemos dos resultados. A dominante masculina talvez tenha decidido a orientação literalmente masturbatória da maioria das curtas. O sexo é gráfico e explícito, embora com aquela décalage formal que supostamente o ilibará de se tornar mero exercício gratuito. Gostei dos filmes de Barney e de Larry Clark: o primeiro, Hoist, apresentando uma instalação parte homem parte máquina, onde tanto se lubrificam o pénis quanto a avantajada turbina, proposta coerente com os objectos da série Cremaster, embora com a vantagem da sua mais curta duração; o segundo, Impaled (na imagem), resultando do registo do casting onde Clark propõe a um conjunto de rapazes que fale das suas fantasias sexuais para que depois um apenas seja escolhido e convidado a realizá-las com uma actriz porno. Clark foi o único dos participantes a filmar as coisas como elas são: a pornografia em toda a sua crueza e proeza - o rapaz escolhido não deixa ficar mal o realizador e as actrizes são uma simpatia. De resto, só metáforas pesadas, humor involuntário e formalismo enjoativo (como na curta de Noé, ainda sob o efeito strob de Irreversível). Destricted mostra como a figuração da genitália e dos actos sexuais é das coisas verdadeiramente delicadas de transformar em arte. Quando a coisa funciona a gente excita-se e quando a gente não se excita é porque a coisa não funciona. Dou por ejaculado! Repete sábado, dia 28, às 22h15, no mesmo Fórum Lisboa. (2 estrelas)

4.20.2007

INDIELISBOA (dia primeiro)

















Disse-me um amigo que já leu Lacrimae Rerum, que o documentário The Pervert’s Guide to Cinema, conduzido em colaboração com a realizadora Sophie Fiennes, pelo mesmo Slavoj Žižek – filósofo, psicanalista e cinéfilo (não necessariamente por esta ordem) –, anda à volta dos mesmos cineastas e conceitos. Os exemplos vêm de Chaplin (The Great Dictator, City Lights), Bergman (Persona), Hitchcock (muito The Birds, muito Vertigo bendito seja!) Lynch (Blue Velvet, Wild at Heart, Lost Highway, Mulholland Drive), Kieslowski (Trois Couleurs: Bleu), The Matrix, Alien(s), Star Wars, entre outros, ao longo de inebriante montanha-russa (ou, para ser mais correcto, montanha-eslovena) conceptual que dura cerca de 160 minutos, distribuídos por três partes, que arrisco resumir através de uma das frases felizes que Godard roubou ao próximo – e apesar deste ser nome omisso na reflexão de Žižek. Dizia então Jean-Luc, pela boca de André Bazin, que “le cinéma substitue à notre regard un monde qui s’accorde à nos désirs.” Qualquer coisa como, o cinema apresenta-nos um mundo alternativo que corresponde aos nossos desejos. Uma “zona”, agora já por sugestão zizekiana (e influência tarkovskiana), que na vida quotidiana nunca atravessamos a não ser na direcção do ecrã bigger than life da sala de cinema. O cinema como amante para a vida inteira, da qual não ocultamos as mais profundas fantasias do nosso inconsciente (o Id ou a libido a que Slavoj Žižek tanto se refere). Entenda-se que a frase de Bazin/ Godard, se sintetiza o programa de The Pervert’s Guide to Cinema, nem por sombras o diminui. Valoriza ambos. Valoriza também o IndieLisboa que dificilmente poderia ter arrancado de modo mais auspicioso. Repete terça-feira 24, no Londres, às 15h45. (4 estrelas)

4.19.2007

O INDIE começa hoje



















Aqui entre nós, é o melhor festival de cinema organizado em Portugal. Da edição deste ano destaco para já apenas o que "conheço": o cinema do rapaz aqui na foto, Shinji Aoyama (Japão). Conheço dois filmes, procurarei ver do resto tudo o que puder. Assim como tentarei ver o maior número de filmes possível, na medida do possível. Darei conta das minhas investidas pelo Indie, assinalando o dia e deixando notas altamente subjectivas sobre os objectos descobertos. O IndieLisboa é sobretudo um festival para se ir à descoberta. Apareçam por lá; e por cá também.

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