De amantes de música para amantes de música. Parece ser a fórmula subjacente ao documentário Scott Walker: 30 Century Man, que o IndieLisboa em abençoada hora decidiu mostrar, e por duas ocasiões, na edição deste ano. O filme sobre Scott Walker é tanto mais fascinante quanto em nós produz um duplo impacto: por um lado assistimos à conversa na actualidade (por alturas da gravação de Drift), e a documentos de época, que revelam um pouco (que para o caso é bastante) daquele que é simultaneamente das mais fascinantes e misteriosas personalidades da história da música popular do último meio século. Demasiadas vezes tendemos a sobrevalorizar o efeito da descoberta da obra de um artista, mas no caso de Scott Walker tal poderá assumir a forma de uma possessão, nada mais e nada menos que isso. Recordo ainda que atordoado com a escuta da colectânea Boy Child (que reúne composições presentes nos quatro álbuns lendários, finalmente remasterizados, gravados entre 1967 e 1970), dei por mim a ouvir tudo o que apanhasse, a ler sofregamente a biografia A Deep Shade of Blue, e a gritar interiormente (ou mesmo para fora, quando sozinho) as suas canções, cheias daquela carga romântica e existencial que as enforma. Nunca antes ou depois de Scott Walker um músico, qualquer músico, me fez sentir a condenação às trevas da condição humana de modo tão transcendente e peculiarmente celebratório. O imaginário expressionista de Walker tornava-se nos sonhos despertos dos que lhe nutriam o culto. A voz de Scott Walker fazia ascender aos céus da sua figura mítica de anjo sombrio, e poucos foram os que depois o seguiram na descida aos infernos de que os últimos discos, Tilt e Drift, dão irrefutável testemunho. Quando referi o facto de Scott Walker: 30 Century Man ser estruturado do ponto de vista do amante de música, tal se deve à intenção demonstrada pelo realizador Stephen Kijack em centrar a entrevista com Scott Walker sobre aspectos do seu trabalho criativo, e menos sobre questões biograficas propriamente explícitas. E depois há o outro elemento que leva a que o impacto seja em duplicado, que passa pelo testemunho de gente tão extraordinária como David Bowie, Richard Hawley, Marc Almond, Radiohead (sem Thom Yorke), Brian Eno, Jarvis Cocker e vários outros, que connosco partilham a audição de canções de Scott Walker, cuja impressão recordada se manifesta primeiro nas suas expressões faciais, algo extasiadas, para em seguida tomar a forma de palavras. Ídolos que então baixam à condição de comuns mortais, e que dão testemunho do assombro que é também o deles quando escutam a voz e a música (e os sons) de Scott Walker.
5.05.2008
S. Walker's Day
De amantes de música para amantes de música. Parece ser a fórmula subjacente ao documentário Scott Walker: 30 Century Man, que o IndieLisboa em abençoada hora decidiu mostrar, e por duas ocasiões, na edição deste ano. O filme sobre Scott Walker é tanto mais fascinante quanto em nós produz um duplo impacto: por um lado assistimos à conversa na actualidade (por alturas da gravação de Drift), e a documentos de época, que revelam um pouco (que para o caso é bastante) daquele que é simultaneamente das mais fascinantes e misteriosas personalidades da história da música popular do último meio século. Demasiadas vezes tendemos a sobrevalorizar o efeito da descoberta da obra de um artista, mas no caso de Scott Walker tal poderá assumir a forma de uma possessão, nada mais e nada menos que isso. Recordo ainda que atordoado com a escuta da colectânea Boy Child (que reúne composições presentes nos quatro álbuns lendários, finalmente remasterizados, gravados entre 1967 e 1970), dei por mim a ouvir tudo o que apanhasse, a ler sofregamente a biografia A Deep Shade of Blue, e a gritar interiormente (ou mesmo para fora, quando sozinho) as suas canções, cheias daquela carga romântica e existencial que as enforma. Nunca antes ou depois de Scott Walker um músico, qualquer músico, me fez sentir a condenação às trevas da condição humana de modo tão transcendente e peculiarmente celebratório. O imaginário expressionista de Walker tornava-se nos sonhos despertos dos que lhe nutriam o culto. A voz de Scott Walker fazia ascender aos céus da sua figura mítica de anjo sombrio, e poucos foram os que depois o seguiram na descida aos infernos de que os últimos discos, Tilt e Drift, dão irrefutável testemunho. Quando referi o facto de Scott Walker: 30 Century Man ser estruturado do ponto de vista do amante de música, tal se deve à intenção demonstrada pelo realizador Stephen Kijack em centrar a entrevista com Scott Walker sobre aspectos do seu trabalho criativo, e menos sobre questões biograficas propriamente explícitas. E depois há o outro elemento que leva a que o impacto seja em duplicado, que passa pelo testemunho de gente tão extraordinária como David Bowie, Richard Hawley, Marc Almond, Radiohead (sem Thom Yorke), Brian Eno, Jarvis Cocker e vários outros, que connosco partilham a audição de canções de Scott Walker, cuja impressão recordada se manifesta primeiro nas suas expressões faciais, algo extasiadas, para em seguida tomar a forma de palavras. Ídolos que então baixam à condição de comuns mortais, e que dão testemunho do assombro que é também o deles quando escutam a voz e a música (e os sons) de Scott Walker.
por r.g. às
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