9.17.2012

Soixante-huitard




















Não foi tarde (a minha primeira manif). Foi quando teve que ser.

(fotos de Cristina Valério e Tiago Cabral)


Adenda: Robert Doisneau, 1950.

9.14.2012

A honestidade de "Hope Springs"



















O tipo de cinema dirigido ao americano médio, um semelhante do espectador médio em qualquer parte do mundo globalizado. Tudo se caracteriza pela mediania, com excepção do argumento de Vanessa Taylor e dos actores principais: extraordinários e muito bravos. Acima da mediania artística, destaca-se também a honestidade do projecto. Significa que o embraraço que Hope Springs/ Terapia a Dois suscita em quem vê, é o embaraço com que os protagonistas (actores) têm de lidar. Equilibrio numa linha ténue que divide a comoção do ridículo. Considero que haja quem nele encontre apenas o ridículo. Eu vi honestidade, repito. Capacidade de abordar o tema do filme exactamente pelo que é. Sem a sofisticação postiça (tem cançonetas pop a mais, de facto) em que o cinema é pródigo quando quer afirmar um carácter de excepção face às nossas vidas.

9.12.2012

Os pontos negros



















É um pouco rebuscado dizer que Querido Diário/ Caro Diario (1993) é atravessado por três tipos distintos de pontos negros, que funcionam como o núcleo de cada segmento autónomo do filme, mas é apenas a interpretação que arrisco, sem risco de Moretti vir fazer-me a mim o que o vemos fazer a um crítico de cinema que havia escrito babugem diversa sobre diversos filmes.
Os pontos negros presentes em Querido Diário são o próprio Moretti, que na primeira parte, Na Vespa, ziguezagueia, próximo ou à distância, sempre de t-shirt preta, pelas ruas de Roma como se fosse a coreografia possível de quem não sabe dançar. No segundo episódio, Ilhas, a televisão é o ponto negro, estando ligada ou desligada, o que vem a ser explicado depois reportando a um dos mais brilhantes diálogos do filme, entre Moretti e o amigo que o acompanha num périplo pelas ilhas em busca de sossego para trabalharem: (“Sabes o que escreveu Hans Magnus Enzensberger?”, “Ehhhh…”, “Estou de acordo com ele.”). Enzensberger terá dito que a televisão é o nada, no sentido em que o que nela se vê é nada, no entanto, concluo eu agora, atrai-nos como o faz ao amigo de Moretti como se se tratasse de um abismo negro. No derradeiro segmento, Médicos, o ponto negro é bastante mais óbvio. É o tumor linfático que aparece a Moretti e o faz percorrer um conjunto de dermatologistas e alergologistas, ingerir dezenas de medicamentos, testar todo o tipo de terapias, até que se acerte no diagnóstico. Um tumor felizmente benigno ou não haveria Moretti depois de Querido Diário.
A originalidade do filme tem a ver ainda com o facto de baralhar os géneros cinematográficos em cada uma das partes, e o modo como o faz. Na Vespa não é inteiramente um musical, embora a música esteja sempre presente e seja muitas vezes o único elemento sonoro. Ilhas não é apenas e só uma comédia, e atrevo-me a dizer não inteiramente ficcional, pois sugere que Querido Diário seja produto de um impasse criativo que se tornou num impulso criativo. Médicos, a terceira parte, é a que mais directamente se refere à vida do realizador. É Moretti quem o afirma, lendo a partir do diário que escreve ao longo de todo o filme. Há mesmo imagens de uma sessão de quimioterapia que são documentário puro e duro. Claro que as idas a médicos e tudo o mais é reconstituição. Reconstituição que termina com a mais transparente das sabedorias. Beber um copo de água ao acordar faz bem. De resto podemos apenas apreciar a vida.

9.10.2012

A missa infinita




A possibilidade da personagem do professor Michelle Apicella ter “reencarnado” no filme seguinte na figura do padre Giulio, merece ser considerada. Aproxima-os, além do corpo de Nanni Moretti, uma certa rigidez moral, o comportamento anti-social de quem procura alienar-se do que vindo de fora perturba as convicções próprias, e algumas fixações juvenis que assumem a função de escape (tanto Michelle como Giulio não podem ver uma bola de futebol que de imediato desatam a correr na direcção dela).
A Missa Acabou/ La Messa è Finita (1985) é uma obra onde se equaciona a possibilidade de encontrar sentido para a vida: se ele está na realização individual autónoma ou na relação com os outros. Que espécie de amor libertará o homem trazendo-lhe alegria? Não há respostas definitivas, é o mistério da vida que prevalece. E a originalidade de um filme que ligando-se com o anterior, acrescenta-lhe profundidade e universalidade. A Missa Acabou é uma obra-prima.

9.07.2012

Pólos opostos







































Os que vivem felizes sabendo apenas da ponta do iceberg, e os que não têm outro remédio.

“Bianca”, um retrato da solidão


















Caso bicudo este Bianca (1984). A começar pelo tom do filme. A música e a planificação configuram um policial, ou um filme de suspense psicológico, ou uma mistura de ambos, a fazer lembrar os Chabrol e os Truffaut da década de 70. Chegados ao liceu Marilyn Monroe (!) com o protagonista, o professor de matemática Michelle Apicella (Nanni Moretti), o registo torna-se burlesco, embora a carga malsã de Apicella paire como sombra que desce naquele contexto algo excêntrico e de cores garridas. A própria figura de Nanni é estranha. Recorda de modo igualmente enviesado o Helmut Berger do cinema de Visconti, com a maquilhagem evidente e o cabelo demasiado armado.
O professor Apicella parece movimentar-se à parte das restantes personagens. Como um vampiro diurno. À força de se querer proteger do mundo que não compreende, da felicidade que só entende enquanto valor absoluto, torna-se numa espécie de fugitivo. Figura suspeita. Mas o espectador passa-se para o lado dele porque Michelle é frágil; porque muitas das suas inquietações, medos, desconfortos, dizem coisas sobre nós também. Os crimes sucedem-se, apesar de o filme os tratar de forma sempre lateral ao veio principal da história, e então surge Bianca (Laura Morante) que faz por Michelle uma escolha, dir-se-ia, irracional, e este encontro só amplia a paranóia do protagonista, quebrado sob o peso das relações que espia e condena. Traições, poligamia, conformismo.
Quando Michelle se despede de nós comenta a tristeza que é morrer sem ter tido filhos. Os poucos sorrisos que o filme suscita, e o acumulado de risos nervosos, substituem-se nos instantes finais por uma impressão de asfixia. Bianca é até mesmo superficialmente um objecto amargo e triste.


Próxima paragem: La Messa è Finita/ A Missa Acabou (1985)

9.06.2012

Matar a sede



Sabem quando nos dizem que a água é a melhor bebida para matar a sede? É que é mesmo verdade.

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9.05.2012

Barbas de molho


9.04.2012

Barbas de inteligência



A flor eterna


















O Fiel Jardineiro/ The Constant Gardener (2005) retrata o trajecto de um adulto que se torna homem pela intervenção da mulher por quem se apaixona, mas só depois de a ter perdido para sempre. O percurso não é óbvio, apesar de ser menos confuso do que parece. Quando Justin (Ralph Fiennes), pacato diplomata que se mostra mais preocupado com as suas plantas do que com o destino do mundo, dorme pela primeira vez com Tessa (Rachel Weisz), que conhecera numa conferência sobre política externa em África, agradece-lhe como se a mulher o tivesse despertado para o que significa "sentirmo-nos vivos".
Seguem juntos para o Quénia, já na qualidade de marido e mulher, e algum tempo depois é comunicado a Justin o homicídio de Tessa e de um acompanhante, em circunstâncias que levam a crer no adultério da mulher. Um terço do filme joga-se entre a mágoa deste homem reservado e as recordações dos seus momentos com Tessa: da intimidade estabelecida e aparentemente traída. A segunda de três partes trata das consequências das investigações de Tessa sobre a actividade corrupta dos grupos farmacêuticos em África, que usam populações inteiras como cobaias de medicamentos em fase experimental, quando não as entompem com drogas que prescreveram a validade.
Quando Justin tem a prova (uma carta por ela escrita) de que Tessa lhe fora sempre fiel, tendo apenas manipulado os avanços de um colega de Justin para obter provas da conivência das autoridades britânicas para com as más práticas das grandes farmacêuticas, Justin passa a ter por único propósito completar o trabalho que Tessa não chegou a fazer, procurando redimir-se do facto de ter posto em causa a fidelidade da mulher.
Justin torna-se finalmente um homem, no sentido em que persegue uma justiça que o transcende e se dirige para a morte certa como último e eterno destino. Uma vez assegurada a denúncia indesmentível dos responsáveis, resta apenas a Justin o desejo de “voltar a casa”, o reencontro “algures” com Tessa. A mulher que lhe mostrara um sentido para a vida, deu-lhe também um propósito para morrer. O jardineiro entrega-se a uma fidelidade sem tempo à mais preciosa das flores.

9.03.2012

A star is born

Blunderbuss!



Desta vez foi ao contrário do que costuma ser: darmos muita atenção à música para chegar ao concerto a saber(...) o mais possível. Passei o fim-de-semana a descobrir este disco, e apenas este disco de Jack White, sempre que era ocasião de escutar alguma coisa. Gostei logo de início, em particular da faixa que abre o disco, muito bem servida aqui por um vídeo de luxo: e todo de azul como Blunderbuss. Tenho a acrescentar que é uma chatice quando um tipo percebe que lhe começam a faltar peças. Pior só ter consciência de para onde elas foram. Blunderbuss é um álbum de ressaca, e a ressaca por si só nunca fez mal a ninguém: excepto aos que preferem fazer de conta que lhe passam ao largo. Ainda e sempre a falar de(sta) música.

Os que acabam cedo

























Em modo sms: "2 estrelas e meia para o Oslo. É ao mesmo tempo rígido e derivativo, e vai perdendo qualidades pelo caminho."

Da democracia na América (2012)

Para galvanizar todas as idades: quantos votos valerá o Batman republicano?

Os que começam tarde














TRACY - You won't take me seriously just because I'm 17.
ISAAC - Yeah, exactly, because you're 17. I mean, it's ridiculous. You're 17 now. When you're 36, I'll be...
Tracy - 63.
Isaac - 63, right. Thank you. You know, it's absurd, you'll be at the height of your sexual powers. Of course, I will too, probably, but, you know, I'm a late starter.


Não é uma virtude, é uma condição.

Ludwig "White" Beethoven

Os que estiveram prestes a ensurdecer saúdam-te.

(foto: Luís Martins, Diário Digital)

8.31.2012

Momento Beckett da campanha



Diálogo para uma cadeira vazia. Um grande momento. Tenho a certeza de que os Democratas irão responder à altura (se não o fizeram já).

86 caracteres para Gelson Fernandes que esteve 73 minutos em campo






















Não existe jogador que hoje sinta a camisola do Sporting como o trinco suíço, de origem cabo-verdiana.

8.30.2012

360























Andamos na vida aos círculos, que raramente são perfeitos.

O sintetista



(1989)

Escolhe bem os teus ídolos, se tiveres mesmo de ter um.

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