«A current pejorative adjective is narcissistic. Generally, a narcissist is anyone better looking than you are, but lately the adjective is often applied to those "liberals" who prefer to improve the lives of others rather than exploit them. Apparently, a concern for others is self-love at its least attractive, while greed is now a sign of the highest altruism. But then to reverse, periodically, the meanings of words is a very small price to pay for our vast freedom not only to conform but to consume.»
"Point to Point Navigation - A Memoir" (2006)
8.03.2012
As flores na estrada
O que é que acontece em "The Brown Bunny" antes do que a gente toda sabe que acontece? Um exercício de narcisismo e também um exercício da ternura. Instinto e autocomplacência. Mas é um filme que chama por nós: Vincent Gallo a chamar por nós desde 2003. Para o qual não se olha duas vezes da mesma forma, até para a forma do que todos sabemos que acontece.
8.02.2012
Sem imagem
Numa autobiografia sem a basófia que poderíamos antecipar, Keith Richards faz, entre outras coisas, uma avaliação muito justa e até consensual da discografia dentro e fora dos Stones. Nota-se o orgulho que tem pelo seu álbum de estreia, "Talk is Cheap" (1988), que na opinião do próprio remete para a sombra qualquer coisa que Mick Jagger tenha igualmente tentado almejar fora da banda. E Keith tem toda a razão! Jagger é/foi importantíssimo nos Stones e a sua bocarra é talvez o traço fisionómico mais distintivo de entre os vários elementos, mas os Rolling Stones, como qualquer grupo que se preze, distinguiram-se pela alma da sua música, algo que o marketing não consegue fingir que existe quando não está lá. A parte grande da alma dos Stones vinha de Keth, daquele groove esquivo e dos riffs que fizeram história. Por isso é que "Talk is Cheap" pode ser colocado em matéria de importância logo a seguir às obras-primas que os Rolling Stones fizeram alinhar na passagem para a década de 70. A voz de Keith Richards é o que se sabe... e a sua alma mais difícil de traduzir. É a vida.
[Agora imaginem a capa do CD, tirem umas décadas ao cadáver charmoso que ainda tem fome de palco, ponham-lhe um cigarro na mão e no dedo o anel em forma de caveira, porque até à próxima semana continuo sem possibilidade de colocar imagens no blogue.]
[Agora imaginem a capa do CD, tirem umas décadas ao cadáver charmoso que ainda tem fome de palco, ponham-lhe um cigarro na mão e no dedo o anel em forma de caveira, porque até à próxima semana continuo sem possibilidade de colocar imagens no blogue.]
8.01.2012
Outros sonhadores
«Às vezes, às 3 da manhã, via as luzes acesas de alguns apartamentos e pensava: que estarão aquelas pessoas a fazer?... [risos]. Não sei, as canções e as fantasias surgem assim, dessa interrogação: o que estará aquela pessoa a pensar?»
O insone é apenas alguém que prefere sonhar acordado. Que outro tipo de pessoa daria o nome de Blue Nile a um projecto musical? Da entrevista de Vítor Belanciano no Ípsilon com Paul Buchanan, que desperta maior curiosidade para com "Mid Air": voz, piano e silêncio. A escutar tão breve quanto possível.
O insone é apenas alguém que prefere sonhar acordado. Que outro tipo de pessoa daria o nome de Blue Nile a um projecto musical? Da entrevista de Vítor Belanciano no Ípsilon com Paul Buchanan, que desperta maior curiosidade para com "Mid Air": voz, piano e silêncio. A escutar tão breve quanto possível.
7.30.2012
Uma cartinha por dia (21)
Deves mudar de alma, não de clima. Ainda que atravesses a vastidão do mar, ainda que, como diz o nosso Vergílio, as costas, as cidades desapareçam no horizonte, os teus vícios seguir-te-ão onde quer que tu vás.
Séneca
Séneca
Veio a escuridão e engoliu tudo
Passou-se comigo o inverso do que sucede com as figuras de Béla Tarr, cavalo incluído. Enquanto resistiam pensava eu em desistir do filme. Quando desistem veio ao de cima a minha resistência, liberta de condicionalismos de vária ordem que um objecto como "O Cavalo de Turim" obriga a encarar e deixar para trás. Algum cinema, de uma época remota, já foi assim. Refiro-me a aspectos concretos (som e imagem) e filosóficos (tudo o que em desespero usamos para preencher o "vazio" para onde o filme nos atira). Não é possível ignorar a própria desistência do realizador húngaro, que anunciou "O Cavalo de Turim" como o seu derradeiro filme. O animal foi o primeiro a intuir o avanço da escuridão que no final engole tudo, e Béla Tarr remete-se daqui para a frente a um silêncio face ao final dos tempos que a sua obra anuncia. Mais importante que gostar ou não gostar, é vê-la. Depois, especular ou emudecer. Resistir ou como ele desistir.
A inimitável
QUANDO É QUE SE APAIXONOU? QUANDO É QUE TEVE DE LUTAR POR UM HOMEM?
Lutar, não lutei nada. Eu parece que tinha mel. Eles vinham.
PORQUÊ? PORQUE TINHA UM AR FOGOSO?
Não. Eu não era atrevida nem nada. Apaixonei-me muito, e viveu comigo muitos anos, o Fernando. Nem sei se está vivo, mas acho que sim. Também era um malandreco. É a minha sina. Malandrecos com mulheres. Uma vez dei-lhe umas grandes mocadas com tachos - juro por Deus -, fechei-o à chave em casa e fui-me embora. Desapareci três dias. Um amigo meu disse-me: "Coitadinho do Fernando. Se calhar não tem nada para comer." "Deixa-o estar." "Pode estar morto." "Não quero saber." Quando abri a porta até fiquei com medo que ele se amandasse como um leão. Nem tinha cigarros nem nada, estava enlouquecido.
Da entrevista DE ANTOLOGIA feita por Anabela Mota Ribeiro com a fadista Beatriz da Conceição. Saiu ontem na revista do Público.
Lutar, não lutei nada. Eu parece que tinha mel. Eles vinham.
PORQUÊ? PORQUE TINHA UM AR FOGOSO?
Não. Eu não era atrevida nem nada. Apaixonei-me muito, e viveu comigo muitos anos, o Fernando. Nem sei se está vivo, mas acho que sim. Também era um malandreco. É a minha sina. Malandrecos com mulheres. Uma vez dei-lhe umas grandes mocadas com tachos - juro por Deus -, fechei-o à chave em casa e fui-me embora. Desapareci três dias. Um amigo meu disse-me: "Coitadinho do Fernando. Se calhar não tem nada para comer." "Deixa-o estar." "Pode estar morto." "Não quero saber." Quando abri a porta até fiquei com medo que ele se amandasse como um leão. Nem tinha cigarros nem nada, estava enlouquecido.
Da entrevista DE ANTOLOGIA feita por Anabela Mota Ribeiro com a fadista Beatriz da Conceição. Saiu ontem na revista do Público.
7.29.2012
Uma cartinha por dia (20)
Unicamente a virtude nos proporciona uma alegria perene e inabalável. Algum obstáculo que intervenha tem tanta consistência como as nuvens que se movem abaixo do sol sem nunca poderem ocultar por completo a sua luz!
Séneca
Séneca
7.28.2012
Uma cartinha por dia (19)
Repara no comum das pessoas: todas teriam mais proveito na companhia de alguém que não fossem elas próprias! "Refugia-te dentro de ti próprio, em especial quando fores forçado a estar no meio da multidão!" -- mas só se tu fores um homem de bem, tranquilo, moderado. Doutra maneira deves procurar refugio na multidão e fugir de ti mesmo, escapando assim à presença íntima de um homem sem carácter.
Séneca
Séneca
7.27.2012
Uma carta por dia (18)
Raros são os homens que conseguem ordenar reflectidamente a sua vida. Os outros, à maneira de destroços arrastados por um rio, em vez de caminharem deixam-se levar à deriva. Se a corrente é fraca ficam parados na água quase estagnada, se é forte, são arrastados com violência; a uns, deixa-os a corrente em seco ao abrandar junto à margem, a outros, um fluxo impetuoso acaba por lançá-los ao mar. Por isso mesmo é que nós devemos fixar de uma vez por todas o que queremos e manter-nos firmes nesse propósito.
Séneca
Séneca
7.26.2012
Uma cartinha por dia (17)
O meu desejo é que a alegria habite sempre em tua casa; e fá-lo-á, se começar a habitar dentro de ti. Os outros tipos de alegria não satisfazem a alma; desanuviam o rosto, mas são superficiais. A menos que entendas que estar alegre é estar a rir! Não, a alma deve estar desperta, confiante, acima das contingências. Acredita-me, a verdadeira alegria é uma coisa muito séria.
Séneca
Séneca
7.25.2012
Uma cartinha por dia (16)
Ninguém se preocupa em viver bem, mas sim em durar muito, quando afinal viver bem está ao alcance de todos, ao passo que durar muito não está ao de ninguém.
Séneca
Séneca
7.24.2012
Uma cartinha por dia (15)
Há que despertar do sono a nossa alma, há que espicaçá-la, há que mostrar-lhe como é exíguo o que a natureza nos concedeu. Ninguém nasce rico; no momento de vir à luz temos uma fralda e um pouco de leite: e é a partir de tais começos que chegamos a pensar que um reino é estreito para nós!...
Séneca
Séneca
7.23.2012
Deus, pátria e alienação
Estou certo de ter sido na casa do Zé Luís Saldanha, amigo de Cascais que não vejo há muito, que ouvi pela primeira vez Cabeça Dinossauro, dos Titãs, junto com outro marco da música brasileira do mesmo ano, 1986, o álbum Dois, da Legião Urbana. Nunca mais esqueci nenhum dos discos, mas eu não tinha andamento para o punk rock conceptual, vagamente situacionista, da banda de Tony Bellotto e Arnaldo Antunes. Passaram mais duas décadas, Cabeça Dinossauro teve direito a edição comemorativa do quarto de século, e apresenta-se impecável, vivificante e tão actual como na data da sua produção. É um disco que tem de tudo como o Sandinista! dos Clash. Tudo num só disco. Uma revolução aqui dentro.
Uma cartinha por dia (14)
Pior mal não sucede ao homem público e obcecado pelos seus negócios do que tomar como amigos aqueles que o não olham como amigo! Um tal homem pensa que as suas prodigalidades conseguem granjear-lhe simpatias, quando, na realidade, os outros quanto mais lhe devem mais o odeiam: quem pouco deve é devedor, quem deve muito é inimigo!
Séneca
Séneca
7.22.2012
Uma cartinha por dia (13)
Cultiva, portanto, em primeiro lugar a saúde da alma, e só em segundo lugar a do corpo; esta última, aliás, não te dará grande trabalho se o teu objectivo apenas for gozar de boa saúde. A ginástica destinada a desenvolver a musculatura dos braços, do pescoço, do tórax, é uma insensatez totalmente imprópria dum homem de cultura: ainda que sejas bem sucedido na eliminação da adiposidade e no crescimento da musculatura nunca igualarás nem a força nem o peso de um boi gordo!
Com esta é que o Séneca me tramou.
Com esta é que o Séneca me tramou.
7.21.2012
Uma cartinha por dia (12)
Por muito certos que sejam os nossos temores, mais certo ainda é que um dia o que tememos há-de cessar, tal como o que esperamos nos virá a decepcionar. Pondera, portanto, os motivos de esperança e de medo, e sempre que as coisas te apareçam todas como ambíguas, age pelo melhor e acredita no que preferires.
Séneca
Séneca
7.20.2012
To miss, to sigh, to wait, never to die
Peter O'Toole anunciou que se retira da carreira de actor, e que se irá dedicar a escrever o terceiro volume de memórias. Fico à espera do quinto, e ainda de um sexto.
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