10.13.2008

Digipacked




















Tal como o Eduardo afirmou em tempos, também me cabe agora dizer, "no pussyfooting, here come the warm jets".

Monotematismo









Três álbuns que se escutam como se apenas de um se tratasse. A discografia imaculada de Micah P. Hinson tem terceiro capítulo acabado de sair: com a Red Empire Orchestra, que é como quem diz com os The Opera Circuit ou The Gospel of Progress.


E um bom gosto que se estende às capas dos singles.






10.10.2008

Guloseimas





















Quality Street
(Van Morrison)

I've seen, so many lovers cry
Lost love, makes me wonder why
I've found a love, a once in a lifetime love
Angel on high, from heaven so high above
So I thank God for sending me you

I have heard of playing around with numbers
But one is all I need
She can't be beat, she makes me complete
On Quality Street

I have lived alone, until you came along
And you gave me love
And my dream came true
And God gave me you

I see, the end of the rainbow now
True love, has blessed me somehow
Blessing of love, a once in a lifetime love
Angel on high, from heaven so high above
So I thank God for sending me you

I have heard of playing around with numbers
But one is all I need
She can't be beat, she makes me complete
On Quality Street

Quality Street
On Quality Street
Quality, Quality, Quality, Quality Street
Quality Street
On Quality Street


para ela.

Recatalogado


























Nunca percebi por que é que um disco tão significativo quanto Hymns to the Silence - até para a discografia de Van Morrison onde abundam mo(nu)mentos - acabou descatalogado. Perseguia-o há pelo menos três anos. O cerco centrou-se a dada altura no exemplar que descobri no bar onde ponho música. Primeiro insisti para que mo vendessem. Que pagaria com a verba simbólica que o bar simpaticamente atribui por uma noite de trabalho. Notei a resistência da dona da casa (também dona do disco) e fiz um recuo estratégico. Ontem fui lá uma vez mais para "trabalhar", e voltei a falar no CD-duplo a que eles provavelmente já nem dariam uso. Uma pessoa inventa qualquer coisa nestas ocasiões. Fui desarmado com a oferta que muito agradeço. Mesmo com dezenas de riscos superficiais que talvez venham a exigir uma passagem com massa de polimento, o meu Hymns to the Silence é mais que o objecto. Todo este tempo depois, é quase um troféu. Que naquilo que importa toca perfeitamente como na altura em que o ouvi as primeiras vezes.

10.09.2008

Joggers sur la plage




















Ouça-se qualquer disco do homem (o primeiro, Rose Kennedy, ou o último, Trash Yéyé, particularmente), antes de questionar quem terá hoje mais aptidão para escrever um tema para os filmes de James Bond. Talvez fosse menos rentável para o negócio, mas para a série faria grande diferença. Não se fiem em mim. Escutem primeiro.

Relatório de contas











10.08.2008

Génes


























A vida é um caminho de reconciliação. Recordemos a frase que começa por, «Em nome do pai...» Porque finalmente é do nosso e não do de todos que se trata. A vida preenche-se com a tentativa de sermos para alguém aquilo que não fomos, ou não percebemos que fomos, para o nosso pai ou para a nossa mãe. Mas acima de tudo para o pai, com minúscula assumida uma vez mais. É bom que a vida não se esgote na reconciliação. Que haja vida além desta. Temos a eternidade toda para andar de olhos fechados.

Camaleões
















Brando em Apocalypse Now. Kinski em Cobra Verde. Muito mais que uma coincidência.

[a retrospectiva Werner Herzog decorre ao sabor da minha disponibilidade. a começar nos filmes (alguns vistos pela primeira vez), depois nas leituras. o título de 1987 é revelador do propósito central à filmografia do alemão: ir até onde a superfície de civilização estala e a barbárie atravessa. o homem descende do bárbaro e este do réptil. camadas que transportamos connosco hoje ainda]

Quixote in the bush of ghosts

Subestimei a minha paixão por causas perdidas. As eleições americanas têm-me tirado horas de sono.

10.07.2008

Cinemas paraíso
























A ECM apresenta ao longo da sua história trios de piano que em minha opinião conferem ao jazz o que a vertente reflexiva deste tem de melhor: silêncio, de onde a música deve surgir e para o qual qualquer música se deve dirigir. Na sua vertente introspectiva, isto é. De Keith Jarrett a Bobo Stenson, de Marilyn Crispell a Steve Kuhn, de Paul Bley a John Taylor, e agora aos três músicos onde se funda a discografia dos últimos anos do polaco Tomasz Stanko - os também polacos Marcin Wasilewski, Slawomir Kurkiewicz e Michal Miskiewicz -, aqui nada se pede além do já esperado. Há editoras que vincam de tal maneira o perfil dos seus lançamentos, que acabam tornando-se num género elas mesmas. É o caso da casa alemã ECM, que à beira de completar o quadragésimo aniversário (no próximo ano), dá mostras de uma serena vitalidade que se renova a cada edição. E que nalguns casos transcende a sua própria evanescência. Para um dia como o que hoje está, este disco é ainda mais perfeito. Imperturbado. Imperturbável.

Watertown 1970


























Para quem está familiarizado com a discografia de Frank Sinatra, o principal contributo dado pela colecção de vinte CD's do Público que hoje se conclui, terá sido a possibilidade de descobrir esse magnífico álbum que é Watertown: décimo nono volume do conjunto de vinte discos encadernados. Contemporâneo do repertório clássico de Scott Walker (os quatro primeiros álbuns), com o qual revela afinidades que dizem respeito à experimentação com o formato canção dentro de um ciclo tematicamente denso e coeso, também lhe poderíamos aplicar a "escala de Mahler" que mediria os níveis do romantismo e o situaria no grupo dos casos de forte intensidade lírica. Em anos recentes só me lembro de outro disco que possa reclamar descender da estirpe e que é North, de Elvis Costello (2003). Watertown é exemplo que obriga à definição da linha de fronteira que separa aqueles que ouvem música por prazer dos que o fazem pelo prazer de sofrer. A banalidade dos fracassos comuns e da pequena história está na base do trabalho criativo que perdura. Foi sempre mais fácil causar impacte com situações e sentimentos extremos, mas que tal como estes cedo se esgota. Pelo contrário, este disco constituirá parte do resto da vida.

203 mm seguido de 204 mm

«Se na altura de se decidir se se toma ou não alguma coisa a acompanhar o café ao jantar num restaurante, e havendo grandes hesitações, vires o pai de uma família constituída por pai, mãe e dois filhos ou filhas maiores de 17 anos dar um murro na mesa e dizer "quatro bagaços, porra", poderás dizer que se trata de uma família feliz.»

«Alguns dizem que o bagaço é o máximo. Mas faz muito mal. Recomendo 14 bagaços por ano. Um por mês, mais um no dia de anos e outro no dia de Ano Novo para começar bem o ano.»

Eastwood da Silva

10.05.2008

95 mm

«Quando uma pessoa se preocupa com o envelhecimento, que infelizmente começa muito cedo, pode ir ler o que aquele nazi muito velhinho (que já morreu), Ernst Jünger, escreveu sobre a velhice e que consta - nunca li - ser bué bem escrito. Mas pode também recitar dez vezes a seguinte quadra, adaptada de um conhecido fado:

Trote largo e para a frente
Olha as ravages du temps
As pilecas eram raios
Vou pensar nisso amanhã»

[535 Máximas 535, por Eastwood da Silva, &etc]

10.01.2008

Mestiços


Toma coice


























Mas a natureza selvagem também precisa de alimento.

9.30.2008

Sapatos vermelhos


























Dizem que aos quarenta temos idade suficiente para usar sapatos vermelhos sem nos ralarmos com a opinião alheia. Vou a caminho, mas já sinto confiança para abraçar o chavão estando-me nas tintas para o que os outros possam pensar. Como no caso deste disco de David Gilmour, cheio de serenidade musical e lírica pronta a consumir, que foi das coisas que escutei este ano que melhor me tem sabido. Progressões lentas, aparato orquestral e carpintaria instrumental dos seventies, executada pelos melhores dos melhores: Phil Manzanera, David Crosby e Graham Nash, o saudoso Richard Wright (começo a perceber as saudades que dele terei no futuro), Robert Wyatt (hang in there Bob!) e, claro está, David Gilmour, que pelo que vou lendo deve ser um tipo mesmo impecável. Não que eu procure na música as qualidades humanas do artista, embora o caso mude por vezes de figura tratando-se de livros ou filmes. Mas procuro com frequência nuvens sobre as quais me deito, e adormeço, à medida que os fardos escorregam por mim na direcção dos pisos inferiores. Atribuo à música um valor que tem a ver com a sua capacidade de me elevar. Abraço o clichê, e sigo viagem com ele. De preferência, descalço.

Frank Galvin (1925-2008)


















Ontem optei por ficar em casa para me despedir de Paul Newman. Falhei os cinquenta anos da Cinemateca. Falhei também o décimo aniversário do Lux/ Frágil. Falhei os jornais do domingo, por razões que não merecem comentário. Fiquei portanto a saber ontem que Paul Newman tinha morrido sexta-feira passada: morte há muito anunciada. A forma que encontrei de lhe dizer adeus foi rever aquela que considero a sua mais sublime interpretação. Dos rostos iconográficos do período de transição do classicismo para a modernidade do cinema de Hollywood, Newman tem a minha preferência. Acima dele só Clint Eastwood, mas isso levava a longa (aqui inoportuna) elegia e em vida. O filme de 1982 chama-se The Verdict, foi realizado por Sidney Lumet com base num guião de David Mamet. Newman está sublime, e o filme tem momentos em que se transcende a especificidade da linguagem cinematográfica. Como aquele em que o advogado Frank Galvin visita o hospital onde está internada a cliente que representa para ele a (derradeira?) possibilidade de redenção profissional, e que sai de lá com a consciência de que a redenção, a acontecer, será bem mais profunda que isso. Será redenção pessoal, humana, a recuperação da dignidade afundada em dezenas de copos madrugadores: os que se tomam ao adormecer quando não ao despertar. A cena é magnífica e passa-se assim: Galvin entra sem autorização no quarto do hospital (espaço decrépito cheio de corpos invisíveis de tão presentes que são) e desata a tirar polaróides da jovem acamada. Quando as imagens se revelam, assim compreende que tem na frente um ser humano que a negligência médica (de um médico, com a conivência de outros, generalizemos ma non troppo) arrumou para a condição de vegetal. O assomo das imagens fotográficas dá-se em simultâneo com a consciência expressa no olhar deste actor capaz de milagres como os de Dreyer. The Verdict, mais do que o retrato dos caminhos enviesados da justiça, e da possibilidade de esta poder vir a ter lugar em circunstâncias irreversíveis, é tremenda obra sobre a recuperação da dignidade de uma pessoa. Ou de "duas". Mas para o caso, daquela sobre a qual me debruço e me despeço: Frank Galvin.

9.25.2008

Será este o melhor álbum


























A revista Uncut de Outubro traz, em edição exemplarmente cuidada do ponto de vista gráfico, os resultados do questionário que visa aferir qual a melhor canção/ tema dos Pink Floyd de todos os tempos. Já aqui relatei que recentemente investi pelo património floydiano adentro seriamente. Até agora só boas descobertas, reconhecendo que me tenho protegido ao abrigo da palavra escrita melhor sedimentada. Um pormenor deu-me privado regozijo (não mais) e tudo se expõe num par de frases: aqui há semanas havia estruturado um pequeno post que dava conta da afinidade que eu sentira entre uma canção dos Pink Floyd, See-Saw, do álbum A Sourceful of Secrets, e o repertório de Robert Wyatt tomado em termos genéricos. Pois vem a ser o próprio Robert Wyatt a eleger essa música dos Floyd como a sua preferida da discografia da banda, o que me enche de orgulho estúpido, ou não fosse eu doente por estas intersecções demasiado significativas. Mas mais importante que o facto diverso é a constatação de que talvez a grande obra dos Pink Floyd (ou pelo menos a maior de entre as enormes) seja um disco habitualmente considerado de segunda linha. Refiro-me a Meddle, que escutei repetidas vezes na mesma tarde em que ouvi também pela primeira vez Atom Heart Mother, outro álbum especial. O que faz de Meddle um caso particular é o facto de os Floyd apontarem múltiplas direcções sem que o alinhamento sofra maleita de coerência. Vastas planícies instrumentais (Echoes ultrapassa a vintena de minutos) atravessam blues reconhecíveis (Seamus), há uma atenção dada ao som que é prenúncio do super-profissionalismo do "lado escuro da lua" com a vantagem, no meu entender, de os Pink Floyd de Meddle se manterem ainda fortemente ligados à Terra: a canção Fearless termina com Anfield Road a entoar You'll Never Walk Alone. Nenhum outro disco que deles ouvi concentra este equilibrio entre oculto e revelação. O mistério das texturas abstractas e a desmesurada competência instrumental de um conjunto de músicos nas vésperas de se tornar numa super-banda. Meedle descobre a suprema virtude a meio do caminho: porque o estereótipo destapa a derradeira verdade. Se gostam verdadeiramente de música, descubram-no.

Arquivo do blogue