5.30.2006
Sob o signo da ternura
Brown Bunny é um filme vagamente romântico que vagueia numa nostalgia amargurada. O protagonista, Bud Clay, tem pequenos gestos de ternura para com mulheres (todas têm nomes de flores), animais e podemos dizer até com a sua própria moto. E a informação sobre ele resume-se essencialmente a isso. Seguimos pela estrada - coast to coast - construindo a história de Bud com a nossa própria imaginação. Mas se a narrativa é árida como o deserto onde Bud acelera, ela é também íntima. Avança pela acumulação de pequenas catarses vividas em encontros inconsequentes (há pontos de contacto entre Brown Bunny e Broken Flowers, de Jim Jarmusch, que serão tudo menos involuntários).
Sabemos a certa altura que Bud vai ao encontro de alguém (Daisy), mas o filme mais parece constituir-se num movimento de fuga - impressão que as últimas cenas ajudam a sustentar. Este aparente paradoxo justificará também o modo apático, melancólio, lutuoso com que Bud se desloca e que contagia tudo o que ele vê e tudo o que vêmos através do olhar dele.
Se um primeiro confronto deixou-me cheio de resistências face a este Brown Bunny, todas elas agora se desfizeram. Abençoado narcisismo. Abençoada ternura.
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