5.28.2012

Au hasard Béla Tarr

A 14 de Junho, estreará pela distribuidora Midas, pela primeira vez em Portugal, um filme do cineasta húngaro Béla Tarr (n. 1955). Há muito que ouço este nome, tive uma ou outra ocasião, na Cinemateca, para descobrir a sua obra, mas por qualquer razão (a que a longa duração ou muito muito longa duração dos filmes não é alheia), acabei por deixar para mais tarde. Na passará de Junho próximo, por intermédio de O Cavalo de Turim (2011, 146 min.), e vou em busca de algo que o cinema deixou de proporcionar quase por completo: o vislumbre da transcendência que percebemos específica ao próprio meio de expressão. O cinema a transcender a vulgaridade audiovisual que nos cerca mais e mais.

O que se escreve neste artigo é bastante promissor: The Hungarian director Bela Tarr has said that “The Turin Horse,” his ninth feature, will be his last film. Could he change his mind? He is only 56, part of a generational cohort of filmmakers that includes Spike Lee, Olivier Assayas and the Coen brothers, who all retain an aura of youthfulness in middle age.
Mr. Tarr is the opposite. From the beginning there has been something ancient and ageless about his films. Even as he reflects the influence of earlier European modernists like Michelangelo Antonioni and Miklos Jancso, he has also seemed like a time traveler in modern cinema, an émigré from an older, middle-European world of literature and philosophy or, to go a little further, a medieval stone carver who happened to get his hands on a camera.

Se é para partir pedra, partamos então pedra com Mr. Tarr. E se puxar para dormir, paciência.

Um clássico

























Fotografado aos 40 anos por Herb Ritts para a Vanity Fair (2002)

























Fotografado com 50 anos por Mario Sorrenti para a W (2012)

Poesia




















Que bem que estávamos se todos os meses estreasse um filme como o sul-coreano Poesia (2010), realizado por Lee Chang-dong. Drama adulto, cheio de ramificações e implicações morais, filmado com uma serenidade e uma clareza que não se alteram independentemente da natureza de cada cena. O mais objectivo que é possível ser dentro da inescapável subjectividade que qualquer câmera de filmar pressupõe. Totalmente coeso mas não inteiramente conseguido, Poesia encaminha-se para a construção de uma história exemplar que tem algo de via sacra: a sexagenária do filme de Chang-dong, que coloca a sua vida ao serviço de outros (trabalha em limpezas domésticas, na assistência a pessoas acamadas, e tem ao seu cuidado um neto adolescente boçal) e que tem no curso de poesia a possibilidade de criar um espaço de beleza só seu e redentor, pertence à galeria de mulheres como Bess McNeill do Ondas de Paixão de Lars von Trier, que são levadas a extremos de sofrimento e despersonalização em nome da expiação do mal dos outros (onde não falta a cena da gratificação sexual). Elementos alguns escusados num filme que tinha a ganhar com uma riqueza (poética) menos ostensiva, mas isto é queixa que nasce da satisfação, que o filme é mesmo bom.

E os outros, e os outros e os outros

~



Foi um fim-de-semana de superlativos e alguns desses momentos tiveram esta voz no fundo.

5.25.2012

Melão

Já não tenho a vossa idade.

Murnau e os outros

Alexander Dovzhenko, Zemlya (Terra), 1930.


Miguel Gomes, Tabu, 2011.


Precisava das imagens justas mas parece que me faço entender: como se instantes antes da morte o corpo se iluminasse mais intensamente, querendo isso significar paz ou remorso, pois quando a luz se vai os corpos ficam todos iguais no escuro.

Ministórias






















Clarice tinha um cão.

Hmmm

5.24.2012

A lotta spaghetti

Rien vu...

























Os meus sonhos são regra geral bastante realistas e têm uma relação directa com o que acontece na minha vida desperta. Isto quando me recordo do que sonho, ou quando o que recordo não se escapa momentos depois de ter acordado. Ontem sonhei com o filme de Alain Resnais que está em competição em Cannes. Encontrava-me numa sala de cinema com uma actriz portuguesa bem conhecida do meu lado direito, que apresentava junto de si duas crianças que pela idade não podiam ser suas filhas. Mas eram. Daí que conclua que os tempos do sonho se tenham misturado e que havíamos em parte regressado a um passado em que aquelas miúdas podiam ter nascido daquela mãe. A dado momento da projecção eu estava dentro do filme, deambulando por espaços que não consigo reconstituir, mas que se me afiguravam como oníricos, o que tratando-se de um sonho não deixa de ser redundante. Mas porquê o Resnais, que é cineasta por quem não nutro particular estima? E era o Resnais, tenho a certeza, que me cruzei com ele pelos cenários do filme que Cannes viu, e que eu também vi mas não vi. Dormi um número importante de horas seguidas, e pela primeira vez em muitos meses não me levantei a meio da noite. Isso é o que mais importa. Ninguém se queixa da duração do filme quando está a sonhar.

Licença para beijar o céu

5.23.2012

Um símbolo

















Se demos o nome de Vítor Damas a uma das balizas, é de inteira justiça que se baptize a cabine de suplentes onde se senta a equipa do Sporting com o nome de Manolo Vidal. Um clube vive dos seus símbolos, mais que do património. Aliás, um património destituído de símbolos quer dizer nada.

5.22.2012

Lettering e afins

Edmund Trzcinski (cómico ou trágico)




















O prisioneiro Trzcinski, após ter lido a carta enviada pela mulher:
I believe it. My wife says, "Darling, you won't believe it, but I found the most adorable baby on our doorstep and I've decided to keep it for our very own. Now you won't believe it, but it's got exactly my eyes and nose." Why does she keep saying I won't believe it? I believe it! I believe it.

O mais curioso, para não dizer masoquista, é que um dos autores da peça Stalag 17, adaptada depois por Billy Wilder, tenha sido escolhido para interpretar a personagem mais trágica, que usa o seu próprio apelido. Como se cada homem fosse a medida insubstituível da sua felicidade.

Dangerous methods



Estreia a 25 de Outubro e acredito que pode ser bom.

Are you experienced




















Stalag 17, filme de prisão em situação de guerra, sem pingo de sentimentalismo. É, se quisermos, o anti-Frank Darabont. O colorido das personagens também lembra John Ford: trocando irlandeses por alemães. Mas é Billy Wilder quem realiza. Daí que a comédia humana surja revestida de farsa.
The Jimi Hendrix Experience, citados no perfil de Mário Lopes sobre os stoners minhotos Black Bombaim, no último Ípsilon. Nunca os ouvi, mas quanto à música que escutam não podíamos estar mais em sintonia. E o Jimi Hendrix continua uma máquina, mesmo depois de morto.

5.21.2012

Sean Penn quer pôr a tua mulher a ren......













Do proxenetismo disfarçado da defesa de nobres causas. Ou mais um recorde batido pelo politicamente correcto na boca de idiotas. Santa paciência.

Extensões da pauta





De Spike Lee em direcção a Donny Hathaway, com passagem por Aaron Copland. Ver e ouvir de cima para baixo.

Gentileza


















Uma coisa é um filme que por delicadeza quase peça licença para existir. Um filme tímido. Jacques Rivette (1 Março 1928) tem obra para não se intimidar com as coisas do cinema. Outra coisa bem diferente, é um filme ter a gentileza de quase não existir. Existindo num plano paralelo que é ao fim e ao cabo o mundo em que vivemos retirando-se-lhe o ruído e os maus sentimentos. Uma espécie de fora neste mundo. E pode ser tão estranho lavar a alma que a temos tão cheia do que não interessa. 84 minutos para 36 Vistas do Monte Saint-Loup.

5.18.2012

Comédia



Melodrama



Palma















Continuar a ser premiado por ti e por muitos anos.

5.16.2012

Palíndromos

















Ouvimos o que são palíndromos da boca da filha pequena de Pietro (Nanni Moretti), a quem tinham ensinado na escola sobre palavras ou frases que se lêem da mesma forma da esquerda para a direita e no sentido inverso. Existe um efeito palindrómico que se estende a todo o filme, Caos Calmo (2008), de Antonello Grimaldi, que tem nas pontas dois salvamentos onde os agentes se revezam: se Pietro evita o afogamento de Eleonora no começo do filme (ao mesmo tempo que a sua mulher tomba morta na casa de férias próxima da praia), é Eleonora que traz Pietro de regresso à vida quando com ele tem sexo numa noite sem outras consequências que o resgate do homem ao luto. O modo como os corpos actuam um sobre o outro reforça este efeito palindrómico. O cinema faz-se e distingue-se nestas coisas: ao sacrificarmos uma maior plausibilidade a um bom palíndromo.    

'Andrea Doria' no volume máximo





Letra e música (o áudio ao vivo está melhor).

5.15.2012

London pride

O meu coração





















Fotografado por I. D.

Até parece simples

























Assim que Downton Abbey se deu a conhecer ao mundo, logo começaram as comparações com Brideshead Revisited. Existe nas duas séries uma propriedade centenária para onde converge todo o simbolismo da época: na primeira temporada de Downton o período compreendido entre o desastre do Titanic e o início da Primeira Grande Guerra. O foco social debruça-se mais sobre a aristocracia em Downton Abbey , e exclusivamente sobre esta em Brideshead. Finalmente somos acolhidos por bandas-sonoras igualmente magnéticas, com qualquer coisa de elegíaco, em ambos os exemplos.
As equivalências terminam aqui uma vez que a matriz de Brideshead é ainda literária, ao passo que a "pluma" ágil de Julian Fellowes, que tudo comanda em Downton Abbey, apela às sensibilidades sofisticadas que apreciem um processo narrativo telenovelesco. Reconheça-se o efeito viciante de Downton Abbey. O maniqueísmo da distribuição de trunfos entre personagens que se afiguram à partida como sendo boas ou más. E o factor mais irresistível da série, e também o mais utópico, que tem por base as figuras moralmente mais fortes. Em Downton Abbey faz-se quase sempre justiça, penalizando os conspiradores e absolvendo as vítimas de intrigas.
Há uma rocha chamada Mr. Bates (Brendan Coyle), criado particular do duque de Grantham (Hugh Bonneville) que gere o património de Downton Abbey, que enfrenta com estoicismo as suspeitas e ciladas dirigidas ao seu carácter. Em minha opinião ele impera sobre Downton Abbey e relega para segundo plano as facilidades dramatúrgicas que são produto de uma destreza narrativa demasiado deste nosso século.

5.14.2012

Uma escolha moral

À primeira vista.

Dark shadows

5.11.2012

Não é o Op Art, é São Francisco!


















Não é à toa que Judd Apatow cita Hal Ashby  cineasta em voga nos anos 70, que de alguma forma se eclipsou na década seguinte  como uma das suas principais influências. E as comédias produzidas por Apatow não diferem muito dos filmes por si dirigidos. Adultos que se portam como adolescescentes (sobretudo quando se trata do amor) e que se expõem com frequência ao ridículo. Situações que ampliam os equívocos das relações humanas. Filmes como The Five-Year Engagement (recuso-me a citar a tradução idiota para português), da mesma dupla, Nicholas Stoller e Jason Segel, que esteve na origem dos razoavelmente divertidos Forgetting Sarah Marshall e Get Him to the Greek (traduções escusadas também nestes dois casos), vêem-se com um tímido sorriso e um nó no estômago. E estão a ficar mais densos em termos dramáticos e a mostrar aquela capacidade rara que o cinema foi buscar à literatura, de dar a sentir o modo como o tempo passa e modifica os sentimentos amorosos. Isto existia nos filmes de Ashby, que devia ter algures a sua biblioteca.

Ninguém fala mais como Barnabas Collins!






































Um Tim Burton a meio-gás e o gás foi todo para a homenagem que Dark Shadows presta aos filmes da Hammer. Johnny Depp simplesmente extraordinário (indeed, INDEED).

5.10.2012

Indeed

Stevie Nicks alta definição

5.09.2012

Livros do desassossego

























«Eram detalhes da Dublin real, ou simplesmente pareciam verdadeiros por causa da inigualável intensidade do sonho? Quando despertou, continuava sem saber nada de Dublin, mas tinha a estranha certeza absoluta de ter andado a passear pelas ruas dessa cidade durante longo tempo, e era-lhe impossível esquecer o único momento difícil do sonho, aquele em que a realidade se tornava singular e comovente: o instante em que a sua mulher descobria que ele tinha voltado a beber, ali, num bar de Dublin. Tratava-se de um momento duro, intenso como nenhum outro dentro daquele sonho. À saída do pub Coxwold, surpreendido por Celia na sua indesejada nova incursão alcoólica, abraçava-se a ela comovido e acabavam os dois a chorar, sentados no chão de um passeio de uma ruela de Dublin. Lágrimas para a situação mais desconsolada que até àquele dia tinha vivido num sonho.»


Para os que, como eu, nunca foram a Dublin.

Filmar tudo não basta




















A intenção de tudo filmar, Gonçalo Tocha (imagem) e Dídio Pestana (som) encarregam-se de tornar bem expressa por sobre os momentos iniciais de É na Terra Não é na Lua, trabalho de quatro anos (2007-2011) a quatro mãos que faz antecipar um ponto de vista partilhado, que a montagem final trai ao ceder a uma lógica de acumulação, que substitui ao encontro dos elementos da "equipa" com o que constitui a experiência de habitar e conhecer a ilha do Corvo (Açores), uma catalogação de factos e personagens. De notar também que a experiência de assistir a este documentário deixa de ser sobretudo da ordem do sensorial para se passar à inventariação de histórias e usos apresentados de forma não hierarquizada. Há mesmo situações que apenas servem de pontos de passagem para outros pontos de passagem, sem que se perceba do que é mostrado o que mais tocou as sensibilidades de Tocha e Pestana. O resultado global não deixa de ser positivo e Gonçalo Tocha "revela-se" um excelente operador de câmera. O Corvo um lugar suficientemente exíguo e exótico para manter desperto o interesse de quem vê o documentário, apesar da excessiva duração onde de novo não descortinamos forte propósito. Um bom trabalho. Pena que se tenha perdido o ponto de vista, tão mais necessário quanto filmar tudo não deve ser entendido com fazer equivaler tudo com tudo.

Sublinhados das primeiras 100 páginas

























«Fala-se de mais sobre amor, sobre como ele deveria ser e não se fala o necessário sobre o que ele efectivamente é.
Existe um abismo entre as nossas práticas e os nossos discursos, entre a obrigação da euforia oficial e a constatação do grande sofrimento vivido. O estereótipo dominante faz-me pensar que o amor saiu vitorioso, mas o aumento do aparecimento no mercado de livros, de receitas sobre a felicidade conjugal, leva-me a supor que a realidade não é menos difícil de viver do que antigamente.» (p. 33)

«O sonho ingénuo do amante: fazer com que os outros que o precederam sejam esquecidos, relegar para o estatuto de rascunhos dos quais ele seria a versão final.»
(p. 35)

«Cortejar, é antes de mais dar ares, votar-se ao embelezamento de si próprio.» (p. 45)

«Assolar com a dúvida toda a forma de aprovação é uma forma de ter o ser humano sempre cativo, submetido.» (p. 47)

«Amar-te-ei sempre: a expressão compromete aquele que a pronuncia no preciso momento em que este a diz. Este "sempre" é um outro tempo no tempo quotidiano: eu ajo como se fosse amar-te para sempre, apesar de não estar no meu poder controlar a transformação dos meus sentimentos. O homem da minha vida, a mulher da minha vida: mas é uma vida entre múltiplos fados por que passamos ao longo de uma existência. O juramento tem a ver com a confiança e com a aposta: saltando por cima da dúvida e do medo, ele postula que o mundo é um lugar onde é possível crescermos juntos e sentirmo-nos seguros de nós próprios. Mas ao conjurar o acaso, ele também coloca os amantes perante a mesma insegurança. transforma-os em assassinos potenciais um do outro. Ao confessar a minha ansiedade interior, fico à mercê de um déspota tão fantasioso quanto encantador que pode empurrar-me, de um dia para o outro, para o abismo de onde me tinha tirado. Entrei num mundo de alto risco, onde a catástrofe pode assolar-me a qualquer momento. O outro deixa de me telefonar? Sinto-me perdido. Estou tranquilo? Eis que ele me larga sem outras justificações. O escritor italiano Erri De Luca conta que, quando era estudante na Universidade, adoeceu. Ao tremer de febre, recebeu a visita da sua namorada que começou por o aquecer e por fazer amor com ele de uma maneira tão magnífica que ele sentiu que estava no céu. Após o que, muito calmamente. lhe comunicou que se iriam separar. Aquele momento não era uma apoteose, era um adeus.» (p. 59 e 60)

«O que há de mais emocionante do que o reflexo do prazer no rosto do amado quando ele arde de tanto prazer?» (p. 65)

«O que fere não é a indiferença dos estranhos, é a frieza dos que nos são próximos ou melhor o seu calor inconstante. Acreditamos que estamos a apertá-los de encontro ao nosso coração, e abraçamos uma ausência. Desconfiamos com razão dos juramentos feitos por meio de um abraço, como se fazer amor nos impedisse de falar de amor: quando a carne está em êxtase a língua divaga naturalmente e faz promessas com ligeireza. Mas o contrário também acontece: é no tumulto dos sentidos que o tímido consegue fazer fluir a sua eloquência sem recear cair no ridículo.» (p. 66)

«Amo-te: deves-me o teu afecto, se possível a centuplicar. O amor acede à linguagem sob a forma comercial: abre-se uma conta, onde os papéis de credor e devedor estão permanentemente a serem trocados. Logo que um deles, ao fazer o balanço, ache que foi vigarizado, o equilíbrio quebra-se.» (p. 67)

«A sexualidade duradoura é uma das utopias mais patéticas do mundo moderno; e a erosão do desejo é o seu aspecto trágico mesmo quando o encaramos como uma chama sagrada. Que duas pessoas que não podiam estar sozinhas mais de cinco minutos numa sala sem se atirarem uma para cima da outra acabem por coabitar mais tarde na calma dos sentidos durante anos, com excepção de breves entreactos, tem algo de pungente. A tentativa de se manter nas altas esferas do excesso sensual continuará a ser uma das páginas mais comoventes do amor ocidental. A castidade, por esgotamento dos apetites, é mais eficaz do que a repressão. Ela prova aqui uma vez mais a nossa impotência para dominarmos a "biologia das paixões" (Jean-Didier Vincent).» (p. 87)

«O crescimento vertiginoso da percentagem de divórcios na Europa não resulta como se diz do nosso egoísmo mas do nosso idealismo: a impossibilidade de viver juntos associada à dificuldade de ficar só. Os casais modernos separam-se não devido à decepção, mas porque se têm em grande conta.» (p. 87 e 88)

«A vida de casal é uma causa tão válida como a libertinagem, é a forma contingente que os nossos afectos assumem em dado momento da nossa existência. A verdadeira novidade da época é o facto de já não termos de escolher entre imposições insustentáveis e podermos acumular ao longo de uma vida casamento, celibato e aventuras.» (p. 94)

«Não somos heróis nem santos, mas simples seres humanos com uma capacidade limitada de dedicação.» (p. 94)

«A genitália é ainda vista como metáfora do corpo feminino, toma-se a parte pelo todo. O homem tem um sexo, a mulher é o seu sexo. Dá-lo é, para ela, perder-se. Um século depois de Freud, muitos não cedem neste preconceito arcaico. Tudo se resume a isso.» (p. 101)

5.08.2012

Sinto-me... remasterizado

A última encomenda

No Verão do ano passado a publicação brasileira Dicta & Contradicta pediu-me um texto para a edição deles em papel, sobre um filme importante que estreasse no Brasil no último trimestre de 2011. Arranjei um assunto importante, um filme com interesse, e o texto ficou assim:




















O último dos clássicos são afinal dois

É comum ouvir falar de cada vez que estreia um filme de Clint Eastwood (n. 1930) que estamos na presença do último dos clássicos, querendo isto dizer que a sua obra se liga a uma tradição cultural e cinematográfica de que é único representante activo. Tal afirmação é acima de tudo injusta para alguém como Robert Redford (n. 1936), cuja obra na realização não tem seguramente o relevo da de Eastwood (muito menos a extensão desta), mas cujas diferenças de imediato se atenuam quando comparadas as filmografias de ambos, elemento decisivo para os inscrever em tradições contíguas com elementos comuns.
Vem isto a propósito do novo filme de Robert Redford, The Conspirator/ Conspiração Americana, que se inicia com o homicídio de Abraham Lincoln (1809-1965), figura maior de um dos momentos mais conturbados da história da América, e seu primeiro presidente assassinado. A narrativa de The Conspirator prolonga-se pelo julgamento e condenação à morte de Mary Surratt (que tem em Robin Wright uma presença feita de beleza e dignidade que quase “cegam”), sublinhando uma vez mais que esta é uma história de primeiras vezes, ou seja, da perda da inocência da América idealizada nas belas páginas da sua Constituição (1787) cuja História do país por vezes violou. The Conspirator é uma obra que se inscreve em duas tradições, já não contíguas embora decorrentes uma da outra: o cinema a filmar a História; sobretudo o cinema a revisitar uma das suas personagens mais populares (ainda que de raspão: Lincoln passa aqui rapidamente de silhueta a cadáver) e um tempo definidor. Quando John Ford, em 1939, filmou o jovem Lincoln interpretado por Henry Fonda, era possível deixar o filme impregnar-se dos ideais e de uma certa candura próprias do então advogado e futuro presidente. E quando décadas antes, em 1915, D.W. Griffith abordou o assassinato de Lincoln (a quem dedicaria todo um outro filme) em The Birth of a Nation/ O Nascimento de uma Nação, num fluxo de eventos rematado com um “last minute rescue”, ninguém reclamaria do recurso a tal dispositivo e ao simbolismo que representava na glorificação da grande história. Há um século de diferença entre os filmes de Griffith e de Redford, e só faz sentido regressar a Lincoln para extrair da pequena história, dos seus agentes e factos, a sensação do muito que se repete e da dúvida para sempre instalada.
O que começou por interessar Robert Redford foi o facto de poucos saberem quem tinha sido Mary Surratt (a primeira mulher mandada executar pelo governo dos Estados Unidos), e também nunca ter sido apurada em definitivo a sua culpabilidade. A versão de Redford, apoiada no argumento de James Solomon, aponta para aquilo que o secretário de guerra de Lincoln (um quase irreconhecível e sinistro Kevin Kline) refere por “inter arma silent leges”. A sequência dos acontecimentos filmados implica um recolhimento da justiça por se tratar de tempos de guerra (Guerra da Secessão, 1861-1865, que se encaminhava para o fim). O modo como os episódios narrados pode reflectir acontecimentos do tempo actual diz da dimensão do fosso escavado pelos actos dos homens na concepção idealizada que fazem da própria espécie e que a Constituição dos Estados Unidos encerra. É muito elucidativo que Robert Redford termine o seu filme dando conta que o protagonista, o advogado que defenderá Mary Surratt (Frederick Aiken, vivido pelo actor James McAvoy), um herói da guerra pelo exército do Norte regressado à profissão que tinha, abandonará a justiça para dirigir o Washington Post. É a forma do realizador nos (voltar a) mostrar que o heroísmo passaria dos campos de batalha para os jornais, no que no caso de Redford, que se notabilizou ao interpretar Bob Woodward, um dos profissionais do Post que expuseram o escândalo Watergate, no filme de Alan J. Pakula, All the President’s Men/ Todos os Homens do Presidente (1976), é tanto mais significativo.
O raciocínio traz-nos de volta à questão de se ser ou não um clássico, ao que implica sê-lo, o reconhecimento de se sentir integrado numa tradição (Sydney Pollack e Pakula estarão para Redford assim como Don Siegel e Sergio Leone para Clint Eastwood), a questão de dar disso prova nos filmes realizados, e a certa altura indiciar uma passagem do testemunho que fica a cargo dos actores escolhidos das gerações seguintes, alguns de entre eles que poderão assumir outras responsabilidades (produção, realização) que de igual modo perpetuem o legado. Essa tarefa Robert Redford vem desempenhando não só nos filmes que dirige, mas até com acrescida influência no Sundance Institute a que preside e fundou, onde são desenvolvidos projectos de cinema, por intermédio do qual se realiza todos os anos um festival de filmes “independentes” (são diversos os graus de independência), e ao qual pertence um canal de televisão por cabo. Isto é ser-se clássico nunca deixando de ser contemporâneo.

5.07.2012

Cantada














Fotografias de Vincent Rossell.

Com os hollandeses
















Também eu desejei a vitória ontem de François Hollande. Entre a hipótese muito remota de uma qualquer mudança para a França e por extensão para a Europa, e a manutenção do estado actual das coisas, prefiro a primeira. Pode ser que Hollande se revele um empecilho na engrenagem. Basta que primeiro pense nas pessoas e só depois obedeça aos números.

'Take Shelter', de Jeff Nichols (IndieLx 2012)















A primeira longa de Jeff Nichols chama-se Histórias de Caçadeiras (2007), teve estreia comercial no nosso país, e não guardo dela grata recordação. Cinema dito independente cheio de tiques do dito, todo em desaceleração (menos aborrecido que um mumblecore, no entanto), aridez narrativa e silêncios prolongados. Muita pose e pouca uva. Este Take Shelter arranca de forma bem mais promissora, só que quando dá o tiro este revela-se de pólvora seca. Edificado um objecto de suspense psicológico cruzado com filme de catástrofe iminente, para abusar no primeiro frustra-se as expectativas do segundo. E depois ter Michael Shannon a fazer uma caricatura do tipo de personagens em que com toda a justiça se notabilizou (entre as figuras do santo e do louco; ver exemplos em Bug, de William Friedkin ou Revolutionary Road, de Sam Mendes), também não contribui para o êxito do projecto. Nota-se uma evolução em Jeff Nichols, na forma como domina hoje em vez de exibir a linguagem cinematográfica, como sabe estabelecer uma atmosfera de inquietude nos espaços mental e exterior da principal personagem, conseguindo mudar para um registo "anónimo" nas sequências familiares ou profissionais que a ela se referem. Parece por vezes cinema americano da década de 70, executado por profissionais de menor nomeada como Bob Rafelson, quando a uma maior estilização se preferia a abordagem directa e discreta. Infelizmente outros sinais se vão acumulando para a criação de uma tensão crescente no espectador que dá em nada. E quando nada acontece (para finalmente parecer que vai acontecer), quando o final assume um tom profético, a coerência psicológica do protagonista, algo abalada, retira-lhe parte do impacto numa solução já de si forçada. Assim o cinema tivesse cheiro e Take Shelter deixaria no ar o cheiro a pólvora seca.

'Wuthering Heights', de Andrea Arnold (IndieLx 2012)

















Não é preciso que decorram muitos minutos de filme para encontrarmos o principal mérito desta adaptação de O Monte dos Vendavais (Emily Brontë, 1847), que corresponde igualmente à sua mais concreta e relativa limitação. Percebe-se que é um filme realizado por uma mulher, pelo cuidado com os detalhes que pode cair nalgum decorativismo e pelo jogo de escondidas (será pudor?) que estabelece com os sentimentos extremos do amor e ódio. A terceira longa-metragem de Andrea Arnold é o seu filme mais equilibrado, de grande coerência plástica e sonora (pena a musiqueta do genérico final...), como se se tratasse de uma realização da neozelandesa Jane Campion (O Piano pode-nos tomar de assalto a memória) mas de pendor mais naturalista. O drama faz-se anunciar na paisagem bela e agreste da Inglaterra rural, que Arnold torna mais poética com a atenção dada aos fenómenos da natureza, com os seus ciclos de luz, as fortes tempestades e todo o tipo de bicharada que por ali se vê. A história de amor entre Heathcliff e Catherine não é alheia ao universo rude em que ambos vivem e por onde se aventuram ainda num período de inocência da atracção que nutrem um pelo outro. Quando Heathcliff regressa anos mais tarde, o filme torna-se psicologicamente mais negro com as consequências conhecidas por todos aqueles que leram este livro. E a partir de agora pelos outros todos que se debrucem sobre ele em função do entusiasmo suscitado por esta adaptação: a primeira levada a cabo por uma mulher no que condiz com o género do autor do romance há muito celebrado. 

5.04.2012

Sérgio Aires



Da série Sentar & Sentir # 66.

A Lisboa que desaparece



Tenho uma ligação romantizada com uma Lisboa que não conheci. A Lisboa dos anos 60, de gente culta e boémia, dos cafés até às tantas, dos copos mais que muitos, e das conversas sem fim. Ouvi e li algumas histórias desta Lisboa da boca de gente como Fernando Lopes, um exímio contador de histórias. Tive por isso uma secreta alegria quando vi entrar no Palácio Galveias Armando Baptista-Bastos, de braço dado com a mulher, muito aprumados tal como a imagem que deles guardava, e como sempre os vi chegar. Há uma Lisboa que desaparece quando a memória de gente como Fernando Lopes deixa de existir. Sobra Baptista-Bastos (autor desse grande livro de centena e meia de páginas que é O Secreto Adeus) e poucos mais. Faltam-nos histórias e vão faltar cada vez mais. Isto está a ficar um pouco lamechas e calo-me já.

Petição pública pelo cinema português















e assina.

Reencontro com Pascal Bruckner

























Deve ter sido por alturas do curso de cinema que fiz a primeira leitura de Pascal Bruckner (ou Pascal Bruckneeerrr, como acentuava o professor de sistemas de produção que estudara na Bélgica), então já numa edição Europa-América algo descuidada. O livro chamava-se A Tentação da Inocência e continua a fazer parte da minha biblioteca mais estimada. Regressei há poucos dias a Pascal Bruckner por sugestão de um amigo que é das pessoas que melhor me conhece. Hoje leio O Paradoxo do Amor como igual avidez à que usei nos tempos da escola de cinema. Continua a notar-se o descuido da revisão que me parece ser marca do editor. Algumas coisas não mudam. Certamente não a pertinência das reflexões de Pascal Bruckner, seja lá em que matéria for, e eu também não mudei significativamente. As passagens que passo a transcrever são de um outro texto ainda, The Love of Lust, que saiu em 2009 na publicação indiana Open Magazine, um absoluto contemporâneo de O Paradoxo do Amor de que deixarei depois breve fragância.

«Thirty years of leafing through a certain category of magazines is like discovering an outlandish catechism of debauchery—one that is no less prescriptive than the catechism of yesteryears: try sodomy, threesomes, bisexuality, whips, are you a good lay, do you make love on Mondays? While death remains obscene and still in a shroud, dirty little secrets are out in the open, in the public arena, and all and sundry are jostling to tell their stories on the TV, radio and the net.»

«Today, no one wants to be a sexual ‘have-not’— everyone flaunts an honourable service record, even in the dullest of marriages. Like one’s profession, salary or physical appearance, sex too has become an external sign of wealth that individuals add to their social paraphernalia. A new human species has emerged—that of hedonist ascetics who expend a great deal of energy to stir their senses and achieve a state of bliss. They work hard at their pleasure and are really tormented souls—enduring insecurity is the other side of the coin in their unceasing quest for pleasure.»

«However, there is a world of difference between what this society says about itself and the life it lives in reality.»

«Our parents used to lie about their morality, but we lie about our immorality. In both cases, there is a disparity between what we say and what we do. Unlike in Freud’s time, the cultural malaise no longer stems from instincts being crushed by the moral order—it is born from their very liberation. At a time when the ideal of self-fulfilment reigns triumphant everywhere, everyone compares themselves to the norm and struggles to live up to it. That means an end to guilt and the birth of anxiety. However, sexuality is generally still considered something that should remain undisclosed. But people either boast too much to be credible, or hide it for fear of appearing gauche at a time when one’s private life has become a sport of ostentation.»

«Our love lives and impulses imply delays, intermissions and outbursts, but nothing of that eternal glaze that is the world of today’s global supermarket.»

«Sex had made it possible to reconcile ecstasy and dissent. Today, it is the mercantile society’s most reliable product.»


O próximo é retirado de O Paradoxo do Amor, da página 40:

«Como é possível ser bovarista, perguntava George Steiner, num mundo em que todos os desejos podem ser realizados? A questão é que eles não o são, nem nunca o serão. A nossa sociedade, ao proclamar a toda a hora e em todo o lado a força solar do prazer, está a penalizar ainda mais os que são excluídos do prazer, os que lhe viram negado o direito ao prazer. A insatisfação é cada vez mais forte quanto mais o hedonismo for imposto como uma lei. Organiza-se o mercado da frustração, com o propósito de nos vender o charme e a audácia sob a forma de conselhos, de cuidados, de artifícios. A nossa época "libertada" faz com que o destino dos solitários seja mais amargo, bem como o dos seres insignificantes remetidos para o seu anonimato, quando é suposto que todos usufruam do prazer. Alison Lurie narra algures que os camafeus copulam muito mais do que se pensa, mas eles têm de suportar, para além disso, as confidências que os seus amantes fazem sobre os desgostos de que sofrem por causa das mulheres bonitas. Terrível ironia da emancipação: homens e mulheres, vítimas e cúmplices, ao mesmo tempo, perseguem-se, uns aos outros, em nome da juventude, da forma, da venustidade. Tudo o que outrora foi instrumento de libertação passou a ser igualmente instrumento de escravidão»

Chosen lads



Como se fossem precisos mais exemplos para mim de que os irlandeses é que são o povo escolhido.

5.02.2012

Bilhete de identidade

No outro lado do espelho (Fernando Lopes 1935-2012)






















Foto: Daniel Rocha

Bebo de mais, fumo de mais, comovo-me de mais. É o mais célebre 'soundbyte' de Fernando Lopes. Continua a usá-lo? "Sim, mas com uma diferença, faz hoje exactamente dois meses tive uma encefalopatia hepática que me levou ao outro lado do espelho". (entrevista ao JN, 14-09-2006)

É isto.

Guardar já para comer depois





'Toata Lumea din Familia Noastra', de Radu Jude (IndieLx 2012)



















A produtora de Toata Lumea.../ Everybody in Our Family, Ada Solomon, ao apresentar a sessão, destacou a coincidência do realizador Radu Jude (Bucareste, 1977) e do seu protagonista terem ambos uma filha pequena e um processo de divórcio recente nas suas "vidas". O espectador avisado prepara-se então para o ajuste de contas, que em certa medida é o que o filme de Jude oferece: um acerto de contas de onde saem todos a perder. Uma "carnificina" (para citar o filme de Polanski feito com base na peça teatral de Yasmina Reza) que tem na disputa por uma criança o centro do drama. Filmado em planos aproximados e nunca fixos, na maior parte do tempo dentro da mesma casa, Everybody in Our Family deixa-nos entre o consternado e o riso nervoso que o tom por vezes satírico leva a esboçar. Uma situação normal – o pai tem a expectativa de levar a miúda a passar uns dias com ele junto do mar – será impedida pela ex-mulher que o quer ver fora da vida dela e da da filha em definitivo, o que vai gerar no homem o desespero e um comportamento violento. Ninguém morre: isto é ainda um cinema que pugna pela plausibilidade do real, mas o que entretanto fica estragado não tem mais conserto. O filme de Radu Jude integra a Competição Internacional do IndieLisboa 2012, e apesar de não ter visto qualquer outro dos concorrentes, não me admirava que viesse a ser este o escolhido.

Começar de novo
















"I'm 57 years old and I've lost my way." Ele vai andar por aí, e nós vamos estar de olho nele.

Enviei esta mensagem após me ter despedido da terceira época de In Treatment, que pode bem ser a última. A derradeira semana é também marcada por várias despedidas: Sunil despede-se de Paul, Jesse faz o mesmo, e Paul por sua vez despede-se da sua analista, Adele. O devaneio amoroso deixado em suspenso. A hipótese da gravidez solitária de Adele deixada em aberto. Aqui não existe "closure", nunca existiu. A experiência ficcional coloca-se demasiado próximo da vida. Talvez que todas as personagens, e não apenas Paul, continuem a andar por aí, pelo meio daqueles que a elas se ligaram.

As aranhas



Muitos anos depois, Mick Jagger hesita, mas lá acaba por cantar "she looked about fifty" – na versão original é "thirty" -, talvez para não melindrar sabe-se lá quem... ou o quê (a sua própria consciência?).

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