5.31.2012

82

Apodado de bom

























Li as primeiras 25 páginas de "penalte". Faltou a luz no trabalho e quedei-me meia-hora à janela. O prazer é da ordem do que experimentamos com a escrita de Mário de Carvalho. Isto é um tremendo de um elogio, sabe-o os que o sabem. Menor o sacrifício de o emprestar antes de tê-lo de novo para mim. O Manolo deste livro faria o mesmo. 25 páginas bastam para dar mais essa certeza.

5.30.2012

Campeões no mau exemplo
















No SOL.

O desportivo espanhol As divulgou um estudo que pretende identificar quais as selecções que vão gastar mais com a estadia para o Campeonato da Europa de 2012. (...) Assim, a selecção nacional vai gastar cerca de 33 mil euros por dia e ocupa o primeiro lugar da tabela. Já a selecção espanhola vai ser a que menos vai gastar em hotéis, 4.700 por dia. A Rússia é a segunda selecção a gastar mais com 30.400 euros diários.

Selecção e custo de hotel:
1. Portugal - Opalenica 33.174 euros
2. Rússia - Varsovia 30.400 euros
3. Polónia - Varsovia 24.000 euros
4. Irlanda - Sopot 23.000 euros
5. Alemanha - Gdansk 22.500 euros
6. Rep. Checa - Wroclaw 22.200 euros
7. Inglaterra - Cracóvia 19.000 euros
8. Holanda - Cracovia 16.200 euros
9. Italia - Wieliczka 10.500 euros
10. Croácia - Warka 8.300 euros
11. Dinamarca - Kolobrzeg 7.700 euros
12. Espanha - Gniewino 4.700 euros

Isto é bom

Um anti-melodrama


















Há como que uma cortina de fumo, mesmo quando ninguém está a fumar, a luz sempre difusa, se é que alguém está a recordar, percorrendo o filme que Terence Davies fez com base na peça de teatro The Deep Blue Sea, de um outro Terence, Rattigan (1911-1977). O fumo assinala um incêndio há tempo extinto: a paixão de Hester (Rachel Weisz) e Freddie (Tom Hiddleston) de que quase só testemunhamos consequências, ressentimento e dor. Nos primeiros minutos do filme, enquanto se escuta o movimento lento do concerto para violino de Samuel Barber, estamos como que imersos num sonho, e a coreografia que a câmera estabelece ajuda a criar o sentimento de suspensão da coisa idílica que é o amor erótico. Somos depois confrontados com a tentativa de suicídio de Hester, uma mulher que abandonara o casamento de conveniência com um respeitado juíz, notoriamente mais velho que ela, o decente Sir William (Simon Russell Beale), para seguir com o seu entusiasmo por um canalha superficial acabado de regressar vitorioso da Segunda Grande Guerra (onde pilotara aviões). O resto de The Deep Blue Sea (2011) será gélido como uma câmara frigorífica do (des)amor. As expectativas de melodrama mortas e enterradas pelo texto de Rattigan e pela planificação austera, muito campo-contracampo, de Davies.
Pode dar-se o caso de recordarmos a condessa Livia Serpieri no filme Senso (Sentimento, 1954), de Luchino Visconti. A mulher era ali também o agente amoroso e o homem manipulador caprichoso. Tem sentido, em universos marcados pela orientação sexual gay dos criadores (Visconti, Rattigan e Davies), que seja o elemento masculino o móbil da tragédia, sendo que no caso de The Deep Blue Sea a tragédia é o desencontro de um sentimento profundo que, contrariando as aparências da origem, não é correspondido. A peça de Terence Rattigan é quase um tratado filosófico que visa alertar para as armadilhas do amor, fútil devaneio que leva invariavelmente ao sofrimento: que, segundo o dramaturgo, não augura bom futuro e vem desinquietar as nossas vidas previsíveis e seguras. O realizador Terence Davies não ousa contradizê-lo. Nada existe de emotivo nesta representação de um tempo passado (a Londres de 1950), porque nem o triunfo na Guerra ecoa na história de amor: aliás, nada ecoa, e experimentamos a sensação estranha em muitos momentos de o som do filme estar reduzido aos diálogos (e nada mais?). A porteira da casa para onde Hester vai viver ao deixar o marido, dá uma definição crua e sombria do amor quando diz que consiste em zelarmos pela higiene de alguém que esteja enfermo, para que se mantenha digno em vida, e está tudo dito. Viemos até aqui para observar o rescaldo da ilusão romântica. Compre quem quiser.   

5.29.2012

Ó diabos


















Enquanto existir um Petitjean à face da Terra, nenhum homem pode viver tranquilo.
Agora parece que há outro.

Terence on Terence



Sometimes, you know, it's a bit too repressed. You know, so repressed that it's not there.

João Salaviza vezes três















O que mais impressiona na curta-metragem Arena (2009), prémio máximo de Cannes, é que a partir do momento em que passamos do interior da casa do protagonista, um jovem que se tatua (Carloto Cotta) e que traz uma pulseira prisional no tornozelo, para o espaço exterior, parece que nos encontramos numa prisão a céu aberto, no que será possivelmente um comentário de João Salaviza em relação às habitações sociais, guetos que logo condicionam a situação social de quem lá vive. O resto é a mesma intuição para o cinema que já lhe reconhecia, colocando o corpo no centro de tudo (da acção), e confiando numa ideia de mise-en-scène mais que numa narrativa. Assim uma curta se fez maior.















Em Cerro Maior (2011) persiste o diálogo entre o cárcere e o espaço livre, que pode ser entendido como uma forma diferente de se estar encarcerado. É dos filmes de João Salaviza agrupados no DVD, aquele que talvez deixe a ideia de que algo ficou por cumprir, ou então que havia aqui matéria para maior duração, o que não é a mesma coisa. A razão é simples, prosaica, é dos compêndios. Começar um filme com alguém cria a expectativa de que é a história dessa pessoa que iremos acompanhar, o que no caso de Cerro Maior muda radicalmente a partir da visita de Anajara  ao companheiro Allison, que se encontra detido. O filme passa a ser dele e fica-se com a sensação de que o que veio antes se esvazia de importância. Mas é finalmente Allison que se descobre fora de cena.





















Sobre Rafa (2012) escrevi anteriormente e mantenho o que escrevi. Dos três o melhor.

5.28.2012

Au hasard Béla Tarr

A 14 de Junho, estreará pela distribuidora Midas, pela primeira vez em Portugal, um filme do cineasta húngaro Béla Tarr (n. 1955). Há muito que ouço este nome, tive uma ou outra ocasião, na Cinemateca, para descobrir a sua obra, mas por qualquer razão (a que a longa duração ou muito muito longa duração dos filmes não é alheia), acabei por deixar para mais tarde. Na passará de Junho próximo, por intermédio de O Cavalo de Turim (2011, 146 min.), e vou em busca de algo que o cinema deixou de proporcionar quase por completo: o vislumbre da transcendência que percebemos específica ao próprio meio de expressão. O cinema a transcender a vulgaridade audiovisual que nos cerca mais e mais.

O que se escreve neste artigo é bastante promissor: The Hungarian director Bela Tarr has said that “The Turin Horse,” his ninth feature, will be his last film. Could he change his mind? He is only 56, part of a generational cohort of filmmakers that includes Spike Lee, Olivier Assayas and the Coen brothers, who all retain an aura of youthfulness in middle age.
Mr. Tarr is the opposite. From the beginning there has been something ancient and ageless about his films. Even as he reflects the influence of earlier European modernists like Michelangelo Antonioni and Miklos Jancso, he has also seemed like a time traveler in modern cinema, an émigré from an older, middle-European world of literature and philosophy or, to go a little further, a medieval stone carver who happened to get his hands on a camera.

Se é para partir pedra, partamos então pedra com Mr. Tarr. E se puxar para dormir, paciência.

Um clássico

























Fotografado aos 40 anos por Herb Ritts para a Vanity Fair (2002)

























Fotografado com 50 anos por Mario Sorrenti para a W (2012)

Poesia




















Que bem que estávamos se todos os meses estreasse um filme como o sul-coreano Poesia (2010), realizado por Lee Chang-dong. Drama adulto, cheio de ramificações e implicações morais, filmado com uma serenidade e uma clareza que não se alteram independentemente da natureza de cada cena. O mais objectivo que é possível ser dentro da inescapável subjectividade que qualquer câmera de filmar pressupõe. Totalmente coeso mas não inteiramente conseguido, Poesia encaminha-se para a construção de uma história exemplar que tem algo de via sacra: a sexagenária do filme de Chang-dong, que coloca a sua vida ao serviço de outros (trabalha em limpezas domésticas, na assistência a pessoas acamadas, e tem ao seu cuidado um neto adolescente boçal) e que tem no curso de poesia a possibilidade de criar um espaço de beleza só seu e redentor, pertence à galeria de mulheres como Bess McNeill do Ondas de Paixão de Lars von Trier, que são levadas a extremos de sofrimento e despersonalização em nome da expiação do mal dos outros (onde não falta a cena da gratificação sexual). Elementos alguns escusados num filme que tinha a ganhar com uma riqueza (poética) menos ostensiva, mas isto é queixa que nasce da satisfação, que o filme é mesmo bom.

E os outros, e os outros e os outros

~



Foi um fim-de-semana de superlativos e alguns desses momentos tiveram esta voz no fundo.

5.25.2012

Melão

Já não tenho a vossa idade.

Murnau e os outros

Alexander Dovzhenko, Zemlya (Terra), 1930.


Miguel Gomes, Tabu, 2011.


Precisava das imagens justas mas parece que me faço entender: como se instantes antes da morte o corpo se iluminasse mais intensamente, querendo isso significar paz ou remorso, pois quando a luz se vai os corpos ficam todos iguais no escuro.

Ministórias






















Clarice tinha um cão.

Hmmm

5.24.2012

A lotta spaghetti

Rien vu...

























Os meus sonhos são regra geral bastante realistas e têm uma relação directa com o que acontece na minha vida desperta. Isto quando me recordo do que sonho, ou quando o que recordo não se escapa momentos depois de ter acordado. Ontem sonhei com o filme de Alain Resnais que está em competição em Cannes. Encontrava-me numa sala de cinema com uma actriz portuguesa bem conhecida do meu lado direito, que apresentava junto de si duas crianças que pela idade não podiam ser suas filhas. Mas eram. Daí que conclua que os tempos do sonho se tenham misturado e que havíamos em parte regressado a um passado em que aquelas miúdas podiam ter nascido daquela mãe. A dado momento da projecção eu estava dentro do filme, deambulando por espaços que não consigo reconstituir, mas que se me afiguravam como oníricos, o que tratando-se de um sonho não deixa de ser redundante. Mas porquê o Resnais, que é cineasta por quem não nutro particular estima? E era o Resnais, tenho a certeza, que me cruzei com ele pelos cenários do filme que Cannes viu, e que eu também vi mas não vi. Dormi um número importante de horas seguidas, e pela primeira vez em muitos meses não me levantei a meio da noite. Isso é o que mais importa. Ninguém se queixa da duração do filme quando está a sonhar.

Licença para beijar o céu

5.23.2012

Um símbolo

















Se demos o nome de Vítor Damas a uma das balizas, é de inteira justiça que se baptize a cabine de suplentes onde se senta a equipa do Sporting com o nome de Manolo Vidal. Um clube vive dos seus símbolos, mais que do património. Aliás, um património destituído de símbolos quer dizer nada.

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