5.07.2012
Com os hollandeses
Também eu desejei a vitória ontem de François Hollande. Entre a hipótese muito remota de uma qualquer mudança para a França e por extensão para a Europa, e a manutenção do estado actual das coisas, prefiro a primeira. Pode ser que Hollande se revele um empecilho na engrenagem. Basta que primeiro pense nas pessoas e só depois obedeça aos números.
'Take Shelter', de Jeff Nichols (IndieLx 2012)
A primeira longa de Jeff Nichols chama-se Histórias de Caçadeiras (2007), teve estreia comercial no nosso país, e não guardo dela grata recordação. Cinema dito independente cheio de tiques do dito, todo em desaceleração (menos aborrecido que um mumblecore, no entanto), aridez narrativa e silêncios prolongados. Muita pose e pouca uva. Este Take Shelter arranca de forma bem mais promissora, só que quando dá o tiro este revela-se de pólvora seca. Edificado um objecto de suspense psicológico cruzado com filme de catástrofe iminente, para abusar no primeiro frustra-se as expectativas do segundo. E depois ter Michael Shannon a fazer uma caricatura do tipo de personagens em que com toda a justiça se notabilizou (entre as figuras do santo e do louco; ver exemplos em Bug, de William Friedkin ou Revolutionary Road, de Sam Mendes), também não contribui para o êxito do projecto. Nota-se uma evolução em Jeff Nichols, na forma como domina hoje em vez de exibir a linguagem cinematográfica, como sabe estabelecer uma atmosfera de inquietude nos espaços mental e exterior da principal personagem, conseguindo mudar para um registo "anónimo" nas sequências familiares ou profissionais que a ela se referem. Parece por vezes cinema americano da década de 70, executado por profissionais de menor nomeada como Bob Rafelson, quando a uma maior estilização se preferia a abordagem directa e discreta. Infelizmente outros sinais se vão acumulando para a criação de uma tensão crescente no espectador que dá em nada. E quando nada acontece (para finalmente parecer que vai acontecer), quando o final assume um tom profético, a coerência psicológica do protagonista, algo abalada, retira-lhe parte do impacto numa solução já de si forçada. Assim o cinema tivesse cheiro e Take Shelter deixaria no ar o cheiro a pólvora seca.
'Wuthering Heights', de Andrea Arnold (IndieLx 2012)
Não é preciso que decorram muitos minutos de filme para encontrarmos o principal mérito desta adaptação de O Monte dos Vendavais (Emily Brontë, 1847), que corresponde igualmente à sua mais concreta e relativa limitação. Percebe-se que é um filme realizado por uma mulher, pelo cuidado com os detalhes que pode cair nalgum decorativismo e pelo jogo de escondidas (será pudor?) que estabelece com os sentimentos extremos do amor e ódio. A terceira longa-metragem de Andrea Arnold é o seu filme mais equilibrado, de grande coerência plástica e sonora (pena a musiqueta do genérico final...), como se se tratasse de uma realização da neozelandesa Jane Campion (O Piano pode-nos tomar de assalto a memória) mas de pendor mais naturalista. O drama faz-se anunciar na paisagem bela e agreste da Inglaterra rural, que Arnold torna mais poética com a atenção dada aos fenómenos da natureza, com os seus ciclos de luz, as fortes tempestades e todo o tipo de bicharada que por ali se vê. A história de amor entre Heathcliff e Catherine não é alheia ao universo rude em que ambos vivem e por onde se aventuram ainda num período de inocência da atracção que nutrem um pelo outro. Quando Heathcliff regressa anos mais tarde, o filme torna-se psicologicamente mais negro com as consequências conhecidas por todos aqueles que leram este livro. E a partir de agora pelos outros todos que se debrucem sobre ele em função do entusiasmo suscitado por esta adaptação: a primeira levada a cabo por uma mulher no que condiz com o género do autor do romance há muito celebrado.
5.04.2012
A Lisboa que desaparece
Tenho uma ligação romantizada com uma Lisboa que não conheci. A Lisboa dos anos 60, de gente culta e boémia, dos cafés até às tantas, dos copos mais que muitos, e das conversas sem fim. Ouvi e li algumas histórias desta Lisboa da boca de gente como Fernando Lopes, um exímio contador de histórias. Tive por isso uma secreta alegria quando vi entrar no Palácio Galveias Armando Baptista-Bastos, de braço dado com a mulher, muito aprumados tal como a imagem que deles guardava, e como sempre os vi chegar. Há uma Lisboa que desaparece quando a memória de gente como Fernando Lopes deixa de existir. Sobra Baptista-Bastos (autor desse grande livro de centena e meia de páginas que é O Secreto Adeus) e poucos mais. Faltam-nos histórias e vão faltar cada vez mais. Isto está a ficar um pouco lamechas e calo-me já.
Reencontro com Pascal Bruckner
Deve ter sido por alturas do curso de cinema que fiz a primeira leitura de Pascal Bruckner (ou Pascal Bruckneeerrr, como acentuava o professor de sistemas de produção que estudara na Bélgica), então já numa edição Europa-América algo descuidada. O livro chamava-se A Tentação da Inocência e continua a fazer parte da minha biblioteca mais estimada. Regressei há poucos dias a Pascal Bruckner por sugestão de um amigo que é das pessoas que melhor me conhece. Hoje leio O Paradoxo do Amor como igual avidez à que usei nos tempos da escola de cinema. Continua a notar-se o descuido da revisão que me parece ser marca do editor. Algumas coisas não mudam. Certamente não a pertinência das reflexões de Pascal Bruckner, seja lá em que matéria for, e eu também não mudei significativamente. As passagens que passo a transcrever são de um outro texto ainda, The Love of Lust, que saiu em 2009 na publicação indiana Open Magazine, um absoluto contemporâneo de O Paradoxo do Amor de que deixarei depois breve fragância.
«Thirty years of leafing through a certain category of magazines is like discovering an outlandish catechism of debauchery—one that is no less prescriptive than the catechism of yesteryears: try sodomy, threesomes, bisexuality, whips, are you a good lay, do you make love on Mondays? While death remains obscene and still in a shroud, dirty little secrets are out in the open, in the public arena, and all and sundry are jostling to tell their stories on the TV, radio and the net.»
«Today, no one wants to be a sexual ‘have-not’— everyone flaunts an honourable service record, even in the dullest of marriages. Like one’s profession, salary or physical appearance, sex too has become an external sign of wealth that individuals add to their social paraphernalia. A new human species has emerged—that of hedonist ascetics who expend a great deal of energy to stir their senses and achieve a state of bliss. They work hard at their pleasure and are really tormented souls—enduring insecurity is the other side of the coin in their unceasing quest for pleasure.»
«However, there is a world of difference between what this society says about itself and the life it lives in reality.»
«Our parents used to lie about their morality, but we lie about our immorality. In both cases, there is a disparity between what we say and what we do. Unlike in Freud’s time, the cultural malaise no longer stems from instincts being crushed by the moral order—it is born from their very liberation. At a time when the ideal of self-fulfilment reigns triumphant everywhere, everyone compares themselves to the norm and struggles to live up to it. That means an end to guilt and the birth of anxiety. However, sexuality is generally still considered something that should remain undisclosed. But people either boast too much to be credible, or hide it for fear of appearing gauche at a time when one’s private life has become a sport of ostentation.»
«Our love lives and impulses imply delays, intermissions and outbursts, but nothing of that eternal glaze that is the world of today’s global supermarket.»
«Sex had made it possible to reconcile ecstasy and dissent. Today, it is the mercantile society’s most reliable product.»
O próximo é retirado de O Paradoxo do Amor, da página 40:
«Como é possível ser bovarista, perguntava George Steiner, num mundo em que todos os desejos podem ser realizados? A questão é que eles não o são, nem nunca o serão. A nossa sociedade, ao proclamar a toda a hora e em todo o lado a força solar do prazer, está a penalizar ainda mais os que são excluídos do prazer, os que lhe viram negado o direito ao prazer. A insatisfação é cada vez mais forte quanto mais o hedonismo for imposto como uma lei. Organiza-se o mercado da frustração, com o propósito de nos vender o charme e a audácia sob a forma de conselhos, de cuidados, de artifícios. A nossa época "libertada" faz com que o destino dos solitários seja mais amargo, bem como o dos seres insignificantes remetidos para o seu anonimato, quando é suposto que todos usufruam do prazer. Alison Lurie narra algures que os camafeus copulam muito mais do que se pensa, mas eles têm de suportar, para além disso, as confidências que os seus amantes fazem sobre os desgostos de que sofrem por causa das mulheres bonitas. Terrível ironia da emancipação: homens e mulheres, vítimas e cúmplices, ao mesmo tempo, perseguem-se, uns aos outros, em nome da juventude, da forma, da venustidade. Tudo o que outrora foi instrumento de libertação passou a ser igualmente instrumento de escravidão»
Chosen lads
Como se fossem precisos mais exemplos para mim de que os irlandeses é que são o povo escolhido.
5.02.2012
No outro lado do espelho (Fernando Lopes 1935-2012)
Foto: Daniel Rocha
Bebo de mais, fumo de mais, comovo-me de mais. É o mais célebre 'soundbyte' de Fernando Lopes. Continua a usá-lo? "Sim, mas com uma diferença, faz hoje exactamente dois meses tive uma encefalopatia hepática que me levou ao outro lado do espelho". (entrevista ao JN, 14-09-2006)
É isto.
'Toata Lumea din Familia Noastra', de Radu Jude (IndieLx 2012)
A produtora de Toata Lumea.../ Everybody in Our Family, Ada Solomon, ao apresentar a sessão, destacou a coincidência do realizador Radu Jude (Bucareste, 1977) e do seu protagonista terem ambos uma filha pequena e um processo de divórcio recente nas suas "vidas". O espectador avisado prepara-se então para o ajuste de contas, que em certa medida é o que o filme de Jude oferece: um acerto de contas de onde saem todos a perder. Uma "carnificina" (para citar o filme de Polanski feito com base na peça teatral de Yasmina Reza) que tem na disputa por uma criança o centro do drama. Filmado em planos aproximados e nunca fixos, na maior parte do tempo dentro da mesma casa, Everybody in Our Family deixa-nos entre o consternado e o riso nervoso que o tom por vezes satírico leva a esboçar. Uma situação normal – o pai tem a expectativa de levar a miúda a passar uns dias com ele junto do mar – será impedida pela ex-mulher que o quer ver fora da vida dela e da da filha em definitivo, o que vai gerar no homem o desespero e um comportamento violento. Ninguém morre: isto é ainda um cinema que pugna pela plausibilidade do real, mas o que entretanto fica estragado não tem mais conserto. O filme de Radu Jude integra a Competição Internacional do IndieLisboa 2012, e apesar de não ter visto qualquer outro dos concorrentes, não me admirava que viesse a ser este o escolhido.
Começar de novo
"I'm 57 years old and I've lost my way." Ele vai andar por aí, e nós vamos estar de olho nele.
Enviei esta mensagem após me ter despedido da terceira época de In Treatment, que pode bem ser a última. A derradeira semana é também marcada por várias despedidas: Sunil despede-se de Paul, Jesse faz o mesmo, e Paul por sua vez despede-se da sua analista, Adele. O devaneio amoroso deixado em suspenso. A hipótese da gravidez solitária de Adele deixada em aberto. Aqui não existe "closure", nunca existiu. A experiência ficcional coloca-se demasiado próximo da vida. Talvez que todas as personagens, e não apenas Paul, continuem a andar por aí, pelo meio daqueles que a elas se ligaram.
As aranhas
Muitos anos depois, Mick Jagger hesita, mas lá acaba por cantar "she looked about fifty" – na versão original é "thirty" -, talvez para não melindrar sabe-se lá quem... ou o quê (a sua própria consciência?).
4.30.2012
Um post sobre o jazz
Porque hoje é o primeiro Dia Internacional do Jazz (obrigado cariño pela lembrança), e porque o jazz é a música onde tudo comunica com tudo e improvisar é ser livre e ser único, resolvi ligar isto com isto e fazer um pouco de jazz aqui no blogue, dentro do mesmo post. O jazz é afirmação de vida, apesar das circunstâncias próprias ou alheias.
4.29.2012
'Rafa', de João Salaviza (IndieLx 2012)

Rafa é um objecto alinhado com o que de mais relevante aconteceu no cinema português da segunda metade do século XX, sobretudo com os autores que despontaram e se afirmaram nos anos 90. Existe nele a poesia nocturna dos primeiros filmes de Pedro Costa, em particular de O Sangue e de Ossos. Há também a expressividade pelo corpo em permanente movimento como n'Os Mutantes, de Teresa Villaverde. Existe também a atracção pelo real tangente à marginalidade como no cinema de João Canijo. Mas este real, relativamente ao cinema português, obriga-nos a recuar até ao Cinema Novo e aos filmes de Paulo Rocha e de Fernando Lopes, para dar só dois exemplos. Se isto não fosse suficiente, encontramos também aqui o tema da aliança estabelecida por dois irmãos que ao mesmo tempo são jovens obrigados a crescer depressa, substituindo-se pela entreajuda aos pais, ausentes ou negligentes. Assunto recorrente num certo cinema português da responsabilidade de jovens realizadores: dos já referidos e de outros ainda.
Este foi o primeiro filme que vi de João Salaviza e corresponde à sua mais recente curta-metragem. Encontrei um realizador na preciosa acepção da palavra. Na escolha dos enquadramentos, na capacidade de montar no interior do próprio plano (é assim o começo de Rafa), na intencionalidade da montagem (os seus diferentes usos e recursos, como na cena do interrogatório na esquadra de polícia com o negro que dá conta do tempo que passa), no trabalho com o fora de campo (a câmara está quase sempre com Rafa e é solidária com a vontade do protagonista, e o som várias vezes faz o resto), nas durações de cada plano e na forma como isso nos faz interpretar as intenções do filme. Rafa regista um processo de crescimento em acelerado. O rapaz que quer trazer a mãe de volta a casa, e que para isso se dirige da margem sul para Lisboa onde ela se encontra detida, acaba com um bebé nos braços, como que para sinalizar por último a ambiguidade do seu estatuto. Rafa é ainda um jovem que as circunstâncias obrigam a que seja adulto. A juventude roubada a Rafa é o tema principal deste filme de João Salaviza.
4.27.2012
Amar o fracasso
«E, todavia, mantivemos o nosso ritual até muito tarde, eu e o meu pai – até depois, inclusive, de eu já viver em Lisboa –, de assistir aos jogos ao vivo e, aliás, trazer no bolso um cartão de sócio do Sporting, que a dado momento passara a guardar no primeiro separador da carteira, onde os heróis usam o distintivo e os mortais, à falta de melhor, enfiam o passe social. Todos os sábados à noite, vivendo eu na ilha ou estando lá de férias, já adulto, nos púnhamos ambos em frente ao televisor, na cozinha fria de São Bartolomeu, os dois com um cachecol verde e branco ao pescoço, os dois engolindo malgas de pipocas com a avidez de quem rói as unhas, os dois correndo para a enorme bandeira leonina pendurada a um canto quando, por absurdo, um dos nossos marcava golo. E, quando nos abraçávamos, era como se realmente estivéssemos em Lisboa, em pleno Campo Grande, nas próprias bancadas do Estádio José de Alvalade, fundidos naquela multidão que celebrava, também ela, o tímido raio de sol que a iludia.
Habituados a perder, restou-nos amar o fracasso, o que tinha o seu mistério.»
4.26.2012
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