4.03.2012

Um gajo tímido

























Qual deles? Tínhamos ambos as mãos suadas.

This wonderful wanderlust



4.02.2012

Fria claridade














Um filme francês sem nada de especial que acaba tornando-se especial talvez por isso. Um Amor de Juventude, de Mia Hansen-Løve, abarca oito anos da vida de Camille e do seu amor por Sullivan, namorado da adolescência que regressa numa fase adulta para que se perceba que em idades diferentes os sentimentos são também diferentes mesmo que teimosamente neles queiramos ver um tempo que já passou. Um pouco à semelhança dos conceitos de claridade e escuridão de que falam as aulas de arquitectura do professor com quem Camille irá viver depois. A claridade que abre para o momento presente, ao passo que na escuridão se encerra a memória. Quando Camille reencontra Sullivan, a tentativa de recuperar o amor de juventude é marcada pelos anos que passaram entretanto. Ele não é a mesma pessoa (ou talvez nunca tenha deixado de ser a pessoa em que se tornou: num pulular constante de amor em amor, fugindo do compromisso, montado na mesma bicicleta em que a realizadora o filma em planos muito semelhantes apesar dos anos decorridos), e ela não poderá voltar a ser quem era, e isso fica evidente depois da segunda separação de Sullivan. A claridade que se anuncia no coração de Camille é agora mais fria: pelo tempo de recusa em deixar entrar um novo amor na sua vida, depois pelo envolvimento com o seu professor, pelo aborto espontâneo ocorrido no momento em que reencontra Sullivan, a história de Camille torna-se adulta ainda que ela queira ver-se ligada a um sentimento do passado. E o tempo passa e a história segue o seu curso, como todas as outras, e como o rio situado próximo da casa de férias dos pais de Camille, onde o filme se encerra em mais uma nota romanesca, tão discreta como as outras. O cinema de Mia Hansen-Løve, algures entre os modelos referenciais de André Téchiné e Eric Rohmer, é dos que ficam connosco.

3.31.2012

Daquilo que faz as lendas

Countdown to Mark Lanegan (0)



Pelas minhas contas é hoje.

3.30.2012

Countdown to Mark Lanegan (1)



É lembrar as American Recordings de Johnny Cash, meus caros. Aqui o original pertence a Will Oldham, mas veio Mark e comeu-o.

3.29.2012

No tempo em que não existíamos



<3 u more.

Tal pai, tal filha










À Nos Amours (1983) filma um corpo que irradia sensualidade a que corresponde um rosto que diz nada. Uma rapariga que se dá a vários homens e que a nenhum se entrega. O único que parece incomodar-se é o namorado com quem a vemos de início. Carente e inseguro, pergunta-lhe se ela se aborrece na sua companhia? Separam-se ali e a rapariga vai ter com outros. Amar não é com ela e o filme de Pialat não dá explicação para este impedimento. Podemos querer vê-la no fracasso da relação entre os pais (Maurice Pialat interpreta o pai de Suzanne, interpretada por Sandrinne Bonnaire revelada neste filme) que se agridem constantemente. Naquela casa todos quatro (existe ainda o irmão mais velho) andam à bofetada. O pai é quem melhor percebe Suzanne mas não deixa de criticar o seu comportamento. A dada altura sai de casa e mais tarde faz uma visita breve por ocasião de um jantar dos filhos com amigos. É como se um tornado de cinismo irrompesse pela sala para denunciar a hipocrisia vigente. Pialat, personagem ou realizador, não propõe qualquer moral alternativa. O seu cinema é o das coisas que são como são. Sempre em estado de confrontação. O momento sempre no presente, brutal e em bruto. Há muito tempo que não visitava o meu mais estimado realizador europeu. Não é obra com que me apeteça confrontar assiduamente. Pialat filma-nos como somos. Há o gume do cinismo e um resto de demasiada realidade.

Countdown to Mark Lanegan (2)



No osso.

3.28.2012

Millôr Fernandes (1924-2012)

























Aprenda de uma vez. Se você acordou de manhã é evidente que não morreu durante a noite. A felicidade começa com a constatação do óbvio.

Countdown to Mark Lanegan (3)



Neste território ele é insuperável. Acaba por ser um momento quase escondido em Blues Funeral. Podemos lá passar sem dar conta. Liga-se mais a outras coisas que Lanegan fez.

3.27.2012

Pixar






















Sean Cronin, Mike Ross, Mike McCarthy, Donncha O'Callaghan, Cian Healy e Donnacha Ryan, jogadores da selecção irlandesa de rugby que teve prestação abaixo do seu valor no último Seis Nações, e que no Verão terá que se arranjar com a poderosa Nova Zelândia, por três ocasiões, em território alheio.

Countdown to Mark Lanegan (4)



Quiver Syndrome, das melhores músicas de Blues Funeral, onde não falta o coro "sympathy for the devil" nem nada.

Marcados para o resto da vida



O diário deixado pela prostituta que morre no início na sala de parto. As tatuagens visíveis de alto a baixo no corpo do motorista Nikolai (Viggo Mortensen). Os factos narrados em tempo presente pelo filme de David Cronenberg. Todo um emaranhado de histórias de violência que cercam os que delas fizeram parte ou que passam a fazê-lo ao se chegarem àquele universo: o da mafia de leste a operar em Londres. A violência está de algum modo centrada sobre as mulheres, suas principais vítimas, excepcionalmente espectadoras cúmplices como no caso das matriarcas russas que sabem do que se passa mas mantêm-se fora dos espaços onde os crimes têm lugar: becos, prostíbulos, baldios ou saunas. Aquelas que dão a vida são também quem maiores riscos corre de a perder. A principal tragédia de Eastern Promisses é o desbaratar do potencial da juventude, e aqui regressamos às passagens do diário que são lidas no decorrer do filme. A dado momento tudo o que é possível fazer passa por sobreviver de memórias até ao dia seguinte. Por isso é que o nascimento da criança que virá a ser adoptada pela enfermeira Anna (Naomi Watts) é tão significativo. E mais significativo o facto de para ela existir uma promessa diferente de futuro. Uma promessa gerada a ocidente.

3.26.2012

Da embriaguês pela leitura

























«During this time a friendship was struck with Wilfrid Lawson, whom O'Toole would describe as an 'eccentric, perverse old bastard'. Lawson, famous for his part on stage as Eliza Doolittle's father in My Fair Lady, became O'Toole's acting mentor and was a notorious drunkard. In the days when plays went out live on television Lawson was muddling through his lines one night when he suddenly dried. Luckily his fellow actors were able to cover for him and when the scene ended Lawson breathed a huge sigh of relief and said, 'Well, I fair buggered that up, didn't I,' not realizing he was still on-air.
Lawson had also made the acquaintance of Burton, perhaps sensing that both men were at the vanguard of a new form of realism in acting and therefore represented the future. Most likely it was because they made for good drinking companions. During lunch in a pub Lawson ran into Burton and invited him to the matinee of a play he was appearing in at a nearby theatre. Since he wasn't in the early scenes Lawson offered to sit with Burton in the stalls. About 20 minutes after curtain up Burton started to get rather anxious that Lawson had not yet left to don his costume or make-up, instead just sitting there enthralled by the spectacle. Suddenly he tapped Burton's arm and said. 'You'll like this bit. This is where I come on.'

Lawson would meet quite a bizarre final curtain, suffering a fatal collapse while having a death mask made for a film.»


Histórias, histórias e mais histórias, um nunca acabar de histórias que não estão confinadas aos "quatro" maiorais, mas que têm sempre um dos "quatro" no epicentro da bebedeira. As 1001 noites mudadas para o Soho deram nisto. Um livro tóxico e hilariante.

Que viva México!















Kaurismäki fez já o filme em que eu mais gostava de ter entrado. Chama-se Ariel (1988) – em parte "filme de prisão" –, também nome do barco que no final levará o protagonista, a mulher e o filho dela, para melhores dias, no México, do que os vividos quando Taisto se mudou do interior para a grande cidade. Aki Kaurismäki tem alternado optimismo e pessimismo, humor e tragédia, quando se trata de filmar. Há nalgumas ocasiões a intuição de uma vida melhor além do arco-íris, seja lá qual for o exótico destino onde este se digne aparecer. O arco, aliás, começa por se desenhar no carácter exemplar das suas principais figuras, gente honesta que é vítima das circunstâncias geradas por outros. Não têm ninguém por elas, a não ser o poder ilusório do cinema. A mise-en-scène de Kaurismäki abre um horizonte de esperança para o que possa vir depois da última bobina. Os filmes desenrolam-se claramente do lado do cinema – na "kaurismakilândia" cultivada pela vasta minoria de "kaurismakiófilos" –, que valoriza o antigo e não perde tempo com as imagens modernas do mundo onde as razões do homem, e as suas fraquezas, não deixaram de ser as de sempre. O coração do finlandês é grande como o automóvel (uma banheira vintage tal qual as que Kaurismäki gosta de conduzir) herdado e mais tarde vendido por Taisto. O efeito cómico joga-se aliás na desproporção entre aquilo que a vida permite e o cinema torna possível. "Take the money and run" é apenas outra forma de escrever "bigger than life".

Countdown to Mark Lanegan (5)

3.25.2012

Countdown to Mark Lanegan (6)



E a setlist dessa noite:

1. When Your Number Isn't Up
2. The Gravedigger's Song
3. Bleeding Muddy Water
4. Sleep With Me
5. Hit the City
6. Wedding Dress
7. Resurrection Song
8. Gray Goes Black
9. Crawlspace (dos Screaming Trees)
10. Quiver Syndrome
11. One Hundred Days
12. Creeping Coastline of Lights (cover dos Leaving Trains)
13. Riot in My House
14. Ode to Sad Disco
15. St. Louis Elegy
16. Wish You Well
17. Phantasmagoria Blues
18. Tiny Grain of Truth

Encore:
19. One Way Street
20. Harborview Hospital
21. Fix
22. Methamphetamine Blues

3.24.2012

Countdown to Mark Lanegan (7)



31.03.12 TMN Ao Vivo, Lisboa.

3.23.2012

Viver para filmar ou filmar para viver



Isto não faz parte do documentário de mais de três horas que Robert B. Weide fez com Woody Allen, com quem passa aqui uns minutos bem humorados. O documentário não é melhor nem pior do que muitos outros exemplos desta arte em que os americanos há muito se especializaram, e que passa pela gestão de informação e testemunhos e o interesse do assunto ou sujeito. Quem gosta de Woody Allen vai sentir-se sobejamente recompensado.

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