12.20.2010

O ano do Tigre (últimos dias)



















Pela lente espantosa de Ira Chernova.

Define "o erotismo do dia-a-dia"















Syntheticpubes, o meu blogue em 2010.

Totally beefhearters

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Juntos de novo



















A música está cada vez melhor servida, e cada vez menos deste lado.

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12.17.2010

Artwork and hard work

Where the wild things are

Os limites da ambiguidade
















A impressão que um filme como Stone deixa pode depender do modo como lidamos com a ambiguidade. O realizador John Curran (We Don't Live Here Anymore, The Painted Veil) larga intencionalmente um conjunto de pontas soltas, de sentidos que ficam por completar, contrariando as expectativas geradas por uma história que acaba implodindo, deixando-nos com os seus estilhaços. As tais pontas soltas.
Robert De Niro interpreta um oficial de justiça que tem a responsabilidade de avaliar os candidatos ao regime de liberdade condicional. Stone (Edward Norton) é a alcunha do prisioneiro que Jack entrevista nos últimos dias em funções. A manipulação que Stone exercerá sobre ele, recorrendo à sua muito bela e promíscua mulher (Lucetta/ Milla Jovovich), vai expor a fachada de um homem que usou a fé para reprimir os impulsos mais primários: o sexo e o homicídio. Stone usa por título o nome do presidiário mas o filme é sobre Jack e a intriga liga-se ao prólogo onde uma situação familiar extrema anuncia a queda que está por vir. Também importante nesta obra de John Curran é a presença da religião que se sente por todo o lado, e mais se nota numa América profunda filmada naquilo que tem de mais árido e agorafóbico.
Curran coloca-se formalmente do lado de outros realizadores da actualidade como Andrew Dominik (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford), Todd Field (In the Bedroom) ou Marc Forster (Monster's Ball), investindo por uma espécie de realismo atmosférico cuja relevância corre sempre riscos de se perder por entre sinais soprados pelo vento (metáforas, metáforas, metáforas). São objectos marcados por uma complexidade moral que quando não resulta gera pose. E se no caso de Todd Field deu origem a uma das primeiras obras mais importantes do cinema americano da última década, já com relação aos três outros exemplos (este filme de John Curran incluído) tenho as minhas sérias dúvidas. Inquietações de um espectador há vários anos a ver esfumar-se a crença no cinema dos seus contemporâneos.

12.16.2010

12.15.2010

Um súbito arrepio na espinha

O mundo vai acabar mas temos tempo para uma chávena de chá
















Não me parece arriscado dizer-se que Mike Leigh não voltará a atingir o patamar cinematográfico de Naked, o seu filme de 1993 que longas carreiras de tantos realizadores não têm para mostrar. Quando misturamos humor com desespero obtemos sarcasmo, algo em que os ingleses se superam de tempos a tempos (lembrar os casos Dennis Potter e Ricky Gervais). No princípio de Naked observamos Johnny, o protagonista, em fuga de Manchester para Londres num carro roubado. Escapa-se a uma mais que certa tareia que descerá sobre ele num beco anónimo da cidade de destino e às mãos (e pés) de um grupo de jovens que lhe batem com o mesmo propósito de desfastio que ele usava quando fodia mulheres casadas e aborrecidas. Johnny (numa interpretação para a eternidade de David Thewlis) é um niilista que necessita de estar em constante movimento. Se não é o corpo que se move, agita-se o pensamento em seu lugar. E sempre com um objectivo de confrontação, como alguém que denuncia o absurdo da existência própria e alheia ao mesmo tempo que as sossega. Viver é estúpido, inútil, sem sentido mas não teremos de andar nisto muito mais tempo: o mundo chegaria ao fim em (sic) 1999.
Existe um segundo niilista neste filme de Mike Leigh. Chama-se Jeremy e vive de rendimentos e para o hedonismo. Camuflado num corpo cuidado em spas e roupas de fino corte, Jeremy também transforma a sua frustração em violência, repertório de agressões físicas mais expressivo que o de Johnny. Naked filma um mundo de gente perdida. De mulheres resignadas e homens violentos (o inverso tembém existe embora seja menos representativo). Um mundo que apesar de todos os sinais negativos teima em não acabar. O purgatório começa aqui.

[A edição DVD da Midas, sem extras, tem uma qualidade de imagem perfeita.]

12.14.2010

Fuck facebook (in the face)

























Os INTRONAUT mandam. Grande disco de metal progressivo com apontamentos de pós-rock (o autocolante da capa que aqui não se vê não mente; é mesmo na linha Mastodon e Baroness) com virtuosismo rítmico (em linguagem técnica diz-se "drive") que nos põe a tocar Air Drums de início ao fim. Em poucos dias a minha lista de discos de 2010 encontra-se desactualizada.

Odisseia no espaço


























O trabalho de Aura Mckay para o Tattoo Project. Uma loura, uma morena (o Lynch vem à ideia), um candeeiro daqueles que existem na casa de qualquer um de nós. E o resto a que chamo talento de buscar a forma simples, também ao serviço do nosso belo prazer.

A Melanie sabe do ofício (e é gira que se farta)




















«What tips would you give to the home photographer, tattoo enthusiast or tattoo artist who wants to take a great photograph of a tattoo?

Hire a professional! Taking tattoo shots with a point-and-shoot camera with flash will always look unprofessional. If you don’t have professional equipment or knowledge, try taking the shots outside on a bright but overcast day or in slight shade, without flash.»

12.13.2010

Assinar por cima



Assinar por baixo. 40 vezes.

Porque é Natal
















Go Go Tales (2007) pode sem dúvida parecer uma colagem mais óbvia mas após ter revisto 'R Xmas (2001) acho que Abel Ferrara nunca esteve tão dentro do cinema de John Cassavetes como neste filme. A identificação é mais forte pelo lado mais difícil de explicar. Qualquer coisa de espiritual se quiserem. Chegamos a essa espiritualidade pela matéria do cinema; um fluxo de imagens que tende para a abstração e que vai contaminar a própria narrativa. No entanto, talvez o mais significativo do filme acabe sendo o modo como Ferrara dirige Drea de Matteo, a grande força motriz de 'R Xmas que tem muito das personagens que Gena Rowlands viveu nos filmes do marido John Cassavetes. Drea tem a mesma energia quando se desloca e o seu farto cabelo oxigenado é como que uma tocha que nos guia pela noite na cidade. Ela irradia força até nos momentos de aparente fragilidade. Tal como nas personagens de Gena Rowlands essa força reside na sua personalidade. 'R Xmas dá-nos a ver e a acompanhar uma "Gloria sob influência". Drea de Matteo serviu a elegia de Ferrara pela metrópole que o Mayor Giuliani trataria de tornar (para muita gente) irreconhecível.

Perfeição musical e interpretativa absolutas

Cantar a solidão como algo de religioso

12.10.2010

A yogi & a dancer





















Uma iogi e uma dançarina. Uma trágica e uma romântica. Podia apaixonar-me por uma mulher assim (desde que fosse também asseadinha).

Os 10 melhores discos editados em 2010














1. Kylesa, Spiral Shadow
















2. High on Fire, Snakes for the Divine















3. The Black Keys, Brothers















4. Valkyrie, Man of Two Visions (reed.)















5. Grinderman, Grinderman 2















6. Endless Boogie, Full House Head















7. Black Tusk, Taste the Sin














8. The Black Angels, Phosphene Dream















9. Isobel Campbell & Mark Lanegan, Hawk















10. The Dead Weather, Sea of Cowards


UMA LISTA DE PESO.

12.09.2010

Teatro





















Tributo ao melhor filme que vi esta semana, The Mother (2003) do britânico Roger Michell, e ao seu (digo eu) modelo espiritual e até mesmo carnal, A Streetcar Named Desire (1951). Kazan filmou Tennessee Williams, ao passo que Michell transpõe um guião de Hanif Kureishi cuja excelência das interpretações ilumina enquanto grande texto "de" teatro (pode ser que venha um dia a fazer o trajecto inverso). The Mother tem muito mais que o revestimento polémico da história de duas mulheres – mãe e filha – que disputam o mesmo homem. É sobre sentirmo-nos jovens quando não o somos mais. Uma derradeira ilusão antes do fim. A mesma ilusão de sempre e aquela que magoa sempre mais da última vez.

Liberdade, igualdade, fraternidade

«O trocinho deve ter atingido aquele estado peniano enquanto lambia o meu buzanfã de la patrie, ao som da raga que o Ingo extraía da cítara – a raga do cu lambido.»

Reinaldo Moraes, Pornopopéia (Objectiva)

12.07.2010

##da-se


























Eu escutei a noite passada David Thomas dos Pere Ubu à frente dos Sex Pistols, se produzidos neste século. A Pitchfork escreveu no ano de edição, 2008: «That said, The Chemistry of Common Life is a guitarist's album: 10,000 Marbles (Mike Haliechuk) and producer Jon Drew balance classic rock force with shimmering overdubs, at times recalling the Smashing Pumpkins, while at others echoing the layered, chiming guitars and famed loud/quiet dynamics of Bossanova-era Pixies.» Seja como seja, um óptimo disco cheio de fúria.

12.06.2010

Giram discos



Em escuta.

Os 10 melhores filmes estreados em 2010

A Radar já fez saber quais os seus discos do ano. Eu começo pelos filmes.












1. Presente de Morte (The Box), Richard Kelly











2. Greenberg, Noah Baumbach












3. Não Minha Filha, Tu Não Vais Dançar, Christophe Honoré










4. Noite e Dia, Hong Sang-soo












5. Tudo Pode Dar Certo, Woody Allen










6. Alice no País das Maravilhas, Tim Burton












7. Polícia Sem Lei, Werner Herzog










8. O Escritor Fantasma, Roman Polanski












9. A Religiosa Portuguesa, Eugène Green










10. O Mensageiro, Oren Moverman


O ano foi fraco no que se refere a encontros marcantes na sala escura. Quantos destes filmes manter-se-ão relevantes daqui por uns anos? Arrisco que talvez apenas os dois primeiros. Convém lembrar que Um Profeta, de Jacques Audiard, estreou a 31 de Dezembro de 2009. Na altura suscitou-me pontuais reservas; hoje tenho grande vontade de o rever (e já anteriormente defendi que isto para mim é mais significativo do que qualquer outro instinto; o desejo de rever determinado filme, seja na sala seja em casa). A passagem pelo espaço dedicado ao cinema no portal SAPO não deixa antever a necessidade de mudar a lista (desta vez não haverá surpresas guardadas para o último dia de 2010, a não ser que os distribuidores alterem as datas previstas). Eu gosto de listas.

Camonianas














Dois amigos cruzam-se à saída do restaurante onde ambos almoçaram. Um mostra vaidoso a tatuagem feita na semana anterior. Outro fala da paixão que sente pela namorada 15 anos mais nova que ele. E eu meto-me pelo mar adentro.

Carne alentejana

12.03.2010

Still

12.02.2010

Asas do desejo





















Isabeli Fontana, modelo brasileira nascida no ano da graça de 1983.

"Pornopopéia" das nossas vidas


























«Tô envelhecendo, cara, de verdade. Não foi só ontem durante a viagem de ácido, não. Um velho sem um pingo de sabedoria na cabeça, é no que vou me transformando com espantosa velocidade. Já a Lia continua lucidérrima e ainda assaz apetecível do alto dos seus quarenta anos. A bunda cresceu um pouco, os peitos ficaram mais caidinhos, mas nada grave. Se ela não me enchesse tanto o saco com cobranças e recriminações de ordem prática, além de outras sentimentais, a gente treparia bem mais e melhor. Mas você conhece alguma mulher capaz de fazer um simples cálculo de custo-benefício desses? "Não vou mais encher o saco do Zeca com cobranças e recriminações. Em compensação, vamos trepar muito mais e melhor." Magina. Nunca existiu semelhante ser na face da Terra. Algumas patroas acabam descobrindo isso tarde demais, quando o maridão já caiu fora de casa atraído por uma xota 25 anos mais jovem. O mundo é cruel, meu chapa. Mas vende todo tipo de anestesia a quem puder pagar por isso.»


O Brasil de Reinaldo Moraes bate-nos em linguagem e em sacanagem.

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