11.15.2010

You can say that again...


























Uma Mojo para guardar.

Um anjo desceu no Estoril


























foto: Tim Knox.

Se a proposta tivesse ficado pela leitura, já teria sido bom ter ido ver Laurie Anderson. Digo bem, ter ido ver, porque é uma presença que se sente como qualquer coisa de muito agradável. Laurie Anderson irradia de facto uma tal bonomia, na sua figura leve e discreta de gentil anjo de idade indeterminada (tem 63 anos, disse-o com o mínimo ênfase), que bastava estarmos ali sem que nada acontecesse. Mais fascinante foi o momento em que acedeu a responder a três questões do público, sobre as quais se alongou com tais graça e agilidade de raciocínio apenas ao alcance das pessoas verdadeiramente ricas interiormente. Falou sem pessimismo sobre a integração de novas tecnologias nos hábitos de leitura, e no seu próprio trabalho desde sempre; referiu-se ao projecto em torno de Moby Dick, o seu livro preferido, experiência à qual não mais regressará; por último e a pretexto do pequeno livro Night Life, falou de sonhos e dessa linguagem que cada um interpreta à sua maneira. Respostas sempre longas e naquela cadência suave e muito própria que nos habituámos a sentir como música.

Alberto Garcia-Alix

O principal mérito da exposição de fotografias de Alberto Garcia-Alix que o Estoril Film Festival mostrou num dos seus espaços, é o de nos fazer procurar outras imagens do madrileno. A sequência era muito curta e demasiado heterogénea, o que enfraquece as primeiras impressões. Melhor serviço teria sido o de estreitar o âmbito das fotografias apresentadas, ou então de aumentar significativamente o seu número. Também não é abrangente a oferta proporcionada pela Internet, mas é certo que Garcia-Alix é um grande fotógrafo e que fascinantes são vários dos universos que o têm interessado. Ficam dois exemplos do que encontrei a seguir ao Estoril. De alto a baixo.




11.13.2010

Je vous salue, Marie




















Vou procurar fazer-me entender a mim próprio. E a quente, directo para o papel, porque estas ideias escapam como enguias. Face a determinados fenómenos o melhor é não fazer perguntas. A beleza é um deles; o mistério da vida outro. Tópicos dominantes no cinema de Godard (sobretudo o primeiro) desde os seus primeiros filmes. O homem, Jean-Luc, idealiza a beleza natural das coisas (um plano exprime o desejo de fixar alguma coisa) também como forma de resistência (à vulgarização das imagens e da interpretação do mundo). O homem, Godard, contrapõe um discurso fragmentado e culto à evidência dos corpos, aliás de tudo o que existe em estado natural (formas que irradiam e luzes que dão forma). Penso que Godard teve sempre presente a orfandade dos sentidos a que o cinema não pode apelar, e que por paradoxal que seja talvez desejasse prescindir por vezes daquele aparentemente mais importante em função dos outros. O turbilhão de ideias que Godard projecta no ecrã com uma arrumação muito pessoal pode ser a tentativa (utópica) de trazer o tacto para a experiência de ver um filme. A hipotética proposta de um cinema pelo qual avançamos tacteando com os sentidos disponíveis. Rico em signos de clara beleza (os planos, o excertos musicais, as citações), cuja hierarquia e consequente significação permanentemente se refazem. A fulgurante expressão dos elementos não deveria fazer-nos procurar sentidos obscuros. É preciso desaprender de ver para poder abrir os olhos para o fluxo godardiano, aceitando que o puzzle nunca se completa. Se ao menos pudéssemos suspender a necessidade de colocar perguntas; aceitar o mistério nem que seja por uma questão de pudor.

11.12.2010

Eu vos saúdo, Maria




















Uma amiga conta-me em sumarenta conversa, daquelas que normalmente os homens têm só entre eles e as mulheres entre elas, que fizera uma depilação quase quase total para reconquistar o namorado. Pergunto-lhe por que não total total? Responde que lhe causa impressão, que raia a pedofilia. Argumento que não, que uma mulher sem pêlos é mais da ordem virginal. E hoje, ao comprar o Público, recordo uma menina que deita por terra a minha argumentação. Eu vos saúdo, mulheres. E a vossa diversidade.

11.11.2010

You can't call it Alf


























Paulo Bento disse que quando queria ver um espectáculo ia ao cinema. O cinema há muito que não garante o espectáculo até quando se pretende espectacular, e fazendo minhas as palavras do seleccionador confesso que quando quero espectáculo ponho a tocar um CD de metal. Do clássico power metal ao death metal melódico da actualidade. E nem preciso fixar a atenção nas narrativas épicas e sangrentas que neles se cantam, a energia contida na música é tónico suficiente. Os Grand Magus são suecos e cultivam um heavy metal revivalista que descaradamente se inspira no melhor Dio, a que se junta uma produção de qualidade onde a Suécia há vários anos se destaca. Os nórdicos têm mitologia fecunda e desmultiplicam-se em bandas de um perfeccionismo sem comparação. É claro que pouco acrescentam ao que vinha de trás, antes prolongam o espírito de uma música empolgante que oferece a virtualidade da fantasia junto com a materialidade do som e da voz. Não dá para ouvir sempre, mas de vez em quando é mesmo o espectáculo que apetece.

11.10.2010

Trip de narizes



Entrevista aqui.

Música calada
















Chamar um filme de melodrama é atribuir-lhe classificação que tende a colocá-lo fora do nosso tempo. É ainda um género infelizmente em desuso pelo que mesmo recordando a distante recepção a que foi sujeito por ocasião da estreia em Portugal, tinha curiosidade de ver este The Painted Veil (2006) e mais curioso fiquei após ter descoberto o filme anterior de John Curran, Desencontros / We Don't Live Here Anymore (2004). The Painted Veil é um objecto tão discreto que quase não se dá por ele. Curran mostra-se próximo da sensibilidade de Pollack e Minghella mas é mais envergonhado que eles. Parece pedir licença para meter cada plano da paisagem asiática que serve de fundo à maior parte da história, e a intensidade da relação do casal protagonista é gerida com extremo pudor. Os sentimentos são permanentemente calados, até quando de um casamento de conveniência manchado pela traição (e consequente ressentimento nunca exteriorizado com veemência), nasce o amor e o dever que o acompanha: o «estado de graça» a que se refere a personagem de uma madre superiora. The Painted Veil é na essência um melodrama que termina onde os outros começam. Quando o sentimento é mútuo. E isso é também bonito de ver.

11.09.2010

Uma sinfonia das trevas

Dois pontas de lança

Pequenino fio de Ariadne

Um casamento banal

Um perdedor
















Paulo Sérgio é um perdedor. Custa ter de o admitir mas torna-se cada vez mais evidente (o falhanço nos momentos cruciais). E a excepção, também no seu caso, confirma a regra. Quando perdeu o 5º lugar para o Marítimo na época passada, em confronto directo disputado em Guimarães, o já então anunciado futuro treinador do Sporting deixou-me um amargo de boca próximo daquilo que teria sido o sabor de um desaire protagonizado pelo meu clube (sentia-o já treinador do Sporting embora não exercesse ainda essas funções).
Paulo Sérgio parece ser homem de carácter, sério no trabalho e justo na avaliação do desempenho da equipa. Falta saber corresponder nos momentos decisivos, saber reagir quando o rumo dos acontecimentos se altera desfavoravelmente. Saber gerir aquilo que corre bem é o mínimo que se exige no desempenho de quaisquer funções. Paulo Sérgio tem falhado no resto. Quando a equipa desaba perante os seus olhos, ele mostra-se incapaz de promover a recuperação da coesão anterior. A excepção deu-se com o triunfo improvável no terreno do Brondby que permitiu o acesso à Liga Europa. De resto o Sporting manifesta sempre enormes dificuldades frente a equipas que vão além da mediocridade.
Na minha opinião, e tendo em conta as incidências de ambos os jogos, perder 2-3 frente ao Guimarães é tão comprometedor como ser goleado no Dragão (ou mais até). Todos os jogos têm momentos decisivos e Paulo Sérgio tem falhado grande parte deles por adiar as suas decisões. Voltemos ao jogo com o Guimarães que deitou pelo chão quaisquer expectativas que eu alimentasse em relação ao nosso treinador. Maniche é expulso e o Sporting, que já havia baixado de rendimento na segunda parte, recua no terreno. O Guimarães faz o 2-1 logo após a entrada de Zapater que substituiu o nosso melhor jogador até então, Jaime Valdés. O que faz Paulo Sérgio? No banco estavam os avançados Saleiro e Yannick (é o que temos), e o treinador pura e simplesmente não reage. O Guimarães anula a desvantagem e pouco depois passa para a frente no marcador, e só então Paulo Sérgio faz entrar Saleiro (nos descontos...). A equipa diminuída com a expulsão do seu jogador mais experiente assiste à passividade do líder. E os homens no banco, o que terão pensado ao ver que o treinador preferiu qualquer sorte a ter de lançá-los no jogo?
Quando o Guimarães marca e está a jogar contra dez, Paulo Sérgio pensou uma vez mais pequeno. Procurou não perder o jogo em vez de procurar alargar a vantagem. Isto para mim define com clareza a diferença entre um vencedor e um perdedor. A época está perdida. Espera-nos mais do mesmo. Ficar atrás do Porto, do Benfica, do Braga ou do Guimarães. Paulo Sérgio acabará também ele a disputar (de novo, quem sabe) o 5º lugar... Oxalá o calendário corra depressa e que sejamos poupados a demasiados embaraços. Que saibamos mostrar nas derrotas outro espírito competitivo. Outra dignidade.

11.08.2010

Trois couleurs: BLACK




A parte da Magnani




















Em encontro com o público do Estoril Film Festival que veio a terminar no mesmo tempo da vitória expressiva do Porto no Dragão (acompanhada via sms), Abbas Kiarostami falou com fecundidade sobre o seu trabalho e sobre o filme que tínhamos acabado de ver: Copie Conforme, espécie de «identificação de um casal» que várias vezes troca as voltas ao espectador que se procura orientar por entre o seu aparente naturalismo que veste uma construção fortemente conceptual. O momento que me interessa realçar de toda a conversa é o que diz respeito à minha relação com o filme. Kiarostami contou que após as primeiras leituras que fizera do argumento, Juliette Binoche lhe telefonara porque não sabia como se relacionar com a sua personagem, que lhe parecia uma mulher neurótica e imprevisível. Perguntou então ao realizador se devia adoptar por modelo a actriz Anna Magnani ou outra, ao que ele respondeu que devia sim procurar dentro dela as partes que se adequariam a cada situação. Copie Conforme é o filme mais sensual de Kiarostami, ou talvez aquele onde a sensualidade melhor encaixa nos padrões ocidentais. A sensualidade de Binoche (uma antiquária francesa e morar em Itália) é muito terra a terra, mas a verdade é que não consegui tirar os olhos do seu decote durante todo o filme, e muito por conta dos enquadramentos de Kiarostami. Se cheguei a pensar que aquela particularidade da focagem era de minha obstinada responsabilidade, quando a personagem de Binoche conta ao homem que entrara numa igreja apenas para se libertar do sutiã que a incomodava, dei por amnestiada a pequena perversão. Abbas Kiarostami, grande malandro, conseguiu ter a Binoche e também a parte da Magnani (originais e cópias uma da outra).

Manuel Cintra Ferreira (1942-2010)
















The Searchers (John Ford, 1956)

Quando comecei a escrever pequenos textos de cinema para o jornal Combate do PSR, Manuel Cintra Ferreira era já pessoa respeitada entre os críticos da paróquia, e mais importante que isso reunia a simpatia geral. Passei a ir regularmente aos visionamentos de imprensa, e o Manuel comparecia a todos eles. Eu com o entusiasmo dos iniciados, ele como se estivesse a dar também os primeiros passos numa produção intelectual que tinha por base a grande paixão da sua vida (a certa altura fiquei a saber que Cintra Ferreira no dia do seu casamento, e imediatamente depois da cerimónia, pegou na mulher e foram ao cinema). O Manuel Cintra Ferreira foi das pessoas que melhor me recebeu; não era de manter grandes conversas, até por causa do seu problema de audição, mas sorria sempre e largava duas ou três frases sobre os filmes que recentemente mais o tinham entusiasmado (nunca faltava assunto porque o Manuel via tudo com agrado, e como li agora com justeza «gostava de gostar dos filmes»). A imagem que dele guardo neste momento já com saudade, é o do arranque das projecções, o apagar das luzes na sala, o silêncio que ficava no ar apenas interrompido pelo ligeiro ruído do aparelho de audição que Cintra Ferreira acabava de ligar. Ouvíamos aqueles barulhinhos e sabíamos que era o Manuel que estava naquele lugar.

11.05.2010

Cinema em linha recta
















A Rede Social de David Fincher termina com a imagem de Mark Zuckerberg, que carrega repetidas vezes no botão 'refresh' em cima da página do Facebook da ex-namorada, por quem fora despachado no início do filme. Momento de frustração que ilustra bem o sentimento que se pode apoderar do espectador. É que os primeiros 10 minutos de A Rede Social são iguais aos segundos 10 minutos, que são iguais aos terceiros, quartos, sétimos, oitavos 10 minutos, e sempre assim até ao fim. Ou de como um fenónemo sem grande interesse deu origem a um objecto monótono e superficial.

11.04.2010

Tigerlady


















Ira Chernova. Uma Asia Argento russa a viver em Amesterdão.
Tremendo modelo, estupenda fotógrafa.

Autofagia



O conselho escuta-se quase no princípio e da boca de Jimmy Conway (De Niro). As duas coisas mais importantes na vida: nunca entregar os amigos e manter a boca sempre fechada. E logo entramos no mundo ideal da máfia pelo olhar de Henry Hill (Ray Liotta). O fascínio dele faz-se nosso também. Goodfellas é um filme sobre a família. Mas aquela que escolhemos, onde nos desejamos ver integrados. Só que em qualquer família as pessoas começam por comer umas com as outras e acabam a devorar-se umas às outras. As famílias tendem a ser autofágicas.

11.03.2010

Mudar o pêlo


























Nos idos de 80 do século passado, fase áurea das rádios piratas, que por rebeldia ou incúria atropelavam frequências designadas, tive um programa semanal intitulado O Uivo das Feras, que abria sempre com os segundos iniciais da «howling mix» de She Sells Sanctuary, dos The Cult (comprado na Bimotor das Amoreiras). Os tempos mudaram, as piratarias radiofónicas há muito estão extintas, e as feras são também já outras (ou não chegaram nunca a ir-se embora, limitando-se a mudar de pêlo).

Estúpido e genial



As melhores coisas vêm a três.

Esta merda é boa e vicia

Pura gasolina, sem chumbo



Escutado na Radar há alguns minutos. Enchi o depósito.

11.02.2010

Apresenta as amigas





















(douglas gordon)


Tatuagens
por João Pereira Coutinho

Cheguei hoje à triste conclusão que sou o último exemplar da espécie "Homo sapiens" que não tem uma tatuagem para mostrar. Amigos, amigas, sobretudo amigas, todos eles ostentam iconografia diversa em diversas partes do corpo. Preferências pelo mundo animal, bélico e satânico.

Eu, pelo contrário, sou uma tela em branco, coberto apenas por penugem hominídea, a fatal celulite e algumas cicatrizes que trouxe do Vietnã. Como explicar essa epidemia de tatuagens que transforma o meu mundo num retorno à pré-história, com os meus amigos feitos pinturas rupestres e eu, um dinossauro em extinção?

Um nome possível é Norbert Elias (1897-1990), o grande historiador da França pré-revolucionária, que nas obras sobre a "sociedade da corte" disserta com talento inultrapassável sobre a forma como a nobreza sempre se procurou distinguir da populaça circundante.

Conta Elias, sobretudo em "O Processo Civilizacional", que as elites procuravam essa distinção pela busca de novos e refinados símbolos (nos adereços, no vestuário, nos comportamentos). Só depois a plebe corria atrás, procurando imitar e, pela imitação, "nobilitando-se". A ascensão social fazia-se por imitação social, ou seja, por imitação "superior".

As tatuagens representam uma pequena revolução civilizacional. Pela primeira vez em toda a história social do Ocidente, a classe média procura distinguir-se por imitação "inferior": se os nossos antepassados olhavam para cima, os nossos contemporâneos olham para baixo. Para as marcas tangíveis, carnais, inapagáveis de roqueiros ou marginais, como se essa descida fosse uma forma paradoxal de ascensão.

O problema desses movimentos miméticos é que eles acabam sempre por atingir estágios de estagnação, onde é necessário encontrar novas marcas distintivas - não é por acaso, escreve Elias, que Paris se foi refinando continuamente: uma vez imitada pela plebe, a nobreza partia em busca de novos códigos exclusivos que por sua vez acabariam por ser imitados, e abandonados, e trocados por outros. "Ad infinitum".

Hoje, a imitação "inferior" bateu contra o mesmo tipo de parede - e a tatuagem, que era a exceção na paisagem, passou a ser regra. Difícil não é ter ou ver uma tatuagem. Difícil é não ter ou não ver.

O que significa que, mais cedo ou mais tarde, não será de excluir que os meus amigos comecem a aparecer com ossos no nariz, em imitação de uma qualquer tribo primitiva e, de preferência, assaz remota e assaz exclusiva.

Uma civilização que já olhou para cima e para baixo para se "nobilitar" socialmente, talvez encontre novos caminhos de distinção olhando para longe.

s/t


























Jan Scholz (da série expecting to fly).

Tipos clássicos




















Duas versões de um mesmo filme.

10.30.2010

A voz da dona






















[imagens retiradas dos filmes Ken Park e Novo]

10.29.2010

Irreversível


























A primeira capa repulsiva (sou um menino).

10.27.2010

Era uma vez...


























... um tempo de multinacionais arrojadas e de bandas maradas que refreavam por vezes o seu experimentalismo a tombar para o caótico. Houdini é dois anos mais novo que Nevermind e leio que os Melvins não voltaram a facilitar as coisas como aqui. Leio, acredito e serei prudente na exploração da discografia do grupo. Por outro lado, os ecos que Houdini devolve ('early' Sonic Youth, Nirvana 'basslines', doom 'guitars', quadros mentais à Gun Club e à Pere Ubu, turbinas stoner rock e marcadores grunge) dão-me confiança.

Bang


10.26.2010

Frankenslayer


























Quis a ordem natural e inversa das coisas que os Slayer viessem a receber influências do nu metal, género que na segunda metade da década de 90 do século XX se havia inspirado no som da banda de Araya, King, Hanneman e Lombardo. Ladrão que amputa Frankenstein não tem contas a prestar. A edição de luxo do álbum dos Slayer de 2009, World Painted Blood, traz um segundo disco onde encontramos a curta-metragem de animação Playing With Dools (título de uma das músicas), realizada por Mark Brooks, que conta a história de um assassino em série que constrói um corpo de mulher com os pedaços das suas vítimas (mais ou menos o que se passava no matricial O Silêncio dos Inocentes). A curta usa a cada quadro excertos de todas as músicas de World Painted Blood, que coincidem com manifestações de violência extrema, mas não é particularmente memorável. Mais importante que o objecto é o (seu) conceito de apropriação e reconfiguração que liga com o episódio de influências de duplo sentido entre os soberanos Slayer e as bandas norte-americanas de metal que pilharam várias correntes para se agradarem a elas próprias e aos seus seguidores. A identidade musical dos Slayer é forte o suficiente para imperar sobre os remendos modernos que experimenta no lombo, e World Painted Blood é mesmo considerado dos discos mais vitais do grupo nos últimos anos. Um quase puro-sangue.

Longe















Tem algum filme preferido, ou algum de que se arrependa?
Ah, não, não renego nenhum dos filmes que fiz. Todos eles foram experiências necessárias, e como nunca os revi não tenho um ponto de vista crítico sobre eles. Mas é verdade que tenho uma ternura particular por "Longe", talvez porque o rodámos um pouco como se estivéssemos a fazer gazeta. Rodei-o em Tânger, em video digital com uma equipa muito reduzida, de um modo muito livre, pelas ruas. É um filme de uma grande liberdade.


[André Téchiné: o autor que queria fazer encomendas, Ípsilon, 08.10.10]

Longe (2001) era obra que não conhecia, até ontem. Já percebi que gosto de todos os filmes de André Téchiné, e dos mais recentes e menos consensuais também. Porquê? Porque o grande tema do francês são as suas personagens. É grande a atenção que lhes dedica e que se revela em detalhes frequentes. Qualquer espectador que se interesse pela natureza das pessoas sente-se atraído pelo cinema do realizador. Ele torna-nos íntimos das personagens, não obstante o seu diferente protagonismo. E depois há claros laços que se estabelecem no interior da obra do francês, que apresenta motivos e actores recorrentes. Se a geografia de Longe (a labiríntica Tânger) remete directamente para Os Tempos que Mudam (2004), as suas figuras, as personagens que são sempre o mais relevante, sugerem a variação muito livre de Juncos Silvestres (1994), para a qual as presenças de Gaël Morel e Stéphane Rideau são significativas. Se resulta menos pujante talvez seja porque dá a impressão de se ir fazendo do nada dia após dia (independentemente do que se inscreve na sua estrutura, o assinalar de cada novo dia na acção do filme), e os efeitos do improviso no momento serem distintos do impacte do resultado acumulado. A liberdade tem sempre um preço, o que no caso de Longe, e como se prova pela citação da entrevista, é assumido de consciência.

10.25.2010

10.18.2010

Sans regrets


















Empatizar com um filme significa irmo-nos ligando a ele de vez em quando. Acreditar num filme implica tomá-lo pelo seu todo. O todo nada tem que ver com a soma das partes quando é de cinema que se trata. Mas explicar porque um filme finalmente não funciona pode assumir contornos de exercício de contabilidade. Já se percebeu.

Algumas músicas não têm idade, mas nós temos.

















Lloyd Cole Small Ensemble, Sintra Misty, 17.10.10.

10.15.2010

Antes do até sempre (a liberdade)
















Há um amigo que se prepara para cruzar de novo o Atlântico de quem me quero despedir aqui no blogue também para o caso de não nos vermos esta noite como combinado. Esse amigo gosta muito dos filmes de Shohei Imamura (1926-2006), de quem vi esta semana o rebelde e vivificante Dr. Fígado (1998). O que há de maravilhoso no penúltimo filme de Imamura, à semelhança aliás de outras obras de grandes cineastas em idade avançada gozando de toda a liberdade de não se sentirem na obrigação de provar nada a ninguém, é a capacidade de se fixar naquilo de verdadeiramente importante que a vida proporciona e que levamos connosco quando lhe dizemos adeus. Falo do vício, ou de todos os vícios. Passar pela vida sem cultivar algumas obsessões é perda de tempo. Por muito que nos digam que é na abstinência que o homem se descobre verdadeiramente livre, eu acho cada vez mais que é pela via dos prazeres que a nossa individualidade melhor se expressa: e exprimimo-nos significa (até melhor definição) sermos livres. Bebida, comida, mulher(es), morfina (Nicotin, valium, vicodim, marijuana, ecstasy and alcohol... C-c-c-c-c-cocaine!), ciência, futebol, artes, o que quisermos, importa é querermos muito, e com a paixão dos fortes. Que a paixão de Imamura esteja sempre contigo, caro amigo. E até Williamsburg.

Ben Affleck não é Michael Mann














Heat (1995), provável obra-prima.



















The Town (2010), modesto sucedâneo.


Mas gostava de ser.

10.14.2010

We create hell... You unleash it.























Mais um prego para o caixão (ou uma acha para a fogueira).

10.13.2010

Dr. Mikael and Mr. Akerfeldt


























A principal originalidade dos Opeth reside na dupla personalidade vocal do seu líder Mikael Akerfeldt (também guitarrista e dos que levam as unhas às cordas como manda a escola clássica). Akerfeldt tem cara de anjo, daí que seja maior a surpresa quando o ouvimos terraplanar as suas próprias composições com o canto gutural poderosíssimo. Os Opeth arriscaram levar este paradoxo ao limite quando entraram em estúdio para gravar dois álbuns de seguida: um mais pesado, Deliverance, apesar de incorporar os habituais apontamentos folk, jazz e prog rock; outro mais pausado, Damnation, que raras vezes intensifica a carga dos seus decibéis. A experiência torna-se verdadeiramente desconcertante quando assistimos a um concerto da banda sueca, por exemplo aquele que consta do DVD Lamentations onde os Opeth decidiram manter clara a separação da sua dupla natureza, tocando uma primeira hora a médias-luzes e regressando depois para mandar a casa abaixo. Quando Mikael Akerfeldt passa com naturalidade de um registo vocal melodioso (e se tem bonita voz, um pouco à semelhança de Roland Orzabal dos Tears for Fears) para o extremo oposto (o da besta sem nome), podemos descrer do segundo, negar o "encosto", não mais querer vê-los ao vivo e ficar apenas com aquilo que os discos sugerem. O anjo Mikael, assombrado, é por vezes um demónio demasiado real. E nos discos a presença do demónio é indispensável.

10.12.2010

Say what



O (A) Pitchfork também se engana.

Infidelidades ao terceiro disco


























Ela canta com outro. Ele canta com outras. Outras vezes cantam separados.
A boa notícia é que o disco não sofre com isto.

Um Téchiné


















É possível que os últimos grandes filmes de André Téchiné tenham sido aqueles que, na década de 90, tinham por dupla de protagonistas Catherine Deneuve e Daniel Auteuil: refiro-me a Ma Saison Préférée (1993) e a Les Voleurs (1996). Em todo o caso, um Téchiné onde reconheçamos o cinema do autor, André Téchiné, é já um objecto significativamente relevante, nos maiores e menores gestos. Dou um exemplo de cada partindo do seu mais recente filme, La Fille do RER * (2009). Trata-se de uma jovem que habita os subúrbios de Paris, onde vive com a sua mãe (o constante regresso de Deneuve ao cinema de Téchiné). Retrato de mulher quase adulta, que adia assumir o seu papel no mundo com receio de que seja pouco. Como a própria diz, de que "não seja amada". Surge um rapaz que se interessa por ela e quando os dois começam a comunicar pela Internet, e com o recurso a uma webcam, há um momento particularmente luminoso, talvez o primeiro deste filme, que passo a descrever. Uma cena banalíssima que se transforma quando Téchiné abandona o recurso (algo pop) de nos dar a ver o que os jovens escrevem, impresso no ecrã de cinema em letras coloridas de diferentes tamanhos, para a comunicação passar a fazer-se exclusiva e demoradamente através dos rostos de ambos, o que origina belos instantes de suspensão erótica que dependem desse detalhe apenas (o facto de o espectador fazer prolongar aquilo que deixou de ler na tela e que passou a mover-se de acordo com a sua imaginação).
O grande gesto que também ele resulta bastante significativo neste filme de Téchiné, encontramo-lo próximo do final. A jovem protagonista (e é mesmo Émilie Dequenne, a Rosetta dos irmãos Dardenne) em perda, virá a tirar perverso partido da tensão gerada na sociedade francesa com o aumento dos índices de violência dirigida às minorias religiosas, para se dizer ela própria vítima de um ataque anti-semita, que fabricara na sua cabeça e que marcara no seu corpo. Após confessar-se culpada da mentira, Jeanne irá permanecer a noite numa cela de polícia de paredes tão "anónimas" quanto ela se sente, e completamente sozinha. André Téchiné monta esta cena, em paralelo, com a eloquente cerimónia do Bar Mitzvá que assinala a entrada na idade adulta de um outro jovem do seu filme. Agora sem sequer recorrer a uma única palavra, Téchiné parece avançar com a chave de leitura de La Fille du RER (sigla que designa o comboio que cruza Paris na direcção dos subúrbios).
É pelos rituais familiares, religiosos e culturais que o Homem adquire um sentido de pertença, e à falta de melhores processos de construção da identidade mais ou menos individualizada, talvez seja inteligente reconhecer-lhes valor. Aquilo que somos começa sempre de onde é que vimos, e quando fugimos a esta evidência, de tanto lhe fugirmos, é a ela que de novo vamos dar. La Fille du RER só podia ter a assinatura de André Téchiné.

* repete amanhã às 22h00 na Cinemateca.

10.11.2010

Menina sabão

10.08.2010

Most welcome


10.07.2010

Doomed always


























Há condenações que nunca vêm sós, e que os pares também não esgotam.
Condenações que não acabam e que fazem arder de prazer.
Quem arde por gosto também dança (ao menos com a cabeça).

Aplauso


























Nobel 2010.

10.06.2010

Dos bons selvagens

Uma daquelas frases que matam com a lucidez, atribuída ao jornalista e dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, diz isto: "dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro". Genericamente, e se as vazarmos do cinismo, são palavras que vestem que nem luva o último filme de Brillante Mendoza. De que outra coisa Lola trata que não do engenho humano, centrado aqui em duas avós que tal como milheres de outras pessoas sobrevivem como podem, junto das famílias, nas ruas de Manila, cenário de total miséria acossada permanentemente por valentes chuvas que deixam parte da cidade quase submersa. As idosas são respectivamente a avó do assassino e a da sua vítima, e irão estabelecer um acordo monetário só delas que permite salvar da condenação o neto da primeira. O pragmatismo não chega a ser chocante, já que Mendoza prepara o terreno com vagar. Lola tem o ritmo das octagenárias senhoras. Chega a aborrecer de tão coerente que é. Aprendemos com elas que naquela sociedade, tratando-se de gente tão pobre, não faz sentido pedir outra noção de justiça. O dinheiro é prioritário sobretudo para que tem falta dele. A dívida gerada com a morte do neto de uma das "lolas" (que na língua local, repleta de estrangeirismos, significa"avó" ou "avózinha"), dívida que se prende com o amor roubado com o roubo da vida, será esquecida mediante a entrega do bem precioso: um arranjinho de gente sábia.
Debruçando-me agora sobre elementos específicos da linguagem cinematográfica, devo dizer que Brillante Mendoza tira o maior partido do realismo extremo dos locais onde filma, com a mobilidade que lhe reconhecemos de títulos anteriores e a mesma propensão para a coreografia, o que não impede que fiquem por resolver variadas elipses que parecem sempre atabalhoadas, assim como o sublinhado pela música dos instantes significativos de Lola ganharia em ser menos denunciado. Resumindo, para concluir: um bom filme com o qual nunca me cheguei verdadeiramente a envolver.

Envolvi-me, isso sim, com A History of Mutual Respect, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, a curta-metragem que abre para Lola. Abrantes é um discípulo algo camaleónico do cinema experimental da década de 70 e seus sucedâneos, que parece citar Werner Herzog num instante, depois muda-se para o carácter abstracto de algum Gus Van Sant, para logo em seguida meter-se por trilhos percorridos pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul. Os aspectos mais fortes de A History of Mutual Respect decorrem da sua pansexualidade dirigida aos elementos quer naturais quer humanos. O magnetismo animal do próprio Gabriel Abrantes (actor, argumentista, realizador), resulta da convergência da androginia com ingenuidade poseur e predação lúbrica. Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt experimentam e seduzem. Primeiro hipnotizam com a torrencialidade "extática" das Cataratas do Iguaçu, antes de se aventurarem por demais liberdades poéticas. A History of Mutual Respect é um objecto que se abre, aliás, para originais e surpreendentes figurações do desejo.

10.04.2010

Sérgio

Os separadores da Radar que usam a voz de António Sérgio são a mais bonita homenagem que lhe continuam a prestar.

Próxima paragem


























(o da capa shyamalânica)

Pontes e discos

O João e o Jorge, patrões respectivamente da Carbono e da Louie Louie em Lisboa, lá estavam sozinhos à abertura das lojas. Passei em ambas e comprovei o exemplo: um funcionário e montes de discos. Depois segui para o trabalho.

10.01.2010

A mesma coisa




















O metal continua a tratar de mim, e eu dele. Vou ouvindo outras músicas e as mesmas músicas. Para o caso de já se terem perguntado. Opeeeeeeeeeeeth.

Sintra Misty

















O Sintra Misty é um festival de música que tem lugar dentro de duas semanas (dias 14, 15 e 16) no espaço do Olga Cadaval, com concertos de tarde e à noite. Colaborei com o Sintra Misty ao nível da programação do Palco Principal. Já o Palco Optimus Discos foi programado pelo Henrique Amaro e tem várias outras coisas que vou querer também espreitar. Passarei muitas horas em Sintra nesse fim-de-semana, e espero que vocês passem algumas também. Bom festival.

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