12.06.2010

Camonianas














Dois amigos cruzam-se à saída do restaurante onde ambos almoçaram. Um mostra vaidoso a tatuagem feita na semana anterior. Outro fala da paixão que sente pela namorada 15 anos mais nova que ele. E eu meto-me pelo mar adentro.

Carne alentejana

12.03.2010

Still

12.02.2010

Asas do desejo





















Isabeli Fontana, modelo brasileira nascida no ano da graça de 1983.

"Pornopopéia" das nossas vidas


























«Tô envelhecendo, cara, de verdade. Não foi só ontem durante a viagem de ácido, não. Um velho sem um pingo de sabedoria na cabeça, é no que vou me transformando com espantosa velocidade. Já a Lia continua lucidérrima e ainda assaz apetecível do alto dos seus quarenta anos. A bunda cresceu um pouco, os peitos ficaram mais caidinhos, mas nada grave. Se ela não me enchesse tanto o saco com cobranças e recriminações de ordem prática, além de outras sentimentais, a gente treparia bem mais e melhor. Mas você conhece alguma mulher capaz de fazer um simples cálculo de custo-benefício desses? "Não vou mais encher o saco do Zeca com cobranças e recriminações. Em compensação, vamos trepar muito mais e melhor." Magina. Nunca existiu semelhante ser na face da Terra. Algumas patroas acabam descobrindo isso tarde demais, quando o maridão já caiu fora de casa atraído por uma xota 25 anos mais jovem. O mundo é cruel, meu chapa. Mas vende todo tipo de anestesia a quem puder pagar por isso.»


O Brasil de Reinaldo Moraes bate-nos em linguagem e em sacanagem.

11.30.2010

This charming man




















Não façam como eu e levem alguém com quem possam namorar durante o concerto. As piadas são por conta da casa.
Garantido o humor o resto é da vossa competência. Sejam gloriosos como o espectáculo que vos aguarda.

11.29.2010

Estar além






Psicadelismo e pilosidades. Hão-de fazer-vos crescer cabelos nalgum sítio.

Danny Trejo mi hermano



À consideração dos programadores do doclisboa.

A pequeníssima América















Filmes sem sexo podem ser bons filmes também (glosando FJV).

11.26.2010

O herói ameaçado


















The American não é um filme complicado. É até bastante simples. De uma simplicidade de motivos e de processos que por vezes chega a parecer ingénuo. Apela a doses generosas de romantismo e a dosagem mínima de cinismo. E é principalmente uma homenagem a um determinado modelo de herói no cinema que o realizador Anton Corbijn filma como espécie em risco iminente de extinção. The American opera como uma despedida. Corbijn projecta-se na figura de um assassino profissional cuja vida corre perigo. Ele evade-se das paisagens geladas da Suécia até um vilarejo italiano para se esconder de quem pretende matá-lo. Os dias passam e observamos a perícia de Jack no aperfeiçoamento de armas e em balística; vêmo-lo manter conversas mais ou menos metafísicas com o padre da povoação; testemunhamos as suas visitas a um bordel ("de cinema") onde se deita sempre com a mesma mulher.
Tudo isto são lugares-comuns que Anton Corbijn recupera, colocando-se o próprio realizador no centro desta fantasia romântica e nostálgica. O assassino interpretado por George Clooney (que no filme troca o Nespresso pelo clássico café americano em copo alto) diz ser fotógrafo a trabalhar para publicações que lhe pedem retratos da natureza e de arquitectura. O Corbijn fotógrafo (há muitos anos a actividade que o notabilizou) finge-se passar por aquilo que é. Antes de se despedir – com a imagem da borboleta que transporta a alma do seu herói, tal como no filme anterior do holandês o espírito de Ian Curtis subia aos céus envolto pelas cinzas saídas de uma chaminé industrial – terá ainda tempo para uma derradeira tarefa e um último devaneio amoroso.
Nos seus frequentes desequilíbrios, uma cena lograda ali (sempre que Violante Placido enche o ecrã Corbijn viaja numa carnalidade que parece Hitchcock actualizado – ou será Antonioni?; até porque The American é percorrido por um arquétipo de mulher que quase torna indistintas as três figuras femininas de relevo), outros momentos escusados amiúde (basicamente tudo o que suscita pretender dar espessura psicológica ao protagonista; e sendo Clooney indissociável deste projecto ocorre-me que outras estrelas poderiam cumprir melhor o seu papel), The American faz o seu caminho. Há a etapa Leone (citação directa pelo recurso às imagens de Once Upon a Time in the West), o instante bergmaniano (juro que um outro assassino, quando se aproxima de costas ou até de frente, lembra Max von Sydon que jogava xadrez com "a morte" em O Sétimo Selo), também a sensação de vazio existencial que pelo modo como são tratados os lugares e os silêncios remete para a obra de mestre Antonioni, na reconfiguração de um certo tipo de cinema para sempre perdido. Foi boa a despedida, pá.

11.22.2010

"Pornopopéia", de Reinaldo Moraes


























«"Olha aqui, se aparecer um gabiru na minha vida de novo, não reclama. Culpa sua!"
E socou mais uma vez o telefone no gancho.
Culpa minha? Ela abre as pernas, vem um lá, enfia o pau na buceta dela, e a culpa é minha?
Não seria a primeira vez, de fato, como a própria patroa me confessou, noite dessas, depois de duas garrafas de vinho e uma bomba compartilhadas, numa noite sem Pedrinho nem empregada. Fiz o número do corno magoado, mas conformado. É o que a mulherada prefere. Na real me deu foi um puta tesão por ela. Caí matando na véia. Ela ter dado pra outro cara reinstituiu a sacanagem na parada. Bela trepada, amigo, nem parecia conjugal. Chupei o cu dela, procê ter uma idéia. Depois, fumando um beque na cama, pedi mais detalhes da traição, a ver se me animava a dar uma segundinha. Acho que é a tal volúpia do corno que tanto falam por aí. Ela jurou, em todo caso, que o rolo já tinha acabado fazia mais de um ano. O cara era sociólogo como ela, só que do Rio. Tinham se conhecido num fórum esquerdofrênico em Porto Alegre. Deve ser um desses barbudinhos míopes que apóiam as FARC, o Chávez, Fidel, Evo Morales, Heloísa Helena e só ouve samba de raiz nas gafieiras de classe média providas de um número suficiente de negros para parecerem populares. A Lia disse que eu andava tão desatento com ela que não saquei nada, meses a fio. Mas não era verdade. Eu tinha notado que ela estava indo demais pro Rio pra simpósio, grupo de estudos, projeto de pesquisa na Federal, visitas à Clara, irmã mais velha dela que mora lá e com quem ela nunca se deu muito bem. Que porra eu devia ter feito? Proibir as viagens dela, que me deixavam inestimáveis fins de semana e feriados livres pra zoar à vontade por dois, três dias, às vezes uma semana inteira? Comprar gabardine, chapéu diplomata e ray-ban pra seguir a piranha pelo Rio de Janeiro com uma câmera indiscreta na mão? Só fiquei aperreado de saber de tudo post-facto – pós-coito, no caso. Que graça tem ser corno e não saber na hora? Perguntei se o pau do carioca era maior ou menor que o meu. A Lia me mandou catar coquinho e não respondeu. Devia ser menor. Se fosse maior, ela teria dito pra me sacanear ou dado um sorrisinho incontornável.
E agora ela vinha com esse papo de "se aparecer alguém na minha vida, não reclama". Vá se fuder – na USP, na UFRJ, na FGV, no CEBRAP, na PQP, onde ela quiser. Vou mandar já um imeio rodrigueano pra Lia: "Perdoa-me por me traires." Pronto, mandei. Mais uma que eu devo ao Nelsão.
E vamos ao que interessa: cafunguelê, pega no bamba, trago no Jack, e foda-se a mula manca.
Sabe que tô achando esse pó do Miro de fato melhorzinho que a média? Soubesse, tinha pegado duas petecas. Depois de todo aquele sufoco, valia a pena.
Y así pasan los dias negros y las noches blancas.
Ceci n'est pas un texte. É um filme.
Pausa pra mijar.»


1. Já não lia um romance assim, em estado de euforia, desde o livro do Mutarelli este ano editado pela Quetzal.

2. A pedido do autor foram seguidas as regras anteriores à introdução do acordo ortográfico (cara inteligente).

3. O hiperrealismo psicológico é produto de uma cabeça que não se cala; que em literatura só estanca a verborreia quando fechamos o livro. Uma cabeça igual à nossa (sem sossego).

4. Um parágrafo de cinco palavras, colocado a meio da página 23, dá a impressão de poder equivaler ao livro resumido: «Ó vida escrota do caralho.»

11.19.2010

Que animais





















Recomended if you like: High on Fire, Kylesa, Baroness, Weedeater, Black Sabbath, Motorhead, Black Flag. Exactamente.
P.S. Sobre a festa Chungaria, ontem, no Lux. Os gajos passam o Reign in Blood dos Slayer a abrir e julgam-se homenzinhos. Vêem-se umas miúdas com pinta, enroladas na pista umas às outras, mas é uma cena trendy, para meninos. O reinado do rock extremo tem de aguardar por outros como eu que subam à torre de controlo.

Começar devagar o dia



O tipo de vídeo que não desvia a atenção da música; assim só se usa a metade do cérebro que está sóbria.

11.18.2010

Cat power

















Ira (SETH ROGEN) and Daisy (AUBREY PLAZA) mid-argument on the patio.

IRA
We were supposed to go out on a date together.

DAISY
We are going out on a date. I thought so.

IRA
We’re not any more. No. Because once you fuck my roommate that kind of ends it with me.

DAISY
What are you talking about? Don’t treat me like that.

IRA
Just so you know how I’m seeing you - you’re a starfucker. You’re a girl who met a star and then fucked him and he’s not even that famous. What if a real good-looking celebrity was my roommate? What if I lived with James MacAvoy or Jude Law or something?

DAISY
I don’t know. I probably would fuck both of those people.

IRA
Don’t say that.

DAISY
I’m sorry. Lower the bar a little bit.

IRA
I can’t believe that.

DAISY
If a hot girl walked over here, naked, and was like “Do my body,” you would. You would have sex with her.

IRA
No. I’d feel really uncomfortable, and then I might ask her to a Wilco show.

DAISY
Okay, then you’re the first guy in the world that I ever met that’s like that.

IRA
I thought you were the kind of girl that would wait two months and then have sex with a guy. I didn’t think you would just--

DAISY
I’m an independent woman. I’m allowed to...fuck people.

IRA
Well, if I had known that, I would have scheduled our date a lot sooner.

DAISY
Give me a break. I don’t even know you. This is the longest conversation we’ve ever had.

Daisy walks away.

O último a rir


























Funny People começa quando um comediante de sucesso, interpretado por Adam Sandler (grande amigo do argumentista e realizador Judd Apatow), recebe a notícia de que sofre de uma variante rara de leucemia cujas hipóteses de cura são de 8%. Até dado momento pareceu-me estar a assistir a melhor filme de Apatow, uma obra incómoda e brilhante no seu sarcasmo e ao mesmo tempo celebratória do universo da «stand-up comedy», que superava os resultados de Greenberg, de Noah Baumbach, isto para falar de outro exemplo surpreendente da comédia americana em período recente. Mas depois Funny People toma fôlego, o oxigénio da parte complementar substitui-se ao anterior e prolongado efeito de asfixia, e o filme torna-se apenas divertido. Dir-se-ia que Apatow não teve a coragem de ser cruel até ao fim.

11.17.2010

Metal para helenistas


























«Still Life is one of the most beautiful albums ever made. Beautiful in terms of every attribute; Scope, Intent, Execution, Musicianship, — literally everything about Still Life is gorgeous. Even and especially Akerfeldt’s ultra-growl vocals. Opeth is sadness. Better put, Opeth is understanding the beauty that can be found in sadness. I’m grabbing at straws here, because writing any sort of objective review of this or any other of Opeth’s four albums is a Herculean task. With the exception of our very own Mr. B, I have never read a negative review of Opeth. Speaking of the Greeks…

I was trying to think of an appropriate metaphor that could help me illustrate the scope and sweep of this record. Here is what I came up with:

The Odyssey by Homer
Yeah, that is what I just wrote. Here’s why. It is not so much the lyrics, though for the Death Metal genre the lyrics are Durrell to all other band’s Bukowski. In The Odyssey you have Ulysses running around and doing stuff. Epic stuff. Musically, Opeth is an odyssey. These guys just do not let up. They kill all matter of mythical beast and pry open the eye of your typical “Cycloptic” metal fan. I’m talking to you, Mr. Korn Fan. So, roughly, that is why Still Life, and really to be fair all other Opeth Albums, are like The Odyssey. Here’s more.

In The Odyssey, Ulysses comes back from his “odyssey” and finds his wife taken with a new man (or men, depending on how you read it) and his home basically overrun by strangers. He goes through the full gamut of human emotions. Jealously, pain, betrayal, confusion, bitterness, anger, revenge, bloodlust and finally murder. Then in one of the more brutal passages in literature (especially interesting if you believe that Homer is the foundation of Western Civilization) Ulysses slaughters every single one of the interlopers. Note the similarity to Still Life. The protagonist of Still Life does basically the same thing when he returns home after a fifteen year adventure to find his love and bride-to-be, Melinda, bequeathed to another man. Check these lyrics;

Darkness reared its head
Tearing within the reeling haze
Took control, claiming my flesh
Piercing rage, perfect tantrum
Each and every one would die at my hand
Choking in warm ponds of blood
At last, weak and torn I went down
Drained from strength, flickering breath


Call it archetypal if you will, though Viking culture was pretty fond of uber-warriors returning home and kicking ass. See Holgar The Dane. I can’t tell if just before all that bloody bluster Melinda had been taken away from him, or if she was killed. No matter, either way he lost the girl. Not only does Akerfeldt paint us this horrific picture lyrically, but he does it with his throat as well. Moving from the softest of joys to the most harsh and extreme, his growl is legendary for a reason. Even when compared to what he did one album previous on the famously brutal My Arms, Your Hearse, Mikael’s vocal skills reflect new levels of sorrow and melancholy. Opeth as a band, solidified for the first time since Orchid, also goes from weepy to homicidal at the drop of a hat. Check out the 5:50 minute mark of “White Cluster.” My point is, Still Life is not only epic, it’s mythological.

Opeth really cranked it up a notch with this, their fourth release. I mean, can you think of another death metal band where the melodies get stuck in your head? No, you can’t. With the exception of their latest record, Blackwater Park, no other record can even sit on the same shelf with Still Life


[assina Jonny Lieberman no Ruthless Reviews]

Headbanger monk

Tenho um amigo cuja filha namora com um headbanger que trabalha na morgue do hospital. Já eu escolhi a via do meio.

Corpo surdo


























Static Tensions é um título que diz o mesmo que Spiral Shadow, ou seja muito pouco. É preciso quebrar os obstáculos no caminho daquilo que é essencial. O som. As coisas têm que ter um nome para serem arrumadas de alguma maneira, mas esta é música em que o som é tudo e onde as palavras significam pela intensidade das vozes que as dizem, muito mais do que por aquilo que queiram (?) exprimir. O propósito do grito é atingir-nos, fazer-nos reagir: energia que activa o comando da mente e que dispensa os grandes gestos. A reacção é um estado de consciência; o corpo mero veículo de carga ilusória.

11.15.2010

É bom sujar-se



O deus Riff não pode deixar isto passar em claro.

[Some people say (Kai-Lisa) but its (Kai–Less ah).]

Dama de ferro


























Laura Pleasants, guitarrista dos norte-americanos Kylesa (estão entre as minhas bandas do ano).
Uma lady no mais mascavado espírito rockenrole.

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