9.30.2010

O que Helmut Newton faria com esta mulher


























Tiah (Eckhardt) Delaney fotografada por Akila Berjaoui.

Arthur Penn (1922-2010)




















Realizador do infelizmente demasiado fora de circulação Night Moves (1975). O meu preferido.

[foto da rodagem]

Austeridade





















Try a different angle.

Agora bebes Grant's.

9.29.2010

Olhos de serpente


























Não chega para dizer, com palavras de Graham Greene, que "isto é (um diário) feito de ódio". Será, em alternativa, o álbum do ressentimento. Amoroso. Camané não baixa a fasquia e não nos facilita a vida. Não facilita a vida dele próprio, equilibrando-se sobre palavras mais vulgares que antes. Vocábulos comuns e correntes que se agarram aos cacos. É talvez o seu disco mais cerebral, e a coisa lá terá que ver com o conceito: Do Amor e dos Dias. É preciso descascá-lo; irei descascá-lo pacientemente para encontrar novas emoções que traga presas no fundo. A voz, séria, suspensa, serpente, desenrosca-se para nos fazer descer: lá onde é mais quente e onde dói mais.


bebi entre os teus flancos a loucura
nesta dor em que me vejo/ de nos ver quase no fim
sofrer bem sei/ mas prender-me nunca mais
de nada, nada se tira/ a nada, nada se dá
ao peito levo a rosa que trazias/ tingida pelo sangue dos teus dedos
amo-te à minha maneira/ não sei se é crime ou castigo
teus olhos sensuais/ libidinosa Marta
podes amar quem quiseres/ que em cada beijo que deres/ hás-de lembrar-te de mim
és passado sem presente
eu tenho mais que fazer/ não vou na tua cantiga
e agora quando me deito/ tu és o sonho desfeito
torcias/ contra a nossa selecção
e num bar fora de horas/ se eu chorar perdoa
lá no fundo dos copos encontramos/ e por vezes sorrimos ou choramos
a meu favor/ tenho o verde secreto dos teus olhos
o amor é o amor – e depois?!

[composição livre feita com letras de todos os fados de Do Amor e dos Dias. Palavras de: David Mourão-Ferreira, Sérgio Godinho, Frederico de Brito, Manuela de Freitas, Luís Viana, Miguel Novo, Cesário Verde, Maria Margarida Castro, Fausto Bordalo Dias e Alexandre O'Neil]

9.28.2010

Ricardo, o Enorme

O aparato visual em The Box, de Richard Kelly, é mínimo se comparado com as implicações e o seu poder especulativo (que vai da Bíblia até Sartre). Quem acredita que Inception, de Christopher Nolan, é que é o filme da temporada que melhor expande a mente de quem o vê, na minha opinião engana-se. Este The Box, que nas suas virtualidades e virtudes metafóricas pode ser o receptáculo da consciência de cada espectador, é um objecto tão repleto de insinuações morais, religiosas, filosóficas, históricas, cinematográficas e políticas que o cérebro não pára de unir as peças do enigma mesmo depois de o realizador lhe ter posto um "fim".












Richard Kelly substitui aqui a figura do anjo da morte (ou da vida; prefiro a segunda), do bizarro coelho de Donnie Darko para o imperturbável e desfigurado personagem de Frank Langella (extraordinário actor), um ex-funcionário da Nasa de quem se perdera o rasto após um acidente aparentemente mortal onde fora atingido por um raio eléctrico. É ele o enviado das Entidades que resolveram sujeitar a humanidade a um teste, iniciando-o com a população da Richmond, na Virginia (onde se situa um centro de pesquisa da Nasa). É também ele que nos confronta com o Purgatório que é a vida; com a vanidade de todos os desejos que nos são, e apenas a nós, dirigidos. The Box é claramente um filme moralista e adquire por vezes um tom quase messiânico. Mas é tão vasto o seu campo de referências (que em matéria de cinema parecem fixar-se entre o Lynch de Blue Velvet e Dune, e o Kubrick de The Shinning e 2001), que mal temos tempo de experimentar alguma logo nos encontramos sob a influência de outra.


















Permito-me concluir com uma afirmação algo visionária. The Box ficará não apenas com um dos filmes centrais deste "nosso" ano (trata-se de uma produção de 2009), como perdurará na história do cinema como um dos títulos importantes da década. Os seus resultados só agora começam a manifestar-se. E a mente, sabemos bem, tem um espaço que ninguém arriscou ainda a quantificar.

9.27.2010

Here come cowboys


















Our love is solid as a rock like the moon and stars
We built our love to last like Henry Ford built cars


[Merle Haggard, 1994.]


E mais um voto nos conservadores norte-americanos.

Had me at "Unglamorous"


























(...)

Frozen dinner, jelly glass of wine - tastes just fine
Two bread winners, five kids in short time - with eyes just like mine


How wonderful crowded dinners at the kitchen table
How beautiful one TV set - no cable
No frills, no fuss, perfectly us - unglamorous


(...)

How wonderful a gravel road leading to a front door
How beautiful old wool socks on a bedroom floor
No frills, no fuss, perfectly us - unglamorous


(...)


Lori McKenna. Alguns homens gostam de mulheres assim.

9.25.2010

Clássico e contemporâneo



Cada disco de Camané actualiza para o seu tempo os temas do fado de sempre.

9.24.2010

Storytelling



Maria Matos, Novembro, something like that (like this...).

9.23.2010

Update

De que serve estar sem te ver se continuas a aparecer-me em sonhos.

9.22.2010

Boca seca

Leve 4 pague 3
























Façam melhor, se puderem.

Brothers
















Brothers, Entre Irmãos é dos bons filmes (são poucos) em exibição. Esta realização do confiável Jim Sheridan parece preparar o terreno para o trágico, para o irremediável, para depois frustrar as expectativas do público menos avisado, com o triunfo da banalidade. O que é trágico no filme é a própria guerra (Afeganistão), o que lá acontece que não pode ser inteiramente partilhável, que é difícil de traduzir por palavras, que não é resgatável pela compaixão. Se estivermos a contar com um determinado desenlace, arriscamos perder o melhor do filme. O facto de aparentemente não ter nada de especial. O trajecto da banalidade em todo ele, e o modo como os actores se "apagam" para conseguirem ser-lhe fiéis.

9.21.2010

Cachorro moralista
















Também perdi largos minutos nos principais endereços onde Faye Reagan se entrega a todo o tipo de licenciosidades (nada que não tivesse visto antes protagonizado por dezenas de fémeas; e de varões, bem entendido). O moralista que há em mim morde o isco perante a dificuldade de entender que mulheres agraciadas com tamanha beleza a desbaratem com qualquer um (comigo), mesmo que em troca de direitos milionários decorrentes do uso da sua imagem. É horrível que o incómodo diminua face à comum badalhoquice, mas é mesmo assim (só a beleza se me afigura imaculada, merecedora de ser aqui preservada). O obstáculo é quase de ordem religiosa, reconheço, olhar representações que pela sua gratuitidade nos roubam o direito de rezar. Acreditem se quiserem: quando faço turismo por quaisquer destinos pornográficos é sempre em busca da transcendência: do instantâneo (imóvel ou sequencial) onde a mulher se liberta da sua proto-subjugação e se eleva em todo o esplendor. Pode ser uma expressão, um pormenor distituído de utilitariedade priápica, qualquer coisa que rompa com a lógica da eterna repetição. Um momento que dê a ilusão de ser só meu (porque fui o único a reparar).

9.20.2010

Paulos Bento
















Se Paulo Bento se tornar, como espero, no novo seleccionador de Portugal, estarei mais do lado da equipa nacional do que alguma vez estive. Há coisas que não se esquecem, sendo o carácter primordial entre elas todas.
O Sporting apostou este ano num outro Paulo (Sérgio) Bento (Brito). Apostou no carácter (?), que já deu para comprovar que o tem. Pena que depois não lhe pudesse (ou quisesse) ter dado ouvidos. Os golos de Cardozo, ontem, foram dois "pinheiros" enfiados goela abaixo de cada sportinguista.
Está na cara que Liedson, menos felino e mais previsível para as defesas adversárias, deixou de resolver sozinho. E que o resto da "madeira" de que dispomos não tem qualidade.
Valham-nos Bento & Bento, se puderem.

9.17.2010

Coberta de razão


















Faye Reagan (imagem retirada do My Space da actriz). Uma pele, um cabelo, uns pés, um corpo de sonho. O sonho possibilita o encontro da razão de uns com o anseio de outros.

"Educação Siberiana", Nicolai Lilin

Não me fazia impressão nem o corpo do polícia estrangulado nem a história da tatuagem copiada de um criminoso. A única coisa que naquele momento me parecia estranha, pouco natural e fora da minha maneira de compreender a vida, era aquele corpo vazio, sem tatuagens. Parecia-me uma coisa impossível, considerava-a quase como uma doença. Desde pequeno sempre estivera rodeado por pessoas tatuadas e para mim isso era absolutamente normal. Ver um corpo sem nada tatuado causava-me um estranho efeito: um sofrimento físico, uma espécie de piedade.

9.15.2010

O álbum negro

Estávamos no início dos anos 90 quando os Metallica gravaram o seu disco para a posteridade, embora não o mais apreciado pelos entusiastas do metal que continuarão a preferir Master of Puppets (estou com eles). Aquele a que se convencionou chamar "the black album" é um disco de paradoxos que desperta sentimentos ambivalentes. Esta é a sua maior originalidade. Os metaleiros tinham música para ouvir com as miúdas (The Unforgiven e Nothing Else Matters podiam também servir para compor westerns revisionistas), sendo que as duas baladas do disco representam dentro do género o mais próximo que se esteve de voltar a escalar a Stairway to Heaven. E enquanto elas se aconchegavam à sugestão do paraíso, os brutamontes preferiam as malhas de abertura (Enter Sandman e Sad But True) ou outros exemplos de riffalhada bem mais física que o disco tem de sobra, apesar de só raramente subir a rotação para níveis a que os Metallica da década anterior haviam habituado os fiéis (e nisto volto a estar com estes).

Observe as diferenças


























Ad Reinhardt, 1966.



























Metallica, 1991.

No topo (Madison Square Garden, 1973)

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